Em três anos, o quadro institucional para as MPEs na economia nacional mudou. Primeiro, a Lei Geral das MPEs, que determinou tratamento diferenciado, simplificado e favorecido a esses negócios, inclusive na concessão de crédito e vendas ao governo. Mais recentemente, em julho, começaram a valer as mudanças da Lei Complementar nº 128/2008, que institui a figura do Microempreendedor Individual (MEI) e ajudará a tirar da informalidade mais de 10 milhões de trabalhadores. Essas e outras melhorias tiveram como coadjuvantes o Sebrae, instituição privada de interesse público fundada em 1972. Além de atuar na articulação política, visando a um ambiente competitivo mais favorável, o Sebrae ajuda as MPEs a terem acesso a mais mercados e a melhorarem seus processos de gestão e inovação.
Como presidente nacional do Sebrae desde 2005, o paulista Paulo Narciso Okamoto é um dos protagonistas da história recente das micro e pequenas empresas brasileiras. Nesse período, Okamoto acampanhou a taxa de mortalidade dessas empresas cair de 50,6%, em 2005, para 22%, em 2007, segundo dados mais recentes. Segundo o presidente do Sebrae, essa evolução "é decorrente do fato dos empresários estarem se preparando mais, (...) da melhoria do ambiente legal e também da economia", conforme afirmou em entrevista exclusiva concedida durante inauguração do Centro de Educação Empresarial do Sebrae/SC. Além de comparar os resultados de sua gestão com as propostas formalizadas no direcionamento estratégico 2006-2010, Okamoto também comentou sobre os planos da instituição para os próximos anos, expressos no direcionamento 2010-2015, aprovado semanas antes da entrevista.
O que se espera daqui para frente é um cenário muito mais competitivo. O Observatório das MPEs, do Sebrae/SP, estima que em 2015 a proporção de empresas por habitante será de uma para 24, enquanto em 2004 a razão era de uma empresa para cada 36 pessoas. E caberá ao Sebrae ajudar as MPEs a se estruturarem adequadamente. Mas o desafio, na verdade, já está posto: embora Okamoto afirme que a crise afetou com maior intensidade apenas as empresas que têm produtos para exportação, uma pesquisa nacional feita pelo Sebrae/SP revela que a crise internacional afetou 63% das 4,2 mil empresas entrevistadas.Okamoto ainda ressalta a importância da educação empreendedora, e apresenta as ações que a instituição desenvolve nessa área.
Empreendedor Varejo: Pelo acompanhamento do Sebrae, como as micro e pequenas empresas sentiram a crise?
Nos estados mais desenvolvidos, que têm produtos para exportação, como o setor de calçados, esses setores tiveram mais dificuldades. Mas quem tem uma pequena empresa, e depende apenas do mercado interno, de um modo geral esses setores não tiveram grande influência da crise internacional. É bom lembrar que o mercado brasileiro é muito grande e o governo federal tomou muitas medidas para fortalecer o mercado interno, fazendo com que as empresas não demitissem, tentando criar iniciativas para gerar mais demanda interna. Mas o fato é que agora, com todas estas medidas, estamos em ritmo de retomada, com indicadores de crescimento. Temos grandes oportunidades pela frente, e é nisso que temos que pensar para poder aproveitá-las.
Recentemente, em junho, o Sebrae aprovou seu direcionamento estratégico para os próximos cinco anos. Quais são as principais mudanças?
Eu não diria que vai mudar. O Sebrae, a cada ano, aperfeiçoa a sua capacidade de análise da necessidade das nossas pequenas empresas. E procura, a partir dessa identificação, criar mecanismos para ajudá-las. De uma certa forma, isso permite que o Sebrae cumpra, de uma maneira muito satisfatória, essas necessidades. Nós estamos construindo, por exemplo, um projeto que chamamos de "revolução do atendimento", com sistemas de internet e atendimento de massa – como nossa central de relacionamento, nosso portal, o atendimento pelo celular. Também usamos a educação a distância como uma forma rápida e eficiente de levar conhecimento e orientações de consultoria. Isso é uma coisa que estamos construindo, e que o Sebrae está muito bem posicionado nisso. Além disso, estamos desenvolvendo novas metodologias, a partir do ambiente que se conseguiu criar. Por exemplo, o MEI (Microempreendedor Individual, novo sistema de recolhimento fixo de tributos) vai permitir ao Sebrae levar soluções para um tipo de empresário que até então tínhamos pouca resposta, aquele empresário que fatura até R$ 36 mil. Hoje, o Sebrae pode explicar para ele como se formalizar, quais obrigações tem que cumprir e isso vai agregar muito valor a esse negócio também. São para coisas como essas que nosso planejamento estratégico é pensado, construindo soluções e mensurando os resultados que nós conseguimos alcançar.
No direcionamento de 2006-2010, vocês registraram a intenção de acompanhar índices como a taxa de sobrevivência e tempo médio de abertura e fechamento das micro e pequenas empresas. Chegando quase ao fim desse prazo, o que mudou?
Houve uma evolução muito grande. Há cinco anos tínhamos uma mortalidade de mais de 50%, e atualmente, para cada 10 empresas abertas, 7,8 sobrevivem mais de dois anos. Isso é decorrente do fato dos empresários estarem se preparando mais, a capacitação e a educação desses empresários aumentou e também melhorou o ambiente legal – caso da Lei Geral (das Micro e Pequenas Empresas). E também melhorou a economia. Mas o fato é que os empresários da nossa pesquisa têm percepção de que a busca do conhecimento virou um elemento estratégico para aumentar a sobrevivência de sua empresa e para torná-la mais competitiva.
O Sebrae tem a intenção de potencializar alguns mercados, como comércio eletrônico. Já há alguma perspectiva de como será este trabalho?
O papel do Sebrae é buscar conhecimento, soluções e associações entre empresas. O que ele faz, por exemplo, no comércio eletrônico é discutir a questão legal e depois construir soluções a partir de exemplos que já existem no mundo. Esse é um mercado que cresce muito e que tem um futuro muito interessante. E a gente precisa, portanto, pegar esses conhecimentos, números e processos de gestão desses negócios e traduzi-los para as pequenas empresas e discutir alternativas, para que elas incorporem esses conhecimentos.
Qual será o cenário de atuação e os fatores de competitividade das MPEs em 2015?
Nós trabalhamos com um cenário de que o mundo será cada vez mais globalizado. Então, as transações internacionais deverão ocorrer de forma mais rápida. Existe tendência de setores com mais oportunidades de negócio e de ganhar dinheiro. E também as grandes empresas vão tentar ocupar esse espaço – seja ele na área da saúde, da educação ou de serviços. E nós então temos que levar a chamada "cooperação", a rede, o conhecimento e o associativismo para fazer com que essas pequenas empresas tenham a capacidade de ter escala. E essa escala não depende do tamanho da empresa, mas da rede que ela criou.
Falando em associativismo, você considera que as micro e pequenas empresas hoje estão tendo uma cooperação maior?
Acho que de certa forma sim. Se considerarmos que a cooperação de certa forma se dá pela troca de informações, usando como base a internet. Mas nós precisamos fortalecer mais ainda as relações entre empresas, através de redes e das associações de classe. Pois há muita disputa por espaço. A busca por ambiente legal e acesso a conhecimento facilita muito se você estiver associado e tenha projetos estratégicos construídos coletivamente. Isso permite ao pequeno empresário avançar mais rápido.
Hoje se fala na necessidade de implantar a "semente" do empreendedorismo nos jovens, de preferência desde o ensino básico. O que o Sebrae tem feito ou pretende fazer, nos próximos anos, quanto à disseminação da cultura empreendedora entre jovens e adolescentes?
O Sebrae trabalha difundindo a cultura empreendedora, incluindo escolas estaduais, onde treinamos professores para levar a cultura empreendedora. Temos também um projeto para o mundo universitário, o Desafio Sebrae, em que cerca de 130 mil jovens participam deste projeto por ano. Nele trabalhamos a questão da educação empreendedora. Além disso, temos outros projetos com universidades, bolsas e estágios, para fazer com que a cultura empreendedora esteja presente. O mais importante é mostrar que ser empreendedor não é só montar um empreendimento, mas aquela pessoa que tem essa atitude de assumir responsabilidades, de criar soluções e de se apresentar. E o brasileiro nesse quesito está bem à frente em relação a outros países. O que a gente precisa é dar mais oportunidades e condições para aproveitar essa qualidade que o brasileiro tem quase que por natureza.
Contato:
Paulo Okamoto: 0800 570 0800
 
Conteúdo publicado na Revista do Varejo