Reportagens
10/04/2008 09:07
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Brasil: força e ameaças

por Alcides Leite Domingues Junior

É sempre difícil fazer comparações macroeconômicas entre diferentes países. Cada um tem peculiaridades que devem ser analisadas separadamente. No entanto, num exercício de simplificação, decidi fazer essa confrontação. Para tanto, escolhi, como síntese, três indicadores, que julgo bastante significativos: a taxa do crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB); a taxa anual de inflação; e o resultado da conta-corrente em relação ao PIB, todos aos últimos doze meses.

Os números foram extraídos da última edição da revista The Economist. Estes três indicadores são interessantes, se analisados conjuntamente, porque um país pode estar crescendo bastante, porém à custa de déficit na balança comercial e/ou alta inflação. Um país também pode estar com a inflação sob controle, porém às custas de baixo crescimento econômico e/ou excesso de importação barata. Além disso, é possível que se tenha superávit em conta-corrente, com grande volume de exportação e baixo volume de importação (devido à desvalorização da moeda local), mas tendo como conseqüência uma inflação crescente.

O ideal, no entanto, é que um país apresente crescimento econômico robusto (PIB > 4%), inflação controlada (IPC < 5%) e resultado em Conta-Corrente equilibrado (CC/PIB > -0,5%). Os valores escolhidos como parâmetros foram convencionados livremente.

Nesse exercício, comparei a situação de 30 países: doze da Europa (Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Espanha, Holanda, Suécia, Noruega, Finlândia, Irlanda, Rússia e República Tcheca), oito das Américas (Canadá, Estados Unidos, México, Colômbia, Peru, Brasil, Argentina e Chile), sete da Ásia (Arábia Saudita, Turquia, Índia, China, Malásia, Japão e Coréia do Sul), dois da Oceania (Austrália e Nova Zelândia) e um da África (África do Sul).

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De todos esses países, somente seis apresentam os três indicadores em níveis adequados: Holanda, Noruega, Coréia do Sul, Brasil, Peru e Malásia. Onze apresentam um dos indicadores insuficiente (China, Rússia, Índia, Argentina, Chile e Arábia Saudita, com crescimento do PIB e resultado em conta-corrente bons, porém com inflação elevada. Canadá, Alemanha, Suécia, Finlândia e Japão com inflação e resultado em conta-corrente bons, porém com baixo crescimento econômico. Irlanda, com inflação e crescimento econômico bons, mas com resultado em conta-corrente ruim).

Doze com apenas um indicador em bom nível (Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália, Espanha e México com inflação controlada, mas com baixo crescimento do PIB e resultado em conta-corrente bastante negativo. Colômbia, República Tcheca, Índia e África do Sul com alto crescimento econômico, mas com os dois outros indicadores insatisfatórios. A Turquia não apresenta nenhum dos indicadores satisfatórios).

Dos países “top de linha”, a Holanda e a Noruega se beneficiaram diretamente dos altos preços do petróleo e seus derivados; e o Peru dos altos preços dos minerais. Malásia se beneficia das exportações da indústria de transformação. O Brasil e a Coréia do Sul contam com uma pauta mais diversificada de exportação, apesar de o Brasil ter se beneficiado pelas altas dos alimentos e dos minerais.

Como vimos, apesar de toda a crise financeira internacional, o Brasil se encontra bastante fortalecido no momento atual. No futuro próximo, dois problemas podem aparecer: resultado em conta-corrente muito negativo e inflação em alta. O primeiro é mais provável que ocorra nos próximos meses. Apesar de contarmos com altos investimentos diretos estrangeiros e em carteira, que compensam a piora do resultado em conta-corrente, não podemos ficar na dependência de recursos externos para fecharmos as contas, sob pena de aumentarmos a nossa vulnerabilidade. Comparativamente, portanto, o Brasil está bem, mas é necessário ficarmos atentos para as conseqüências negativas da atual supervalorização do real.

Alcides Domingues Leite Junior é professor de macroeconomia da Trevisan Escola de Negócios.




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