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06/01/2009 14:47
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Elo da corrente

por Francis França

Sérgio Contente entende que benefícios devem ser passados à frente, e investe na educação de qualidade como fator de mudança social

Foto Divulgação |Sérgio Contente fundou sua empresa em 1987, para realizar o sonho de fazer programas de computador. Como ele vinha de família humilde, não se preocupava em enriquecer. Se conseguisse ganhar como empresário o mesmo que ganhava como empregado, estaria satisfeito. Só que as coisas acabaram saindo bem melhor do que a encomenda. Então, ele achou que deveria compartilhar os frutos de suas conquistas.

O presidente da Contmatic Phoenix, especializada em softwares para contabilidade, atribui seu sucesso à educação de qualidade. Quando colocou em prática seus projetos de responsabilidade social empresarial (RSE), decidiu investir na formação de jovens de baixa renda. “A educação foi o que transformou a minha vida. Se a pessoa fizer um curso de qualidade, consegue arrumar emprego”, diz ele, que é formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), considerado o vestibular mais difícil do País.

Em 2005, criou a Fundação Idepac, que oferece cursos de mil horas-aula sobre administração, contabilidade e informática. A procura é grande, superior a 10 candidatos por vaga, e foi preciso organizar um “vestibulinho” para selecionar os estudantes. As aulas são dadas por profissionais voluntários. Desde que começou a funcionar, o Idepac já ajudou mais de 3 mil jovens e é responsável pela colocação de 20 alunos no mercado de trabalho todos os meses.

Sérgio está fazendo por esses estudantes o que precisou fazer por si próprio desde pequeno: abrir portas onde só havia muros. Quando tinha 12 anos, seu pai saiu de casa e sua mãe começou a trabalhar como diarista para sustentar Sérgio e a irmã. Para ele, o destino seria arrumar emprego na fábrica de tecelagem, como faziam todos os jovens de seu bairro depois do colegial. Quando tinha 14 anos, foi ajudar um amigo que era empregado naquela empresa a carregar latas de biscoitos. No fim do dia, decidiu que não trabalharia naquilo de jeito nenhum. “Eu não queria carregar peso, a minha única chance seria estudar, e teria que ser em escola pública. Então bateu aquele desespero para não trabalhar na fábrica e eu estudei, estudei e acabei entrando no ITA”, conta.

Depois de formado, Sérgio foi contratado pelo Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial, e mais tarde por uma empresa que fabricava computadores nacionais para reserva de mercado. Ele se encantou com a novidade e decidiu trabalhar com programação. Montou uma empresa de fabricação de software para pequenas empresas e, certa feita, recebeu a encomenda de um sistema de contabilidade para escrita fiscal. O programa agradou a outros escritórios contábeis, e ele começou a se especializar no assunto. Seu software, entretanto, esbarrava em normas legais porque na época não era permitido imprimir. Os dados gerados pelo programa tinham que ser datilografados – os fiscais tinham medo que o computador alterasse os números.

Sérgio Contente reuniu mais de mil pessoas em um auditório para discutir o tema. O encontro teve repercussão na mídia e ele fez o assunto chegar à mesa do secretário da Fazenda de São Paulo. “O secretário chamou a gente, todo mundo levou um susto, e ele autorizou. As pessoas que foram ao encontro para discutir acabaram recebendo a notícia de que estava feito. E quem tinha o software? Eu.” Só naquele dia vendeu 200 programas. Com o dinheiro, montou a estrutura da Contmatic Phoenix, que tem hoje mais de 14 mil clientes.

Foto Divulgação |Em 2004, Sérgio voltou a mobilizar os contabilistas com um abaixo-assinado para combater a burocracia. Ele conseguiu reunir mais de 4 mil pessoas e, depois da reivindicação, aproveitou que os empresários estavam todos reunidos e sugeriu a criação de uma escola para capacitar jovens de baixa renda. Na mesma hora, cerca de 100 profissionais se ofereceram como professores voluntários, e os outros se comprometeram a divulgar as vagas de emprego para os alunos do Idepac. “Depois de três anos, os empresários conhecem nossa qualidade e não contratam nossos alunos por benevolência, mas porque eles são excelentes. Eu sempre falo que não é para dar emprego para os meninos, é para oferecer as vagas e deixar eles disputarem. E eles entram.”

A passagem pelo Idepac não ajuda apenas na capacitação dos jovens, mas amplia seus horizontes. Segundo Sérgio, vários alunos já conseguiram chegar à faculdade depois de fazer os cursos da fundação. É o que deve acontecer com Mayara Fernandes, 18 anos, que já planeja a faculdade de administração. Ela começou a fazer o curso do Idepac no início deste ano e foi contratada como aprendiz na própria Contmatic Phoenix, na área de técnicas administrativas. “Depois que saí do terceiro ano eu não sabia o que fazer, ia trabalhar no que aparecesse. Aí uma amiga me falou do Idepac. Hoje eu tenho perspectiva de carreira, porque a gente sai do colegial e não conhece muitas áreas, o mundo fica pequenininho”, conta Mayara, que mora na zona leste de São Paulo. Por uma jornada de cinco horas diárias, ela ganha R$ 415 por mês, dinheiro que usa para ajudar os pais nas despesas da casa.

Qualificação

De acordo com dados do Dieese, 72% dos jovens entre 15 e 24 anos fazem parte da população economicamente ativa. Dessa parcela, 68% estão empregados, dos quais 29% com carteira assinada. “Nos últimos anos a economia melhorou e a oferta de emprego também, mas quem não se qualificou ficou para trás e não pôde aproveitar as oportunidades”, diz Sérgio.

Associado ao Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, ele defende que, antes de pensar em ações fora da empresa, é preciso se preocupar com os próprios funcionários. “Muitas empresas falam de programas RSE, mas não vêem que o salário da senhora que serve o café é separado por um abismo do salário do gerente.” Há dois anos, Sérgio elaborou um plano de cargos e salários em sua empresa que virou referência para o sindicato. O objetivo foi diminuir desigualdades, e os colaboradores com os menores salários chegaram a ter reajuste de 200%. Para os que ganhavam mais, a mudança foi pequena. A iniciativa, segundo ele, deixou os funcionários mais felizes, o que acaba contagiando os clientes. “Tem muita gente que acha que só porque é pequeno empresário não pode fazer nada em RSE. Mas então que faça para o seu funcionário, cuide da família dele”, aconselha.

A decisão de fundar o Idepac surgiu quando Sérgio assistiu ao filme A corrente do bem, cujos princípios são passados para os alunos da fundação. Na palestra de início do ano, ele sempre diz que os cursos não são gratuitos, como parecem. Os benefícios que receberem terão que ser passados adiante algum dia.

Coincidência ou não, desde que fundou o Idepac, o crescimento da Contmatic Phoenix tem sido mais acentuado do que nos períodos anteriores. “E minha empresa não cresceu porque ficou conhecida pelo Idepac, nem coloco nosso nome lá, não é fundação Contmatic”, diz. Para ele, quanto mais se faz, mais se recebe de volta. “Eu não fiz nada pensando em receber qualquer coisa, só que acaba acontecendo, ou porque a empresa fica mais conhecida, ou por passar uma imagem institucional simpática. Não sei, o fato é que acontece.”

Sérgio Contente
Local de nascimento: São Paulo
Idade: 51
Formação: Tecnologia da
Computação pelo ITA
Empresa: Contmatic Phoenix
Ano de fundação: 1987
Ramo de atuação: Softwares de contabilidade
Cidade-sede: São Paulo
Número de funcionários: 200
Projeto: Fundação Idepac

Contato:  (11) 2225-3609


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