Perfil
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Descarte limpopor Cléia SchmitzO empresário investiu suas reservas em sistema inovador de descontaminação e reciclagem de lâmpadas fluorescentes
Foi o potencial econômico de um negócio ambientalmente sustentável que conquistou Carlos Alberto Pachelli, sócio e diretor de vendas e marketing da Tramppo desde 2007. Depois de 13 anos atuando como executivo no mercado farmacêutico, ele decidiu partir para o que chamava de “plano B”. Às vésperas de completar 50 anos, Pachelli achou que era hora de ter o próprio empreendimento. Ao ler uma matéria no jornal Gazeta Mercantil sobre uma empresa paranaense que fazia o descarte de lâmpadas, se interessou pelo assunto. Pediu demissão do emprego e com uma reserva monetária foi atrás de seu novo desafio. Depois de visitar a empresa em Curitiba e fazer a prospecção do negócio, acabou desistindo do investimento. Mas nesse meio tempo, em suas pesquisas sobre a reciclagem de lâmpadas, conheceu a Tramppo Recicla, instalada no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), da Universidade de São Paulo (USP). O aval da instituição foi um ponto a favor para o investimento, mas o que chamou atenção mesmo de Pachelli foi o sistema diferenciado de descontaminação e reciclagem das lâmpadas fluorescentes. O equipamento utilizado no processo, com 100% de tecnologia nacional, dispensa o uso de água e separa todos os componentes da lâmpada – vidro, pó fosfórico, terminais de alumínio e mercúrio –, permitindo uma produção mais limpa do que a realizada por muitas empresas concorrentes. Nada é descartado em aterros sanitários. Tudo vira subproduto para outras cadeias produtivas. O vidro triturado é enviado para indústrias cerâmicas e o pó fosfórico (que dá a cor esbranquiçada à lâmpada) serve de matéria-prima para fábricas de tinta. Os terminais de alumínio seguem para fundições. Até mesmo o mercúrio, considerado de difícil reutilização, tem o que Pachelli chama de “destino nobre”. Depois de extraído das lâmpadas, ele é condensado e se transforma em matéria-prima para outra cadeia produtiva. O empresário só não revela o segmento industrial que o recebe porque considera a informação estratégica. Segundo ele, a solução foi conquistada depois de dois anos de pesquisas. Atualmente, apenas o vidro triturado é vendido para a indústria. Mas Pachelli destaca que o objetivo não é obter receita com a comercialização dos componentes e sim fazer a destinação correta de todos os resíduos. “Nossa preocupação é fechar o ciclo da sustentabilidade”, afirma o empresário. Ou seja, ser uma empresa viável economicamente e ao mesmo tempo contribuir com a solução de problemas socioambientais. Todo o processo feito pela Tramppo tem a validação do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), que emite um certificado de descontaminação, reciclagem e descarte correto das lâmpadas. O cuidado com o meio ambiente se estende para a saúde ocupacional dos sete funcionários da Tramppo. Procedimentos aparentemente simples como limpeza de pisos e lavação de uniformes são feitos com rigor para evitar contaminação. “Quando se lida com mercúrio, a política de precaução tem que ser rigorosa. Há uma responsabilidade muito grande com a saúde dos funcionários”, conta Pachelli. Antes de decidir sua participação como sócio da Tramppo, Pachelli chegou a fazer um estudo detalhado sobre as maiores barreiras desse negócio. A conclusão foi que poucas empresas estavam habilitadas para lidar com o mercúrio. Mais um ponto a favor da Tramppo, que conseguiu a licença ambiental em julho de 2007.
Pachelli diz que chegou a ficar apreensivo quando companhias de grande porte como a Volkswagen procuraram a empresa. “A receptividade tem sido fantástica. Há mercado para dobrarmos nossas vendas de imediato, mas estamos consolidando nosso crescimento de forma gradativa”, afirma. Entre os primeiros clientes estão o Hospital Israelita Albert Eistein, o Hospital do Servidor Público, a Universidade de São Paulo (USP), o Banco Central e a Rede Accor de Hotéis. A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), ligada à Secretaria do Meio Ambiente do governo de São Paulo e responsável pela licença ambiental do negócio, também compra o serviço. Potencial A capacidade atual da Tramppo é de descontaminação de 80 mil lâmpadas por mês. Em janeiro, a produção era de 5 mil unidades, em novembro já chegava a 50 mil. O potencial de crescimento é gigantesco. Primeiro porque o serviço oferecido pela empresa ainda é uma gota no oceano de lâmpadas descartadas no mercado brasileiro, tanto corporativo quanto doméstico. Além disso, a preocupação por um descarte correto vem aumentando muito entre as empresas. Leis mais exigentes e a cobrança por gestões sustentáveis pressionam as corporações e também órgãos públicos, que obviamente precisam dar o exemplo. No plano de negócios para o próximo ano, a empresa pretende desenvolver a segunda geração do equipamento que, segundo Pachelli, será mais produtivo, seguro e flexível. “A meta é pelo menos duplicar a capacidade produtiva e permitir a descontaminação de outros tipos de lâmpadas.” Outra proposta da empresa para 2009 é instalar pequenas unidades de descontaminação próximos aos centros geradores. A estratégia é fundamental para os planos da Tramppo, já que a logística é o maior custo do processo. Atualmente, o custo de descontaminação, reciclagem e descarte varia de R$ 0,50 a R$ 1 por unidade. A Tramppo deve fechar o ano com faturamento de R$ 480 mil, mas a perspectiva para 2009 é triplicar esse valor. Pachelli não está sozinho nessa aposta. A empresa tem outros três sócios: Elaine Menegon, Rogério Nakazone e Roberson Nery. Satisfeito com a opção de vida que fez no ano passado, Pachelli diz que a afinidade com o negócio é total e gratificante. Principalmente porque o serviço oferecido pela Tramppo contribui para a sustentabilidade de outras empresas. “Aquele modelo capitalista cheio de desperdícios não é mais possível. Estamos num processo de mudança de paradigma. Quem não se adequar às questões ambientais vai ficar fora do mercado.”
Contato: (11) 3039-8382 |
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