Percival Jatobá trabalha com desenvolvimento de produtos para a Visa do Brasil há 12 anos, e se tornou diretor-executivo de Produtos da empresa em 2008. Sendo o responsável pela adaptação e implementação de novas oportunidades para a aplicação de cartões no mercado, ele também orienta as instituições financeiras no desenvolvimento de estratégias para os produtos e serviços que oferecem.
Com quase duas décadas de envolvimento na indústria de meios eletrônicos de pagamento, o executivo teve participação determinante na consolidação do produto Visa Electron, que está completando dez anos no mercado brasileiro. Com um pequeno circuito capaz de armazenar uma grande quantidade de informações em um chip, este tipo de cartão de débito conta hoje com mais de 6 milhões de usuários, fazendo do Brasil o quinto maior no mundo em emissão de cartões com chip smart card.
Percival liderou dentre outros projetos a segmentação dos cartões upscale por meio do Programa Visa Experience e a criação do mini-card, e apresenta ao mercado brasileiro uma nova forma de pagamento que utiliza o celular como um terminal de transações eletrônicas, o Visa Mobile Pay. O grande diferencial deste produto é possibilitar pagamentos em qualquer lugar e a qualquer momento, pois a ferramenta responsável por efetuar a compra passa das mãos do lojista para as mãos do consumidor, propiciando uma comodidade inédita para os usuários.
Revista do Varejo – De que maneira sua companhia avalia a impacto do uso do telefone celular como uma nova forma de pagamento?
Percival Jatobá – A estratégia da Visa quanto ao futuro dos meios de pagamento passa necessariamente pelo celular, e inclui além do Mobile Pay alternativas que buscam a convergência entre as transações eletrônicas e o aparelho telefônico. Temos algumas iniciativas já em fase de produção e implementação, mas para que se entenda esta forma de pagamento é preciso fazer uma diferenciação entre o celular como um aparelho que faz a interface com a loja, interagindo fisicamente no ponto-de-venda, e o celular como uma ferramenta capaz de realizar transações em qualquer lugar, 24 horas por dia e sete dias por semana. Como exemplo do primeiro caso, tivemos em junho de 2008 o lançamento no Brasil dos cartões Visa payWave, que utilizam tecnologia contactless para identificar os usuários por aproximação. O cliente aproxima seu cartão da leitora junto ao ponto de pagamento, dispensando a necessidade de passá-lo na máquina ou digitar a senha para compras de até R$ 100. Para valores maiores o chip único funciona da forma tradicional ou por meio da tarja magnética. A funcionalidade se dá a partir de uma antena instalada no terminal de pagamento e outra embutida no próprio cartão, realizando uma troca segura de dados por radiofreqüência. Já temos um projeto piloto na Guatemala, onde o cartão de plástico foi substituído pelo telefone celular nos principais restaurantes fast-food e cinemas. O Mobile payWave usa a mesma tecnologia por radiofreqüência, mas nesse caso basta acessar a aplicação no celular e passá-lo em frente ao terminal de leitura para fazer o pagamento sem fornecer qualquer informação adicional ao caixa. A senha é digitada no próprio aparelho.
RV – Qual a diferença desse sistema sem contato para o Mobile Pay, que acaba de ser lançado?
Jatobá – Com o sistema Mobile Pay, implantamos o pagamento remoto, a distância, sem interação física entre o aparelho e a loja, o que acaba com a necessidade de estar fisicamente no PDV para efetuar o pagamento. Para o cliente, é preciso se cadastrar apenas uma vez via internet no banco emissor do cartão e as compras podem ser feitas por celulares de qualquer operadora brasileira. Se o usuário cadastrar seu número junto ao cartão de crédito, o valor da compra vem na fatura; se associar ao cartão de débito, o valor é descontado do saldo bancário. Na hora de usar o serviço, disponível inicialmente em estabelecimentos comerciais com delivery e venda direta, ele entra em contato com a loja pelo telefone fixo ou móvel e opta pelo pagamento Visa Mobile Pay, fornecendo apenas o número do celular. Em seguida, este usuário recebe uma mensagem SMS pedindo para confirmar a autorização e concluir a transação. Há um limite de valor fixado em R$ 100. Para pagamentos de montantes superiores a esse valor é preciso autorizar via internet ou mobile banking por razões de segurança. O Mobile Pay inova ao tornar real a convergência das tecnologias de meios eletrônicos de pagamentos e de telefones celulares.
RV – O lojista que já trabalha com a Visa poderá integrar esta tecnologia ao seu sistema ou terá que adquirir um módulo separado?
Jatobá – Este produto foi criado tendo em mente alguns segmentos, entre eles os varejos automotivo, farmacêutico, de alimentação e de entregas porta a porta. São nichos tradicionais, mas que podem oferecer ao portador do cartão a conveniência de não ter que ir até o PDV. Os estabelecimentos podem realizar a captura da transação pela web, por telefone móvel ou em terminais de pagamento fornecendo apenas o número do celular do cliente. Assim, uma rede que atenda através de uma central telefônica deve usar o site da Visanet, onde é possível ter conectados ao portal diversos usuários de um mesmo estabelecimento. Já para vendas porta a porta, a melhor captura é a feita no telefone celular. Entretanto, nossa visão estratégica contempla que este sistema estará disponível para todo e qualquer lojista Visa. A demanda ocorrerá naturalmente. Os varejistas que considerarem importante oferecer ao cliente esta conveniência serão certificados para a tecnologia Mobile Pay como alternativa à presença física do cartão.
RV – As compras pela internet sempre sofreram com o receio das pessoas em inserir o número do cartão em um website e pelas dúvidas sobre a segurança das transações on-line. O Mobile Pay pode ajudar a acabar com este medo?
Jatobá – No desenvolvimento deste sistema a Visa se orientou por duas premissas: segurança e comodidade. Para a loja traz uma grande vantagem, pois a compra é autenticada por um celular autorizado e garantida pelo banco. Para o portador do cartão – neste caso integrado ao celular – o processo é simples: basta se cadastrar uma vez no internet banking e ele não precisará mais fornecer o número do cartão nem entregá-lo a terceiros. Quanto à comodidade, este sistema tem a conveniência de dispensar a presença física no PDV, o que é um grande facilitador para a expansão dos meios de pagamento eletrônicos.
RV – Que motivos levaram a Visa a escolher o Brasil para introduzir o pagamento móvel na América Latina?
Jatobá – Um fato que nos deixou muito honrados foi a indicação do País pela Visa mundial como uma das 11 nações estratégicas para o desenvolvimento da companhia. Mas a verdadeira razão é que o nosso país é reconhecido por cultuar bastante a inovação. Já foi assim quando lançamos o cartão com chip, ou quando introduzimos o cartão contactless em meados deste ano. Por isso resolvemos continuar com essa tradição de colocar o Brasil como destaque mundial em inovação. O fato de o brasileiro aderir rapidamente a novas tendências foi o principal motivo que levou a Visa Inc. a lançar um produto com este grau de sofisticação aqui.
RV – Como deve proceder o comerciante que deseja oferecer este serviço a seus clientes?
Jatobá – Caso já disponha dos serviços Visa, basta entrar em contato com a Visanet, que é a empresa responsável pela parte operacional do sistema, e será instruído para operar com pagamento móvel. Caso ele não seja parte da nossa rede, também deve procurar a Visanet, mas será necessário participar do processo de certificação do seu comércio para aceitar o Mobile Pay.
RV – Este produto foi desenvolvido com a intenção de substituir os cartões de plástico no futuro?
Jatobá – Eles vão conviver perfeitamente. Sempre que me perguntam se o dinheiro de plástico vai acabar, lembro de uma palestra que vi durante uma feira do livro logo que foi lançado o e-book. Na mesa-redonda, alguns participantes apregoavam claramente o fim do livro de papel. Passada uma década, o livro continua aí e o e-book virou um produto de nicho. É o que imaginamos para o pagamento móvel. Ele terá o seu nicho e continuará crescendo, assim como os cartões de plástico.