Há boas perspectivas para o mercado de ações brasileiro este ano, mas para repetir o bom desempenho de 2007 será necessário superar algumas turbulências
Fatores como o aumento da inflação, a crise no setor imobiliário nos Estados Unidos com conseqüente recessão no mercado norte-americano e o aumento da carga tributária (IOF e CSLL), logo no mês de janeiro, servem como prova de que o ano será repleto de desafios para aqueles que resolverem apostar no mercado de renda variável.
Aspectos positivos
Muita gente ganhou dinheiro em 2007 e investidores bem sucedidos esperam obter o mesmo desempenho do ano passado. Isso deverá atrair a curiosidade de muitos brasileiros que procuram opções para ganhar dinheiro em 2008. Mas é preciso alertar os novatos que comprar ações sempre envolve risco, e a análise do mercado não deve levar em consideração apenas o ano de 2007. Antes de comprar ações, deve-se olhar para o passado e tentar entender o que acontecerá no futuro.
O ano passado foi fantástico para os investidores estrangeiros que apostaram no Brasil, com um lucro de US$ 151 bilhões para os “gringos”. Em setembro de 2007, eles já detinham US$ 361 bilhões em ativos brasileiros, dos quais 90% em ações. O excelente desempenho deve trazer ao Brasil, ainda neste ano, um novo selo: o Investment grade, um certificado de qualidade conferido por agências internacionais a um punhado de empresas e países, o que deverá atrair ainda mais investidores.
O aumento de empresas brasileiras abrindo capital em bolsa de valores também foi um ponto positivo para o desempenho do mercado de ações em 2007. Em média, seis novas empresas realizaram IPOs, sigla em inglês para abertura de capital de empresas na bolsa. Algumas com valorização muito interessante, como as ações da própria Bovespa, que valorizaram 52% em um único dia.
Considerando a estabilidade econômica e as perspectivas de investimentos estrangeiros, o país deverá crescer cerca de 4,5%; o dólar projetado para o final do ano será de R$ 1,85, e a inflação deverá ficar em 4,11%. São números aceitáveis e adequados para manter as ações em alta.
Aspectos negativos
Impactos da crise nos EUA: O investidor deve lembrar que a crise no mercado norte-americano pode afetar o desempenho das bolsas estrangeiras e isso pode ter conseqüências diretas na bolsa de valores brasileira. Hoje os mercados financeiros estão globalizados e o investidor é internacional; uma crise ou recessão nunca afeta somente um ponto isolado, mas desencadeia uma série de perdas ao longo da cadeia de investimentos. A primeira metade de 2008 deverá ser de recessão nos EUA, segundo previsões mais pessimistas de alguns economistas, como o professor Nouriel Roubini, da Universidade de Nova Iorque.
Aumento da inflação: A inflação brasileira vinha diminuindo desde 2002. Mas essa trajetória de queda acabou em 2007, e os preços deverão subir ainda mais em 2008. O patamar de cerca de 4% ao ano ainda não é preocupante, mas, caso a inflação aumente mais, poderá influenciar negativamente o mercado de ações. O aumento da taxa de juros é negativo para o crescimento de empresas e do país. Assim, o preço das ações das empresas tende a cair, e a perspectiva de desempenho e expansão do mercado fica mais fraca.
Falta de eficiência governamental: A velha fórmula do governo de arrecadar muito e gastar ainda mais sem fazer os investimentos necessários continua sendo um ponto muito negativo. A falta de reformas administrativa e tributária torna esse cenário ainda mais preocupante, pois isso inclui falta de investimentos em infra-estrutura. As capacidades logística (de transporte e armazenagem) e energética podem chegar ao limite e um futuro próximo, e teme-se uma nova crise energética em 2009.
Cláudio José Carvajal Jr. é coordenador dos cursos de Administração da Faculdade Módulo e consultor em finanças. Possui MBA Executivo Internacional pela Universidade da Califórnia (EUA) e especialização em Administração pela EAESP/FGV. É também diretor-executivo da CPD Consult - Consultoria em Gestão Empresarial.