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18/03/2008 13:03
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A inflação no Brasil e no mundo

por Pedro Raffy Vartanian

Após cinco anos consecutivos de queda no Brasil, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) reverteu a tendência em 2007, ano caracterizado pela preocupação com a inflação por parte do Banco Central do Brasil e de seus congêneres dos Estados Unidos, Inglaterra, Europa e China. Na economia norte-americana, tais inquietações perderam espaço somente para a crise no mercado de crédito imobiliário. A inflação pode ser definida como aumento generalizado nos preços. Os principais grupos de indicadores são os IPC´s (Índices de Preços aos Consumidores) e IPP´s (Índices de Preços aos Produtores). A divisão justifica-se pelo fato de a cesta de consumo das famílias não ser igual à das empresas. Por isto, em muitos casos os IPC´s apresentam valores muito distintos dos IPP´s, e estas diferenças possibilitam a realização de avaliações prospectivas.

Nesse contexto, ocorre a inflação de demanda (quando o aumento do preço de determinado produto advém da elevação do consumo), e a inflação de oferta (quando elevações dos custos das empresas acarretam reajustes nos preços dos produtos). O principal determinante da inflação de demanda é o aumento da renda das famílias. A de oferta é determinada principalmente por elevações nos  preços do petróleo, salários e insumos.

Em termos mundiais, nota-se que houve a perigosa combinação dos dois tipos. Do ponto de vista da oferta, a elevação dos preços do petróleo e de outras fontes de energia pressionou os custos das empresas. Estes aumentos também decorreram da alta nos preços das matérias-primas, ocasionada principalmente pelo forte crescimento dos países emergentes. Do ponto de vista da demanda, a elevação da renda das famílias, oriunda do crescimento econômico, ampliou os gastos. Como resultado, a inflação apresentou comportamento de alta nas principais economias, incluindo o Brasil.

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Aqui, o IPCA fechou 2007 em 4,46%, revertendo tendência de queda iniciada em 2002, quando atingiu 12,53% (quase quatro vezes superior ao do ano passado). O principal grupo responsável pelo IPCA de 2007 foi o de alimentação, que representou praticamente metade do índice (2,21%). Supondo que os alimentos não tivessem sofrido reajustes no exercício, a inflação anual seria de apenas 2,25%, número extremamente baixo para os padrões brasileiros, explicado principalmente pela valorização do real frente ao dólar, que fez com que os produtos importados custassem menos, pressionando os concorrentes nacionais.

O IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado) fechou 2007 com variação de 7,75%, praticamente duas vezes superior à de 2006, de 3,83%. O IGP-M é utilizado no reajuste de vários contratos e preços, como aluguéis, energia elétrica e prestação de serviços. É composto por três outros índices: preços ao consumidor; preços ao atacado; e o que apura os custos da construção. Embora não seja o medidor mais adequado da inflação de oferta, o IGP-M aproxima-se muito de um IPP, e a alta registrada em 2007 impactará os custos das empresas quando ocorrerem reajustes de aluguéis e energia, além, é claro, das despesas das famílias, que também têm gastos com aluguéis e energia elétrica.

Isto significa que há um descontrole dos preços e que a inflação inverterá sua tendência de queda no Brasil e no mundo? Certamente não! Os bancos centrais vêm demonstrando atenção com relação aos níveis dos preços e controlando a taxa básica de juros para evitar a inflação de demanda. Com juros elevados, as famílias consomem menos, pois o custo do crédito é maior. Além disso, os consumidores preferem poupar recursos ao invés de gastar, já que a remuneração pelo dinheiro investido é maior. Isto impede pressões inflacionárias oriundas de aumento da demanda. A redução da taxa de juros nos Estados Unidos somente foi possível em função de indícios de um cenário recessivo, que contrai a demanda. A manutenção da Taxa Selic no Brasil na última reunião do Copom foi necessária para interromper o crescimento da demanda.

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Em termos de oferta, a situação é mais preocupante. Há indícios de que os preços da energia no Brasil e no mundo devem continuar altos. No caso brasileiro, falta de chuvas, baixo nível dos reservatórios e incertezas com relação ao fornecimento de gás natural vêm pressionando o custo da energia fornecida ao parque industrial. Cumpre ressaltar que os efeitos de elevações da taxa básica de juros sobre a inflação de oferta são reduzidos e, geralmente, recessivos sobre a produção. Neste sentido, o fato de o IGP-M ter apresentado comportamento de alta sugere inflação de oferta em 2008.

Além disso, a intensidade da valorização do real em relação ao dólar será reduzida no primeiro semestre de 2008 e interrompida no segundo semestre, em função da reversão do saldo positivo da conta corrente. Isto praticamente eliminará a pressão deflacionária dos produtos importados. Assim, o crescimento de 2008 poderia acentuar ainda mais a combinação indesejável de inflação de oferta com inflação de demanda.

Felizmente, os mercados costumam ajustar-se rapidamente às mudanças. Os problemas com os custos da energia podem ser parcialmente resolvidos por inovações tecnológicas capazes de aumentar a eficiência energética, além da utilização de novas fontes. A resposta à crescente demanda mundial por alimentos vêm sob forma de maior área destinada ao plantio, ganhos de produtividade e aumentos da oferta, que implicam reduções nos preços dos produtos agrícolas. Finalmente, a atuação dos bancos centrais, com políticas monetárias ativas, pode assegurar a estabilidade dos preços nas economias, garantindo, dessa forma, que o comportamento relativamente tranqüilo observado nos últimos anos prolongue-se por muito tempo.

Pedro Raffy Vartanian é economista, consultor do núcleo de negócios internacionais da Trevisan Consultoria, professor da Trevisan Escola de Negócios, da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Fundação Santo André.




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