Perfil
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Intimista e pessoalpor Marco BrittoInspirada pela tradição da família no varejo, a empresária faz questão de manter uma relação de proximidade com as clientes Ampliar o negócio é praticamente um imperativo no mundo do varejo. É uma seqüência natural: se prospera, se investe, se cresce. A empresária Maria do Carmo Caringi seguiu também esta regra, mas com uma rígida diretriz: não abrir mão de continuar atendendo pessoalmente cada uma de suas clientes na Maison Carinci, loja focada em moda feminina, de Porto Alegre. Para ela, trata-se de uma questão de honra. Afinal, foi assim que tudo começou há 20 anos, quando a comerciante despretensiosamente deu início a uma carreira no varejo de moda para mulheres. A loja de “Neneca”, como é conhecida pelas clientes, foi ambientada num casarão antigo. As peças da casa foram mantidas – copa, cozinha, quartos –, tudo para deixar um clima familiar desde a decoração até o atendimento. A empresária pratica um método todo pessoal de vendas, atendendo as clientes sempre com hora marcada, fugindo do tradicional comércio de portas abertas. Num esquema tão intimista, soa natural quando Maria do Carmo diz que não pretende investir em qualquer tipo de mídia. “Se começar a entrar muita gente aqui não vou conseguir atender todo mundo”, justifica. Toque familiar A trajetória bem-sucedida da empresária gaúcha sempre se baseou no bom relacionamento com clientes e fornecedoras, muitas vezes amigas pessoais. Hoje, em sua loja, Maria do Carmo divide o atendimento com mais três funcionárias, uma delas sua “comadre”. Ambiente familiar é algo intrínseco ao projeto em torno da Maison Carinci. Desde o atendimento exclusivo ao ambiente aconchegante e reservado, e finalmente na equipe, há sempre um toque familiar.
“Elas vêm aqui solteiras, casam, separam, trazem os filhos, e continuam me visitando.” Esse compromisso exige de Maria do Carmo uma posição centralizadora. Como a maioria da clientela procura por ela, como que esperando seus conselhos para uma boa compra, sua presença é o alicerce da loja. E não é para menos: é uma mistura muito grande entre amizade e moda, e muitas das clientes encaram uma passada na Maison como uma visita à amiga. Essa é sua estratégia diferencial – mesmo depois de operar numa loja maior, o atendimento continua muito próximo entre ela e as clientes. Tradição em atender A importância desta recepção atenciosa nos negócios é tanta que Maria do Carmo resolveu diminuir o espaço da loja, contrariando o instinto de expansão dos empreendedores. Espaços temáticos, que ofereciam bijuterias e vinhos finos, foram encerrados. Hoje, a Maison tem três espaços apenas – um dedicado à moda mulher, outro para crianças e um de decoração especial para mesas, além do spa, com uma massoterapeuta disponível. Segundo a empresária, foi uma atitude consciente de focar no melhor atendimento, mantendo uma espécie de tradição. “Elas vêm aqui atrás disso, do meu jeito de atender e compreender o que as mulheres querem. Trago isso no sangue. Meu avô já tinha esse costume de manter os clientes como amigos.” Outra característica que reforça o clima familiar é a presença de diversas imagens e objetos que remetem ao passado da família Caringi no Rio Grande do Sul. Uma verdadeira linhagem de comerciantes, sempre apegados à elegância, se iniciou em 1896. Nesse ano o bisavô de Maria do Carmo, um imigrante italiano chamado Nicola Caringi, abriu na cidade de Pelotas a Casa Caringi Chapelaria. Na época, a pequena butique vendia produtos masculinos – acessórios como bengalas, polainas e luvas, em alta na moda para os homens da época. Após 25 anos, Caringi Filho assumiu os negócios da família e expandiu o negócio para uma pequena rede de lojas de departamentos, batizado de Magazine Casa Caringi, que teve filiais nos municípios de Rio Grande, no litoral sul; Bagé, cidade próxima à fronteira com o Uruguai; e a capital Porto Alegre. O negócio não suportou o crescimento e se encerrou no início da década de 60, após meio século de história no varejo regional. Em 1988, Maria do Carmo viu que continuaria o histórico familiar de grandes comerciantes. Começou meio sem querer, pegando roupas de amigas com confecções, e aproveitando um grupo de bons relacionamentos, ela mostrava algumas peças para outras amigas e isso rapidamente se transformou numa profissão. A bisneta do pioneiro Nicola Caringi então se descobriu uma comerciante nata – manifestou-se a herança genética. Começou a procurar cursos ligados à moda, algo incomum no Brasil da década de 80. “Assim eu me identifiquei com a venda e com a moda, algo pelo qual sou apaixonada. Aos poucos fui aumentando as minhas vendas, e também busquei um espaço maior.” Depois do bom começo vendendo em casa, um apartamento foi alugado para servir como loja, no Bairro Moinhos de Vento, e se firmou o estilo de vender que permanece até hoje, apenas em outro endereço. A grafia escolhida para o nome da loja é uma referência à maneira original que o sobrenome italiano era escrito, alterado na chegada de Nicola Caringi ao Brasil. Moda com liberdade Maria do Carmo se descreve como uma pessoa que se emociona olhando vitrines. A dificuldade em se atualizar era driblada pela força de vontade, acompanhando o mercado em viagens para a Europa e Estados Unidos, costume mantido até os dias de hoje, bem como visitas regulares a São Paulo. Sobre as tendências atuais, a empresária celebra a variedade com qualidade. “A moda dá hoje a oportunidade de ser você mesmo, de optar por uma boca-de-sino ou uma calça skinny. Isso é bárbaro, dar a liberdade das pessoas de serem elas mesmas dentro das tendências.”
Para formar o time de profissionais, a exigência não poderia ser outra senão muito jeito para lidar com as clientes. Um exemplo dado por Maria do Carmo é a massoterapeuta Silvana, que com muito carisma e profissionalismo se efetuou no quadro de funcionários da loja, e de quebra provocou o surgimento do espaço spa. Inicialmente as massagens eram dadas de presente para freqüentadoras especiais. Hoje o espaço está com a agenda concorrida todas as tardes e nas três manhãs semanais que Silvana atende. De acordo com Maria do Carmo, sua grande preocupação na hora de contratar é encontrar pessoas que falem a mesma língua do cliente, que tenham realmente uma boa percepção disso. Para a empresária, a venda é uma conseqüência do atendimento. E na hora de escolher os funcionários ela recorre ao sentido aguçado de comerciante, nada mais. “Bons currículos, com qualificação, na hora da prática podem não significar nada. É preciso sensibilidade, bom gosto, dar o retorno que o cliente espera.” Com experiência secular adquirida com uma série de exemplos, a empresária sabe do que está falando. Com menos, ela busca oferecer mais. Contato |
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