Voz da Experiência
16/08/2007 00:00
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Caminho de choques e êxitos

por Ana Carolina Dionísio

Nem esmorecer nem se acomodar, essa é a receita de um empreendedor de sucesso

[[F3364 D]] Foi aos treze anos, montando jogos de luzes em festas de garagem em Ponta Grossa, no interior do Paraná, que Marcel Malczewski aprendeu uma lição útil para sua trajetória empreendedora: “Para vencer, tem que apanhar muito”. Sem nenhum conhecimento de Eletrônica, o menino havia ficado responsável pela parte elétrica da “empresa” de sonorização que havia fundado com o irmão e alguns primos. “Eu fazia tudo sozinho, ligava os fios antes de a festa começar, então, cansou de primo meu ter que me puxar da tomada, porque eu estava tomando choque”, lembra.

Quase trinta anos depois, como diretor da Bematech S.A., empresa que desde 1999 quadruplicou seu faturamento e atingiu R$ 192 milhões no ano passado, o executivo recorda esta experiência que misturou brincadeira e empreendedorismo como um momento marcante, em que precisou assumir responsabilidades e ter persistência para colocar seus objetivos em prática. Assim como não desistiu da “empresa de sonorização” na primeira vez em que ficou grudado em uma tomada, Malczewski não deixou que as seguidas crises pelas quais a Bematech passou abalassem sua vontade de construir um negócio de sucesso.

Por outro lado, os êxitos sucessivos não significaram comodismo para o executivo: “O avanço em fechar um projeto de aquisição, em fazer investimento num novo produto, em abrir uma subsidiária fora do Brasil, são coisas muito arriscadas, mas alguém tem que tomar essas decisões, o que normalmente tira as pessoas de uma situação de conforto”. Desde o início da carreira, como estudante de Engenharia Elétrica na Universidade Federal do Paraná (UFPR), Malczewski conviveu com investimentos desconfortantes. Em 1986, terminando a graduação e fazendo estágio em um banco, abriu uma software-house. Diploma na mão, era lógico que ele associaria seu trabalho na empresa com a atuação de funcionário efetivo no banco.

Contrariando estas expectativas, o recém-formado engenheiro resolveu deixar as duas ocupações para fazer pós-graduação no Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná (Cefet–PR). Além do título de mestre, a vivência no Cefet trouxe a Malczewski a parceria de Wolney Betiol. Aos dois, veio a possibilidade de transformar os estudos que desenvolveram em suas dissertações, sobre sistemas de impressão matricial por impacto, na primeira empresa incubada no Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), em 1989. Era o início da Bematec (ainda sem o agá), abreviatura de Betiol & Malczewski Tecnologia, nome “duro de dizer e de entender”, nas suas próprias palavras.

Desde o nascimento, as crises acompanharam a trajetória da Bematech. “A entrada na incubadora já foi, de certa forma, uma conversa difícil”, conta Malczewski. Isso porque os sócios perderam o apoio da empresa que financiaria os equipamentos para fabricação de impressoras para telex. Em vez de desistirem da idéia, resolveram tentar outras alternativas: “Conseguimos acertar com a incubadora que ela não nos cobraria nada no início e apostaria no projeto junto conosco. Foi um risco para eles também, mas conseguimos vender a idéia de eles arriscarem conosco.”

Já na saída da incubadora, o empresário teve que exercitar a habilidade de investir em novos produtos antes que os atuais perdessem mercado. Da fabricação de equipamentos para telex, passaram para o desenvolvimento de miniimpressoras, que foram aproveitadas principalmente nos caixas de atendimento automático dos bancos. Em 1995, fechando o ano com um faturamento de US$ 5 milhões, a empresa sofreu um golpe com a retração do mercado de automação bancária.

Partiram, então, para a automação comercial, nicho em que se tornaram líderes. “Talvez, o que está por trás disso tudo seja a idéia original de querermos construir um empreendimento de sucesso, e não um produto de sucesso.” Não é à toa que, atualmente, a Bematech reverte cerca de 5,5% do faturamento para pesquisa e desenvolvimento de novos produtos. Mas o empresário ressalta que é preciso ter cautela no momento de criar projetos. Um dos erros que Malczewski aponta em sua trajetória é o investimento excessivo em vários produtos novos ao mesmo tempo.Angel investors

[[F3365 D]] Este foi mais um dos equívocos cometidos pela falta de uma administração centralizada da empresa. Quando a Bematec saiu da Tecpar em 1991, após várias negativas de agências de fomento e bancos públicos, tornou-se propriedade de um pool de investidores: seis pessoas jurídicas, representando diversas empresas do Paraná, e três pessoas físicas, entre elas Betiol e Malczewski. “Nós tínhamos construído, apesar de não termos ainda um produto consistente e muito menos vendido, algo que valia em torno de US$ 150 mil, e nós precisávamos de US$ 150 mil para começar o negócio. Os investidores entraram com esse valor, postados entre meados de 1991 e meados de 1992, e ficaram com 50% do negócio”. Foi em 2001, já completando dez anos, que a Bematech (agora com o agá) passou a ser liderada por um executivo principal, que atuava junto com um conselho formado pelos proprietários. “Escolher este executivo só em 2001 representou gastos excessivos, decisões erradas em projetos, estruturação equivocada. A empresa teria que ter escolhido o principal executivo antes”, destaca Malczewski.

Ele reconhece, contudo, que essa pulverização do comando foi fundamental para a capitalização e consolidação inicial da Bematech. Mesmo dedicando 11 horas de seu dia para o negócio, Malczewski não teve medo de entregar parte dele para angels investors, e critica quem tem este receio. “O empreendedor, às vezes, tem medo de perder parte do negócio quando está começando, esse é um medo errado. Entregar parte do negócio para um grupo de investidores, que, além do dinheiro também trazem apoio na governança da empresa, foi um acerto muito grande.”

Nova grafia

A presença de investidores com personalidades distintas influenciou até o próprio nome da empresa. A grafia dos tempos da incubadora – “Be” de Betiol, “Ma” de Malczewski” e “Tec” de tecnologia – recebeu o “h” no final pela sugestão de um dos angels investors, que gostava de numerologia e acreditava que o nome do negócio deveria ter oito letras. “Mas a gente não queria mudar o nome, pois achava que Bematec já tinha pegado”. A solução foi adicionar o agá, mantendo a sonoridade e o bom enquadramento numerológico do nome. “Não tivemos a intenção de internacionalizar o nome, foi mais para satisfazer um dos acionistas, que queria um nome com oito letras.”

É também na parte da gestão que Malczewski destaca outro passo errado em seu percurso empreendedor: a contratação tardia de um profissional da área de administração e finanças. “Nós começamos a empresa como engenheiros, técnicos, construindo os produtos, e achamos que conseguiríamos desenvolver o negócio ao longo do tempo dessa forma.” Tanta autoconfiança não deu os frutos esperados. Principalmente entre 1995 e 1997, com a decadência da automação bancária e a necessidade de mudança para a área comercial, a empresa enfrentou momentos de crise que, segundo Malczewski, poderiam ser evitados com a presença de um administrador financeiro experiente, que chegou em 1997. “Acho que, se tivéssemos trazido já em 1994 alguém para nos ajudar na parte administrativa e financeira de estruturação de equipe, tudo teria sido muito mais fácil.”

Apesar de desgastantes, os reveses reforçaram em Malczewski a necessidade de se antecipar às crises, mesmo que, para isso, seja necessário sair do comodismo e assumir responsabilidades imprevistas. “Isso aconteceu na mudança de impressora de telex para impressora de automação bancária e dessa para impressora de automação comercial. E agora, estamos passando por uma nova mudança, passando para soluções completas para automação comercial. Em todas elas, a empresa não esperou o negócio degringolar para fazer isso”, afirma o executivo. Nesta seqüência de transformações que asseguram a permanência da empresa, a Bematech entrou, em abril de 2007, no mercado de capitais da Bovespa. Mas a operação não representa, para Malczewski, uma ruptura, mas uma continuidade de um processo incremental da empresa, que sempre teve como objetivo ser uma S.A. de capital aberto. A abertura de escritórios em Atlanta (2001), Taipei (2003) e, neste ano, em Berlim e Buenos Aires faz parte desta expansão.


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