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Doutor alegriapor Diogo HonoratoTrabalho iniciado por Wellington Nogueira humaniza o tratamento de crianças doentes e valoriza a formação profissional dos palhaços
Como um bom palhaço não se importa com cara feia, ele insistiu. Percebeu que precisava mostrar a seriedade por trás do descontraído trabalho desses artistas. Foi no corpo-a-corpo, conversando pessoalmente com cada profissional de saúde, que ele conquistou aceitação dos diretores do Hospital Nossa Senhora de Lourdes, em São Paulo, e conseguiu iniciar as atividades da ONG Doutores da Alegria, em 1991. Hoje, aos 47 anos, Wellington Nogueira não é apenas o palhaço Zinho, é um empreendedor social que coordena um grupo cujo trabalho é reconhecido pela Unesco e por grande parte da classe médica. A mistura de alegria com seriedade é a receita seguida pelo grupo. Uma medida necessária para combater moléstias como o descrédito na fundamentação do trabalho e falta de sustentabilidade financeira, muito comuns em ONGs. Essa é uma realidade que a Gesto, consultoria especializada em administração de entidades do terceiro setor, encontra em muitos de seus clientes. “A grande maioria tem dificuldade para se organizar internamente. Isso atinge a credibilidade e elas não conseguem manter parceiros, porque os investidores preferem aquelas que têm maior capacidade de gerenciar recursos”, explica o consultor André Saab. Confinada em um leito de hospital, cheia de tubos, a criança tem sua infância interrompida. O espaço indesejado e o cabelo raspado só contribuem para deixar o pequeno doente ainda mais abatido. De repente, dois desconhecidos trajando roupas espalhafatosas se apresentam e iniciam um esquete. Em pouco tempo, um primeiro sorriso aparece, ainda tímido. Os palhaços abrem espaço para que a criança entre no jogo. Mais alguns instantes e as gargalhadas já podem ser ouvidas do corredor, animando inclusive a mãe. A cena, mostrada no documentário Doutores da Alegria – O Filme, sensibiliza quem assiste. Difícil de relacionar tanta espontaneidade, risos e rostos pintados com o sisudo trabalho feito nos bastidores, onde um grupo executivo planeja as ações dos palhaços e a utilização dos recursos. A primeira dose no processo de estruturação da ONG foi profissionalizar o ofício de palhaço, com a valorização do trabalho feito pelos artistas do grupo. Em 1997, os Doutores da Alegria definiram um plano de cargos e salários. No ano seguinte, voltaram-se para a qualificação e formação continuada dos palhaços, com a criação de um grupo de estudos e pesquisa que promovesse a melhoria constante dos artistas. Hoje, qualquer novo membro da trupe precisa ter registro profissional de palhaço ou de ator especializado. Após um processo de seleção pública que leva em conta a experiência do candidato e sua adequação aos valores da ONG, os aprendizes são treinados por três meses antes de receber o título de “besteirologista” – uma caricatura dos especialistas médicos – e poder atuar efetivamente nos hospitais. Com a formação, que continua paralelamente ao trabalho, o grupo se diferencia de ações voluntárias esporádicas e sem preparo. Gestão profissional Em 2005 a ONG recebeu a dose de gestão que faltava. Desde então, concentram esforços no saneamento financeiro, no planejamento estratégico e em práticas de governança corporativa. Mas apesar das terminologias de mercado, as ações sofrem as devidas adaptações aos valores e missão do grupo. Foi o que aconteceu durante o processo de formulação do organograma de funções da empresa. Depois de muito estudo, a consultoria contratada chegou a um modelo semelhante ao convencionalmente adotado nas empresas e que não tinha relação com a visão dos palhaços. Então decidiram reformular. Surgia o “oréganograma” da Doutores da Alegria, cuja forma de círculo tem como centro o encontro da criança com o palhaço. “Quando crescemos, vimos que era fundamental nos estruturarmos, mas não podíamos importar o modelo de empresa. Porque criar novos modelos é justamente uma contribuição das ONGs. Nosso negócio nasce de um trabalho social, e esse deve ser o eixo”, conta Welligton Nogueira.
Em se tratando de alcance do trabalho, a tarefa é mais simples: desde a fundação do grupo, em 1991, foram mais de 650 mil visitas a hospitais e cerca de mil palestras. Quanto aos efeitos desse trabalho na melhora dos pacientes, porém, é difícil traduzir os resultados em números objetivos. Talvez essa seja a razão dos Doutores da Alegria monitorarem os efeitos no ambiente hospitalar e no comportamento humano, reforçando a vocação artística do grupo e sem qualquer confusão com a atribuição dos profissionais da saúde. De acordo com avaliação feita este ano, que ouviu 567 profissionais da saúde, realizada pelo Instituto Fonte, 96,3% afirmaram que a atuação dos palhaços deixa as crianças mais à vontade com a rotina hospitalar e 89,2% concordaram que elas ficam mais colaborativas com os médicos e enfermeiras. Na opinião da presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar (SBPH), Mônica Giancomini, ações sociais como as realizadas pela Doutores da Alegria humanizam o espaço hospitalar e favorecem a recuperação dos doentes. “Os pacientes têm uma ruptura na rotina que têm fora do hospital e muitas vezes ficam angustiados com a perspectiva de algum diagnóstico. O riso ajuda a tornar o tratamento mais tranqüilo e no prognóstico. O interesse é lúdico, mas o resultado é efetivo”, diz a psicóloga. Diversificação Nos últimos anos, a ONG também buscou diversificar suas fontes de recursos, antes concentradas em doações de empresas utilizando as leis de incentivo, com a intenção de diminuir a dependência do dinheiro de grandes doadores e garantir a imunidade financeira do grupo contra eventuais descontinuidades. Essas verbas, que antes representavam 85% do total, hoje correspondem à metade. A outra parte provém das novas linhas de atuação dos Doutores, como palestras em congressos, vendas de produtos e participação em campanhas de marketing e até intervenções sob medida nas empresas. As visitas aos hospitais, no entanto, continuam gratuitas. “A conquista desses novos palcos é nossa visão de sustentabilidade: para que a sociedade, nossa financiadora, entenda a complexidade deste trabalho sem ter que passar pelo infortúnio da internação, vamos até ela propiciando a experiência artística de várias formas”, explica o diretor-executivo Luis Vieira da Rocha, um dos responsáveis pela reestruturação administrativa da ONG. O modo como a Doutores da Alegria se relaciona com outras trupes de palhaços mostra como a adoção de práticas semelhantes à do mundo dos negócios não interferiu na missão do grupo. Em vez de tratá-los como concorrentes de um mesmo ramo, prefere integrá-los em rede. Um levantamento realizado pela ONG identificou outros 150 projetos que utilizam a arte circense em instituições de saúde. Essa informação desestimulou o projeto de criação de mais uma unidade do grupo, em Brasília, e o levou a optar pelo crescimento em profundidade. Eles perceberam que seria difícil gerir unidades em cinco municípios e ainda iriam “tirar muita gente do mercado”, nas palavras do coordenador Wellington Nogueira. “Por isso resolvemos potencializar esses profissionais, capacitando-os com nosso conhecimento. Estamos nutrindo a concorrência, exatamente o que os manuais de negócios dizem para não fazer”, brinca. É que os palhaços são mestres em subverter a lógica, tanto da realidade quanto empresarial.
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