Reportagens
09/07/2008 13:08
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Contas externas: uma pedra no nosso sapato

por Alcides Domingues Leite Júnior

Em meio a um cipoal de indicadores econômicos positivos, os últimos dados do balanço de pagamentos aparecem como exceção e começam a preocupar a maioria dos analistas econômicos e o próprio governo. Dada a influência que as contas externas exercem sobre todos os setores da economia, tal apreensão procede.



Embora o balanço de pagamentos tenha apresentado superávit ao longo de 2008, sua composição mudou bastante em relação àquela apresentada no mesmo período de anos anteriores. Atualmente, o superávit do balanço de pagamentos depende dos resultados do balanço de capitais, uma vez que o balanço de transações Correntes vem apresentando crescentes déficits. O resultado positivo das contas externas, portanto, depende cada vez mais do financiamento estrangeiro, que costuma mudar de humor com muita facilidade.



É verdade que boa parte dos recursos externos tem sido aplicada em ações e ativos físicos do setor produtivo, isto é, em investimentos diretos que contribuem com a ampliação da capacidade instalada no país. É verdade também que um país em desenvolvimento normalmente apresenta déficits em conta-corrente, uma vez que o ritmo de crescimento de sua economia é superior àquele apresentado pelos países já desenvolvidos.



No entanto, quando cresce o volume de investimento direto estrangeiro, também cresce o envio de lucros, dividendos e outras remessas para o exterior. Isto contribui para aumentar o déficit na balança de serviços e rendas e, conseqüentemente, crescer o déficit no balanço de transações correntes, gerando, então, um círculo vicioso: mais déficit em conta-corrente, mais necessidade de recursos externos para financiar este déficit, que acaba gerando, no fim, mais déficit em conta-corrente. Um maior superávit na balança comercial poderia atenuar os déficits na conta de serviços e rendas. Porém, dificilmente um país em desenvolvimento pode contar com um excedente exportável muito elevado, uma vez que o mercado interno absorve boa parte da produção local. Além disso, para aumentar substancialmente o saldo comercial, é necessário corrigir os excessos de valorização cambial.

Para se evitar uma excessiva dependência do capital externo, é necessário estipular um limite aceitável para o déficit em conta-corrente. Os especialistas em contas externas costumam afirmar que, para um país em desenvolvimento, um déficit de até 2% do Produto Interno Bruto (PIB) é aceitável. Mais do que isto é perigoso.

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O déficit em conta-corrente do Brasil ao longo de 2008 já chegou a US$ 14 bilhões, contra um superávit de US$ 2 bilhões no mesmo período do ano passado. Uma variação de US$ 16 bilhões. Se seguir neste ritmo, o déficit em conta-corrente deve chegar perto de 3% do PIB em 2008, número bastante preocupante, independente do comportamento do volume de investimento direto estrangeiro.



A conjugação de altos déficits em conta-corrente com altos superávits na conta de capitais cria uma situação ruim para o país. Em um regime de câmbio flutuante, como o nosso, os déficits em conta-corrente levaria à desvalorização do real, com conseqüente incentivo ao aumento do superávit da balança comercial, que por sua vez, ajudaria a corrigir o próprio déficit em conta-corrente. Mas, com superávit na conta de capital, o país continua a receber muitos dólares, o que mantém o real apreciado, prejudicando nossa balança comercial e contribuindo para a manutenção do déficit em conta-corrente.



As perguntas que todos fazem são: como sair desta armadilha? Como escapar dos efeitos negativos gerados por nossas virtudes e não por nossos defeitos? A percepção internacional da boa situação econômica do Brasil faz com que uma enxurrada de dólares migre para o país. Não há como dizer não a estes capitais. São em grande parte sadios, alocados em investimentos necessários para o país.



No curto prazo, a única forma possível de atenuar a situação é aumentar as compras de reservas estrangeiras pelo Banco Central. Altas reservas em moeda estrangeira geram altos custos de oportunidade. No entanto, dado os estragos que a excessiva valorização do câmbio traz para a economia nacional, estes custos devem ser assumidos.



O aumento dos financiamentos para exportação também pode ajudar, mas seus efeitos não são imediatos. Entre o acesso a recursos e entrega dos produtos vendidos ao exterior há um hiato de alguns meses.



Ao longo dos próximos meses, é necessário que o governo acompanhe com cuidado o comportamento das contas externas. Qualquer deslize nesta área pode custar caro para a economia brasileira.

Alcides Domingues Leite Junior é professor de economia da Trevisan Escola de Negócios.




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