As empresas inovadoras terão motivos de sobra para comemorar em 2009. Uma série de iniciativas será colocada em prática para melhorar o desempenho e ampliar o número de negócios focados em tecnologia. Quem anuncia o salto do empreendedorismo inovador é a Anprotec, associação nacional que representa incubadoras de empresas e parques tecnológicos. As boas notícias foram divulgadas durante o 18º Seminário Nacional de Parques Tecnológicos e Incubadoras de Empresas, encontro anual, realizado no fim de setembro, que reuniu mais de 600 pesquisadores de todo o Brasil, além de outros 13 países.
Na pauta de 2009 está prevista a elaboração de políticas públicas específicas para melhorar a qualidade dos parques tecnológicos do País. A Anprotec apresentou durante o seminário a pesquisa “Parques Tecnológicos no Brasil – Estudo, Análise e Proposições” realizada em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), em que são recomendados investimentos de R$ 10,2 bilhões para levar o Brasil ao patamar dos parques em países desenvolvidos, no prazo de cinco anos.
Para as incubadoras, será lançado o Centro de Referência para Apoio a Novos Empreendimentos (Cerne), que funcionará como um sistema de certificação de qualidade. O Cerne estabelece um conjunto de práticas que uma incubadora precisa adotar para ampliar o número e os resultados dos empreendimentos. Aquelas que cumprirem todos os requisitos recebem a certificação, que será realizada por instituições credenciadas pela Anprotec. O programa ainda está em fase de ajustes e deve começar a funcionar no ano que vem.
Outra novidade é o lançamento, em novembro, do Sistema de Acompanhamento de Parques Tecnológicos e Incubadoras de Empresas (Sapi), que funcionará como central única de informações sobre o movimento. Vinculado ao Portal Inovação, do Ministério da Ciência e Tecnologia, o Sapi agrupará informações fornecidas pelas empresas, parques tecnológicos e incubadoras para gerar indicadores do setor. Todos os anos, em dezembro, será divulgado um relatório com os dados.
Na entrevista a seguir, o presidente da Anprotec, Guilherme Ary Plonski, fala sobre os planos da entidade e sobre importantes convênios para beneficiar o empreendedorismo inovador, firmados, por exemplo, com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex Brasil), Microsoft e o programa infoDev, do Banco Mundial.
Qual é o desempenho do empreendedorismo inovador no Brasil hoje e de que forma isso vem evoluindo?
Plonski – O empreendedorismo inovador no Brasil como movimento é bastante recente, em 2008 completou 21 anos, mas teve uma evolução notável, principalmente a partir de meados da década de 1990, quando o País civilizou a inflação. Temos hoje cerca de 400 incubadoras e 20 parques tecnológicos em operação, sendo que há várias outras iniciativas em fase de implantação.
O que essas iniciativas representam na economia?
Plonski – Os negócios gerados nesses ambientes têm faturamento anual da ordem de R$ 3 bilhões, com cerca de 6 mil empresas envolvidas. Isso mostra que há uma participação importante do movimento do empreendedorismo inovador na economia brasileira.
E quais são as perspectivas para os próximos anos?
Plonski – Devemos crescer bastante. Temos agora iniciativas como o Prime (Programa Primeira Empresa Inovadora), realizado pela Finep no âmbito do PAC da Ciência e Tecnologia, que prevê a criação de 5,4 mil novas empresas inovadoras até 2011. A frente dos parques tecnológicos também está madura para ser alavancada no País, e temos ainda a preocupação de melhorar a qualidade das empresas incubadas, com o programa Cerne (Centro de Referência para Apoio a Empreendimentos). É uma série de ações que começarão a ser trabalhadas já em 2009.
Segundo estudo divulgado pela Anprotec, os parques tecnológicos demandam cerca de R$ 10,2 bilhões, dos quais R$ 1,9 bilhão devem vir do governo. Quais as chances de se conseguir efetivamente esses recursos?
Plonski – O governo tem, por meio de algumas de suas agências, como Finep e CNPq, bastante sensibilidade quanto à importância dos parques tecnológicos, como plataformas que poderão alavancar o desenvolvimento tecnológico do País. O trabalho agora é conseguir a articulação entre essas agências para criar um mutirão de empreendedorismo inovador, e, ao que tudo indica, podemos contar com o governo como parceiro.
Os resultados previstos no estudo dizem respeito a um panorama de cinco anos de investimentos. Quando podemos começar a contar esse prazo?
Plonski – Os investimentos já começaram de forma ainda modesta, mas espero que possamos aplicar as metas do estudo ainda em 2009, ou no máximo em 2010.
A Anprotec firmou em setembro uma parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex Brasil). Como vão funcionar as ações conjuntas?
Plonski – Nós vamos ajudar a Apex a realizar uma de suas atribuições, que é aumentar o leque das empresas inovadoras brasileiras com presença internacional, principalmente as de micro e pequeno porte.
E o acordo com o programa infoDev, do Banco Mundial, também firmado em setembro, durante o seminário nacional, como vai funcionar?
Plonski – É um acordo muito expressivo entre o infoDev e o governo do Brasil com colaboração do Sebrae e da Anprotec. Temos um leque de ações a promover, e a mais próxima será a realização, pela primeira vez fora da Índia, do 3º Fórum Global infoDev de Negócios em Inovação. Fora isso, teremos um conjunto de atividades que ainda serão detalhadas, mas tem a ver com o compartilhamento de boas práticas de gestão de incubadoras e parques.
Significa que o infoDev vai ajudar o Brasil com serviços de apoio?
Plonski – Não exatamente. Na verdade o Brasil desenvolveu para o infoDev um centro de suporte para incubadoras chamado Idisc, desenvolvido pela Anprotec e pelo Sebrae. Além disso, com a decisão tomada sabiamente pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, o Brasil se tornou um doador do fundo que alimenta o programa do infoDev e, portanto, tem acento nas decisões sobre o que será feito com os recursos. Parte expressiva desses recursos esperamos que seja usada para fortalecer atividades de cooperação entre associações de incubadoras e parques tecnológicos na América Latina e África.
O fórum global sobre o qual o senhor falou é o que vai acontecer em maio de 2009, em Brasília?
Plonski – Isso mesmo. Esse fórum foi realizado duas vezes na Índia e reúne agentes de inovação preocupados em colocar a tecnologia da informação e comunicação a serviço do desenvolvimento. As ações são direcionadas especialmente para segmentos mais vulneráveis da sociedade, como jovens, mulheres, produtores rurais, etc. É um espaço para compartilhar conhecimento que vai trazer gente do mundo inteiro.
A Anprotec divulgou recentemente a criação do Instituto Christiano Becker como um braço de pesquisas sobre inovação. Qual será exatamente o papel da entidade?
Plonski – A idéia é separar as atividades representativas de uma associação – participação e realização de eventos, abertura de canais, divulgação, etc. – das atividades de pesquisas e estudos. A Anprotec tem feito ela própria os estudos, como o que divulgamos sobre os parques tecnológicos, mas achamos que o movimento de empreendedorismo inovador no Brasil já tem maturidade para um instituto de pesquisa separado da Anprotec. Trabalharemos pela mesma causa, mas o instituto será focado na realização de pesquisas e estudos.
Mas o instituto é vinculado à Anprotec?
Plonski – Não, ele é uma pessoa jurídica diferente, e vai gradativamente não só absorver os estudos que a Anprotec já realiza como captar novas oportunidades de estudos, pesquisas e trabalhos. Os fundadores são os conselheiros da Anprotec, é verdade, e no seu conselho estratégico existem três elementos indicados pela Anprotec, mas a pessoa jurídica é separada.
Um convênio recém-assinado pela Anprotec com a Microsoft está gerando bastante expectativa entre os pesquisadores. Como vai funcionar o acordo?
Plonski – A idéia é que a Microsoft facilite o acesso à infra-estrutura tecnológica e também apóie as empresas inovadoras a obterem aportes de capital de risco. Junto com a Anprotec, ela vai prover recursos para capacitar empresas incubadas ou recém-graduadas, dando oportunidade para elas interagirem diretamente com investidores internacionais.
E o que se pode esperar da nova parceria da Anprotec com o Fórum Nacional de Gestores de Inovação e Transferência de Tecnologia (Fortec)?
Plonski – O Fortec é uma entidade criada há dois anos que abriga os núcleos de inovação tecnológica das universidades. Ele é responsável pela gestão da propriedade intelectual e transferência de tecnologia. Então as atividades deles têm muito a ver com as nossas. Nós trabalhamos com inovação, transformamos conhecimento em produtos, bens e serviços, e a propriedade intelectual é uma questão muito importante para incubadoras e parques tecnológicos. Esse convênio vai unir essas duas frentes. Um dos primeiros temas que vamos trabalhar, possivelmente, será a capacitação de incubadoras e parques para gerirem sua propriedade intelectual.
Além dessas parcerias, que outros convênios a associação firmou em setembro?
Plonski – Tivemos a assinatura de um convênio com a Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento, a SBGC, para o mapeamento de boas práticas em parques tecnológicos. A SBGC tem uma série de metodologias que ajudará bastante o movimento e o País. Por exemplo, existem aspectos complicados nos parques, como a questão imobiliária. Alguns parques já têm uma boa experiência nisso e vão colocar esse conhecimento à disposição. Além disso, firmamos parceria com as associações de incubadoras da Costa Rica e da Colômbia, para desenvolver ações conjuntas. Há uma lista de temas que estamos definindo no âmbito da Rede Latino-americana de Associações de Parques Tecnológicos e Incubadoras de Empresas (Relapi).
Outra inovação que a Anprotec deve inaugurar em 2009 é a transformação de incubadoras em pontos de atendimento ao empreendedorismo. Como eles vão funcionar?
Plonski – Estamos trabalhando nesse projeto junto com o Sebrae e com a incubadora espanhola Barcelona Ativa. A idéia é ganhar escala no atendimento aos empreendedores tornando as incubadoras pontos de atendimento qualificado. Elas vão concentrar informações e atender potenciais empreendedores, mesmo os que não estejam fisicamente dentro da incubadora. O apoio dos espanhóis é bastante importante, pois há uma iniciativa nessa linha muito bem-sucedida na cidade de Barcelona.
O encontro anual da Anprotec não serviu apenas para a discussão, mas também para a realização de negócios. Como funciona essa dinâmica?
Plonski – Os negócios desenvolvidos nesses eventos são de dois tipos. Um é entre gerentes de incubadoras, que se encontram e percebem que pode haver negócios em comum, não só de compra e venda de bens ou serviços, mas de parcerias tecnológicas. A outra forma são os negócios de longo prazo, relacionados a ações conjuntas entre incubadoras e parques. Um exemplo é o Prime, viabilizado por um programa anterior que nasceu nos seminários anteriores. Durante os eventos, foram criadas 18 redes de incubadoras que mais tarde se tornaram a base para criar o Prime.
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