[[F3469 D]] Antes de trabalhar com a produção de cristais, os irmãos Paulo e Antônio Carlos Molinari ajudavam o pai. Ainda crianças, lavavam garrafas na fábrica de aguardente e vinho da família de descendentes de imigrantes italianos para retirar a cola dos rótulos. Depois de limpas, as garrafas eram enchidas novamente, e recomeçava o trabalho manual de colar os rótulos novos. No armazém de secos e molhados, anexo à fábrica, entregavam as compras dos fregueses com um carrinho de mão feito de madeira. Quando o pai começou a derrubar matas para o plantio de café, a pedido dos fazendeiros, os irmãos Molinari iam junto para empilhar a lenha, limpar as galhadas e vender a madeira a granel na cidade. À noite, a família saía para caçar sapos e vendê-los a um laboratório especializado. “Era uma forma de aumentarmos a renda”, diz Antônio Carlos, hoje sócio da maior fábrica de vidros artesanais tipo Murano da América Latina.
O primeiro contato com a arte de esculpir vidro foi aos 11 anos, quando seu pai prestou serviços como lenheiro para o mestre-vidreiro italiano Aldo Bonora. A irmã Ângela Cristina Molinari conseguiu um emprego na fábrica, e Antônio Carlos e Paulo, com apenas 8 anos de idade, foram escolhidos como discípulos de Bonora. Jovens e com muita vontade de aprender, eles passaram por todos os setores da oficina e, em pouco tempo, já produziam pequenas peças de vidro e colares.
Os irmãos Molinari foram os primeiros mestres brasileiros do vidro tipo Murano e, em 1962, fundaram a Cristais São Marcos, referência mundial no ramo. Com sede na cidade mineira de Poços de Caldas, a empresa produz diariamente quatro toneladas de peças de vidro. Por serem produzidas de maneira artesanal, sem interferência de equipamentos, as peças de Murano são consideradas obras de arte. “O mestre Bonora nos deu liberdade para criar. Lembramos com muito orgulho quando, naquela época, já éramos considerados como os discípulos e sucessores dele”, diz Antônio Carlos.
A fabricação do vidro tipo Murano foi mantida em segredo por séculos pelos italianos, para evitar que estrangeiros se apropriassem do conhecimento passado de geração em geração. A técnica do vidro soprado foi desenvolvida pelos sírios e tornou possível a produção de vidros ocos, como garrafas e frascos. Em 1291, as autoridades venezianas, preocupadas em preservar o sigilo da arte do vidro, transferiram todas as fundições da cidade de Veneza para a Ilha Murano. Os artesãos não podiam abandonar a ilha sob a ameaça de pagarem com a própria vida. Algumas famílias moram e trabalham até hoje em Murano – por vontade própria –, fabricando vidros como obras de arte, reconhecidas em todo o mundo. Há um espírito de competição entre as famílias artesãs, e elas buscam sempre aperfeiçoar as formas e tonalidades dos vidros.
Para produzir o vidro, é preciso derreter as matérias-primas em um forno aquecido a 1.450ºC, de onde se obtém uma massa incandescente, que é colhida pela cana de assopro – tubo de aço no qual se colhe a bola de vidro no forno – e passa a ser trabalhada pelo vidreiro a 1.250ºC. As cores são obtidas através dos óxidos. O verde se obtém com o cromo; o azul, com o cobalto. Para o vermelho, usa-se o selênio, e para o lilás, o manganês.
Quando Aldo Bonora resolveu se afastar do trabalho, deixou a fábrica para o irmão Gianinno Bonora, também mestre-vidreiro, e reservou um espaço para que os irmãos Molinari continuassem produzindo suas próprias peças. Foi quando nasceu a primeira empresa da família – Antônio Molinari e Filhos Ltda., que se transformou mais tarde em Cristais São Marcos e tem, até hoje, como sócios os irmãos Paulo, Antônio Carlos, Angela Cristina, Nivia Maria e João Batista Molinari. Com o crescimento do negócio, a oficina foi instalada em um espaço maior. Mais tarde, com o retorno de Aldo Bonora à ativa, ficou consagrada a indústria do vidro em Poços de Caldas, com a Cristaleria Bonora e a Cristais São Marcos como pioneiras no ramo.
[[F3470 D]] Quando o pai morreu, Antônio Carlos assumiu todas as responsabilidades e obrigações de chefe de família e diretor da empresa. Até hoje, trabalha pelo menos 12 horas por dia, de segunda a sábado. “O meu dia-a-dia é o trabalho. É onde me sinto realizado, sem hora para chegar e muito menos para sair. Dedico-me com o mesmo vigor de quando comecei”, diz. Casado e pai de quatro filhos, tem pouco tempo para o lazer, mas não dispensa o almoço e o jantar em família, todos os dias, de preferência regados a um bom vinho.
Por causa da dedicação exclusiva ao trabalho, não aprendeu a nadar nem a jogar futebol. Não sabe jogar cartas, não bebe, não fuma, e a vida social nunca o atraiu. O “esporte” que pratica, sempre que pode, segundo diz, é uma boa conversa, quando consegue “aprender e repassar algo de bom dessa vida”.
Em compensação, mesmo tendo estudado apenas até o ginásio (equivalente, hoje, ao Ensino Fundamental), levou sua empresa a conquistar reconhecimento internacional pela qualidade das peças. Os Molinari foram os primeiros mestres-vidreiros sul-americanos a exportar peças artesanais tipo Murano para países europeus, inclusive para a Itália – motivo de orgulho para a família. A lista ainda inclui Estados Unidos, Alemanha, Portugal, Emirados Árabes, Índia, Suíça e Grécia, entre outros.Peças assinadas
[[F3471 D]] Atualmente, a Cristais São Marcos conta com aproximadamente 50 linhas e 500 produtos diferentes, entre vasos, fruteiras, cachepôs, castiçais, pesos para papel, garrafas decorativas e lamparinas. Além das três lojas próprias instaladas em Poços de Caldas, os produtos são vendidos por cerca de 1,5 mil lojistas em todo o país. Na década de 1990, a empresa criou a Molinari Design, braço da Cristais São Marcos que desenvolve coleções de peças únicas ou séries limitadas, lançadas duas vezes por ano. O preço das peças assinadas Molinari, na fábrica, varia entre R$ 350 e R$ 1,1 mil.
Em 2005, a Cristais São Marcos expôs suas peças no Palácio Pamphili, na Piazza Navona, em Roma, a convite do governo brasileiro. A mostra teve grande repercussão, e a empresa foi convidada a fazer uma mostra também em San Donà de Piave, pequena cidade a 45 quilômetros de Veneza. Antônio Carlos foi cercado por jornalistas italianos, que queriam saber por que a Cristais São Marcos estava expondo as peças justamente na Itália, que é o berço do Murano, e não em outros países, onde não havia comparação. Ele respondeu que a intenção era mostrar que sua família, descendente de italianos, tinha capacidade para criar peças tão belas quanto as que são feitas em Murano. “A reação dos jornalistas foi tão surpreendente, que nunca mais me esqueci daquele momento. Um deles me abraçou e me levantou no ar, dizendo: ‘Bravo! Bravo!’ Foi muito significativo”, diz Antônio Carlos. Na última carga de exportação para a Europa, 1,2 mil peças foram destinadas à Itália.
Os Molinari são admirados também pela autonomia na linha de produção. Enquanto na Itália as pessoas se especializam em determinadas fases da fabricação do vidro – vidreiro, forneiro, ferramenteiro, designer –, no Brasil a necessidade obrigou os empresários a conhecerem todos esses setores e adotar a criatividade para ampliar a produção. Todos os fornos e equipamentos existentes na fábrica são construídos por eles mesmos, sem a ajuda de engenheiros ou técnicos estrangeiros especializados.
A meta da empresa é consolidar o nome e a qualidade dos produtos da Cristais São Marcos no mercado externo com a mesma força que tem, hoje, no mercado nacional. Para Antônio Carlos, o importante é conseguir transmitir para os filhos, sobrinhos e genros a tradição da família, e garantir o sucesso do negócio com a mesma seriedade e dedicação que tem hoje. “Tudo foi realizado sem que tivéssemos berço de ouro, sem os bancos das universidades ou as facilidades da elite, mas com o trabalho, a inteligência e a ousadia que sempre tivemos, desde crianças”, diz.
Para a alegria dos Molinari, a tradição artística da família promete dar frutos. Os filhos e sobrinhos já demonstram habilidade e talento na arte vidreira e participam do trabalho na fábrica. Segundo Antônio Carlos, eles estão sendo preparados para a sucessão.