Perfil
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Grande até no atendimentopor Cléia SchmitzAs netas do fundador hoje comandam o negócio com a mesma dedicação do avô e a ajuda de um gerente
A história da Calçados Eurico com sapatos grandes começou um pouco por acaso. O comerciante alemão Erich Rosenthal, o “senhor Eurico”, tinha recém-chegado de Düsseldorf com a esposa Leonie e os filhos Gert, nove anos, e Hans, sete, quando decidiu, em 1938, abrir uma loja de sapatos na capital paulista. Logo nos primeiros anos do negócio arrematou um lote tamanho 43 e 44 e anunciou o produto em jornais e programas de rádio voltados à comunidade imigrante. Ele sabia que muitos de seus conterrâneos tinham pés grandes, mas não imaginava que venderia os pares em poucos dias. Desde então, a loja se tornou referência em tamanhos grandes, mas a decisão de vender só numeração maior começou em 1976, com a morte de Eurico e, principalmente, após a inauguração do Shopping Ibirapuera, o segundo no Brasil. “A concorrência era muito forte, percebemos que se especializar em tamanhos grandes seria a nossa salvação”, afirma Nídia, neta de Eurico. Foi nessa época, com a morte do avô, que ela começou a assumir o negócio junto com o pai, Hans, e as irmãs Vera e Cláudia, mas ainda sob a batuta da avó Leonie, que trabalhou até os 80 anos e viveu até 1997, ano em que completou 97 anos. Experiência valorizada
Segundo Guimarães, grandes marcas não se interessam em produzir tamanhos especiais porque a escala é muito pequena. Para os calçadistas menores, o custo torna a produção inviável. Restam as médias empresas, mas muitas vezes a loja tem que ir atrás de fabricantes de solado, sem contar o esforço na negociação de preços. “É um calçado que acaba saindo mais caro porque dá mais trabalho para o fornecedor, mas o cliente nem sempre se convence de que tem que pagar mais e nós ficamos com a fama de ‘careiros’”, afirma Nídia. Todo esse esforço é para que o cliente não encontre apenas um calçado qualquer para usar, mas um produto bonito, que siga as tendências da moda. Nídia costuma dizer que os sapatos da loja não têm 70 anos, são todos atuais. As herdeiras querem fugir da imagem de empresa antiga, tradicional. A matriz da loja continua na mesma rua onde o avô Eurico fincou o negócio, no Bairro Moema, mas o cliente não encontra mais apenas os clássicos – existem cerca de 500 modelos. A numeração vai do 39 ao 43 para mulheres e do 44 ao 49 para homens. Em 2003, a empresa abriu uma loja na Rua Oscar Freire. A expansão e transformação do negócio em rede é um desejo de muitos clientes e um sonho para Nídia. “Recebemos e-mail de consumidores pedindo ‘por favor, abram urgente uma loja no Sumaré, em São Caetano’. “Eu gostaria de crescer, mas como é uma empresa familiar, temos medo de perder o controle. Para abrir a loja da Oscar Freire já foi um parto”, conta a administradora. A empresa também tem uma loja virtual, ótima opção para os clientes que já compravam por catálogo. Sem constrangimentos
Com essa sensibilidade, a Calçados Eurico tem conseguido “curar” muitos complexos. Guimarães conta o caso de uma adolescente que ficava no estacionamento enquanto a mãe entrava para escolher os calçados da filha. Até que, num sábado, quando a loja estava cheia de jovens, o gerente sugeriu que a mãe a convencesse a entrar. Ela aceitou e, desde então, começou a comprar seus sapatos sozinha. O fato da loja ser exclusiva para pés grandes ajuda a formar uma espécie de “clube” onde todos se identificam. “É muito comum a cliente entrar na loja e pedir um 39, quando na verdade calça 41”, conta Guimarães. Cabe ao vendedor perceber o problema e fazer com que o cliente leve um sapato que lhe sirva bem e seja confortável. Betty é uma dessas vendedoras. Ela é campeã de vendas e trabalha na loja há quase 50 anos. “Temos vários funcionários com mais de 20 anos de casa, de estoquistas a operadores de caixa. Somos uma grande família”, orgulha-se Nídia. O engraçado é que, segundo a administradora, um dos ensinamentos que aprendeu com a avó Leonie foi a não ter pena de demitir quando necessário. Para Guimarães, o segredo é que o clima da loja é de um segundo lar. Ele próprio entrou para “quebrar o galho”, enquanto esperava ser chamado numa grande empresa. Quando isso aconteceu, Eurico chamou-o para conversar, o promoveu a gerente, aumentou o salário e “deu uns conselhos”. “Aprendi muita coisa com ele, principalmente a ter disciplina”, lembra. “O senhor Eurico era bastante nervoso, mas com um coração enorme. Quando um funcionário lhe pedia um adiantamento, sempre dava uma bronca e, minutos depois, atendia ao pedido.” Clientes satisfeitos
Com uma trajetória singular, a Calçados Eurico completa 70 anos com uma média de 5 mil pares vendidos por mês. Entre os freqüentadores da loja há esportistas como Gustavo Borges, Oscar e Marcelo Negrão, e mais de 20 mil anônimos que experimentam a sensação de poder comprar um sapato no tamanho certo. Consumidores como Kátia Viviane que enviou uma mensagem contando que há muito tempo não sabia o que era escolher um calçado. Para a cliente Sônia Fernandes, a Calçados Eurico foi responsável por “salvar” seu casamento. “Vou me casar em 20 dias e não havia comprado o tão esperado sapato de Cinderela. Meu casamento vai ser maravilhoso e meu pé estará hiperconfortável”, confidencia. Para as herdeiras da loja, fica a sensação de dever cumprido e um orgulho enorme em dar seqüência a uma história que começou com a dedicação dos avós. “Tenho certeza de que eles se sentiriam orgulhosos do trabalho que fizemos”, afirma Nídia. Aos 48 anos, ela quer repetir o exemplo da avó e trabalhar até, quem sabe, os 80 anos. Mãe de três jovens, Nídia brinca quando o assunto é sucessão. “Uma das minhas filhas é formada em administração e, logo que começou o curso, mencionou em trabalhar na loja. Eu respondi brincando que a sucessão na Calçados Eurico não é de mãe para filha, mas de avós para os netos.” Calçados Eurico Contato |
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