Reportagens
10/11/2008 14:47
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Crise global sob a ótica ambiental

por Antonio Carlos Porto Araujo

O mundo observa atônito o movimento de fúria nos mercados financeiros. Ondas de choque avançam sobre a economia real, atingindo indistintamente diversos setores, tanto os frágeis, como também os sólidos. Em meio a essa inundação, ainda não é possível ter uma visão clara dos setores ou empresas que conseguirão manter-se equilibradas após o recuo das águas.

Para contribuir com o debate, alguns elementos importantes de esclarecimentos se fazem necessários. Esses elementos fornecem indicações racionais de que o Brasil deverá manter índices positivos de crescimento econômico.

Historicamente, são verificados movimentos geopolíticos e até mesmo ciclos de ascensão e queda nos ataques a preços de produtos e serviços: motim da fome na França, guerras, crise de 29, choque do petróleo, só para citar alguns mais freqüentes na memória coletiva.

Ocorre que com a globalização e a maior interligação dos mercados, esses ciclos tornaram-se mais curtos e com ondas de propagação mais dinâmicas.

Esse cenário atual merece uma visualização sob a ótica ambiental. Fenômenos climáticos conseqüentes do aquecimento global influenciam a movimentação bilionária de recursos, atingindo também, indistintamente, todos os setores e países.

Os Estados Unidos são alcançados freqüentemente por furacões e desembolsam cada vez mais recursos com pagamentos de seguros. Nesse caso, estas companhias têm uma preocupação crescente, já que impactadas nos seus resultados financeiros, não é irreal supor que essas seguradoras venham apresentar balanços pouco atraentes.

Para o Brasil, no entanto, o momento é de atenção. Porém, claramente, voltada às oportunidades globais que se apresentam. Evidente que seu mercado interno, que representa 85% do Produto Interno Bruto (PIB), indica que poderia suportar uma retração do comércio internacional, sobretudo de produtos manufaturados. Isso garantiria uma espécie de crescimento por inércia, com fortalecimento ainda maior do mercado interno e, em razão dessa questão macroeconômica, manter alguma estabilidade de preços.

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Por outro lado, nossa principal fonte de otimismo se dá a partir do potencial exportador de commodities, sobretudo agrícolas. Os preços apresentam-se em um patamar semelhante ao registrado há um ano (outubro de 2007), apesar de alegações de alarmistas de que os preços sofreram enorme redução, tomando-se como base um pico insustentável de abril de 2008.

A notícia mais favorável vem da China. Com seu desenvolvimento econômico e social agregou 450 milhões de pessoas em uma camada que consome mais alimentos — e com mais proteínas. Isso resultou diretamente em um expressivo aumento de exportações brasileiras de alimentos, principalmente soja. Novamente uma questão climática, já que a China vem sofrendo com escassez de água para esse aumento de demanda agrícola, preferindo importar do Brasil.

Atualmente, o governo chinês desenvolve um agressivo programa de inclusão social, prevendo trazer a essa nova classe de consumidores de alimentos cerca de 850 milhões de chineses. O atendimento a essa necessidade de grãos poderá ser feita pelo Brasil, único país capaz de responder com agilidade esses volumes expressivos de alimentos.

Também em razão de questões ambientais, o Brasil será beneficiado com o mercado da China. O Brasil produz a metade do petróleo chinês, mas o consumo deles é quatro vezes maior, sendo mais dependente externamente dessa fonte de energia. Como resposta, o governo chinês estuda paulatinamente a substituição da utilização de combustíveis fósseis por renováveis, menos poluentes, sendo os biocombustíveis brasileiro o alvo preferido.

Essa medida vai representar um acréscimo importante na pauta de exportação brasileira, sobretudo do etanol. Nesse caso, a indústria do setor sucroalcooleiro se movimenta com melhoria nos processos produtivos, expansão de unidades para outros países – sobretudo na África – e práticas de responsabilidade sócio-ambiental dos combustíveis renováveis.

Toda essa nova geração de recursos de exportação contribui para minimizar efeitos de uma desaceleração global, nesse momento de turbulência, implicando para o Brasil o aproveitamento econômico de sua área produtiva e agricultável.

Antonio Carlos Porto Araujo é advogado, ambientalista, consultor da Trevisan Consultoria e editor da Trevisan Editora Universitária.

Email: antonio.araujo@trevisanconsult.com.br




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