Voz da Experiência
28/02/2008 09:22
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Midas dos hotéis

por Francis França

Sexta maior rede hoteleira do país, com 21 unidades, a Bristol nunca registrou prejuízo em 14 anos de mercado

Foto: Lio Simas | Com a experiência de quem conhece cada centímetro quadrado de um hotel, o empresário português Jorge Alves, dono de uma das maiores redes do Brasil, a Bristol Hotéis e Resorts, pode dizer que é perito em seu próprio negócio. Aos 16 anos, conquistou seu primeiro emprego, no Hotel Lancaster, em Paris, próximo à famosa Avenida Champs Elisées. Desde então, nunca largou o ofício. Começou como auxiliar no restaurante, foi mensageiro, recepcionista, gerente de alimentos e bebidas, diretor de hotel cinco estrelas, até se tornar proprietário da própria rede, que hoje fatura R$ 70 milhões por ano e emprega 1,3 mil pessoas.

Filho de família humilde da região do Alentejo, em Portugal, Alves deixou seu país junto com milhares de jovens que não queriam lutar na guerra contra as colônias Angola, Moçambique e Guiné (1961–1974). “O momento mais difícil da minha vida foi sair de casa, ir para um país onde não falava a língua, ter que trabalhar para comer e ainda arrumar dinheiro para estudar. Mas valeu a pena, eu faria tudo de novo”, diz ele, que já trabalhou em 12 países e em lugares luxuosos, como o restaurante La Tour D’Argent, o mais famoso do mundo, fundado em 1582 na cidade de Paris.

O convite para trabalhar no Brasil foi feito em 1975. Ele tinha ainda a opção de ir para a Austrália ou o Canadá, mas decidiu vir para cá influenciado por um colega recém-chegado do Carnaval no Rio de Janeiro. Ocupou o cargo de gerente de alimentos e bebidas para a abertura dos hotéis Meridian em Copacabana e, mais tarde, em Salvador, onde ficou durante seis anos, casou-se com uma baiana e teve três filhas. Mais tarde, Alves foi novamente para a França, mas as coisas não deram certo, e ele resolveu voltar para trabalhar em um estabelecimento cinco estrelas de Olinda (PE).

Em 1990, tentou uma experiência inédita: foi trabalhar em seu país, no maior hotel de Lisboa, o Ritz Continental. Depois de dois anos, Alves recebeu o convite que começaria a definir seu futuro. Conheceu o empresário brasileiro Alceu Vezozzo, presidente da Rede Bourbon de hotéis, que estava hospedado no Ritz e lhe convidou para trabalhar como gerente-geral de um cinco estrelas em Curitiba. Alves diz que sua gentileza e o vinho do Porto servido em garrafa de cristal causaram boa impressão. “Ser amável não custa muito e dá sempre um bom retorno. Eu fiz amizade com esse empresário, e ele me trouxe para gerenciar seu hotel”, diz Alves.

Carreira solo

Em 1994, teve a oportunidade de assumir a diretoria comercial da rede, mas declinou do convite para acompanhar de perto a infância de suas filhas – o cargo exigia viagens constantes – e, aos 46 anos, resolveu partir para “carreira solo”, como ele mesmo diz. Com a decisão de usar seu potencial em benefício próprio, Alves fundou a Bristol, que atua como prestadora de serviços em administração de hotéis. O nome da empresa é uma homenagem ao luxuoso hotel parisiense Le Bristol.

O primeiro empreendimento que assumiu foi o Hotel Metropolitan, presente até hoje na carteira de clientes. “Foi na época em que começaram a surgir os flats, e fui convidado para administrar o flat de uma multinacional que não estava indo bem. O trabalho foi tão bom, que o investidor principal pediu para eu negociar outro hotel para ele no ano seguinte.” A Bristol, totalmente brasileira, apesar de seu presidente ser estrangeiro, é hoje a sexta maior rede de hotéis do País, entre nacionais e internacionais. Na carteira, estão atualmente 21 unidades hoteleiras, que Jorge Alves chama de “produtos”.

Foto: Lio Simas | Bristol fatura atualmente R$ 70 milhões por ano e emprega 1,3 mil pessoasA Bristol não é proprietária de hotéis – optou por trabalhar apenas com a prestação de serviços. Todos os imóveis são de investidores, e a empresa fornece o know-how e a equipe – para Alves, é o que diferencia um hotel de outro. “Todo mundo tem uma cama, um chuveiro, mas nem todos têm bons serviços. É muito mais difícil você fidelizar um cliente do que conseguir um novo, porque o novo sempre vem para experimentar, mas vir porque gostou duas, três vezes, depende de talento.”

A rede tem apenas uma sede comercial para contato com clientes – principalmente, empresas, agências de viagem e profissionais liberais. O departamento de reservas funciona 24 horas por dia, e existem escritórios de vendas no Rio de Janeiro e em São Paulo. O trabalho intenso garante a ocupação nos hotéis para manter os custos.

Sempre disposto a aproveitar oportunidades, Alves tem entre os ditados populares que gosta de citar aquele que diz: “Enquanto uns choram, outros vendem lenços”. Em meio à crise do tráfego aéreo brasileiro, a Bristol resolveu ficar no segundo grupo. Dois hotéis da rede, um em Guarulhos e outro próximo ao aeroporto de Curitiba, vivem lotados por passageiros que ficam sem vôo. A empresa passou a oferecer benefícios como traslado gratuito e tarifas especiais aos clientes.

Foto: Lio Simas | Bristol: sexta maior rede hoteleira do País, com 21 unidadesHá 14 anos no mercado, Alves não perde o sono por causa da concorrência. Em 2007, inaugurou um hotel cinco estrelas em Florianópolis, próximo a empreendimentos de sucesso, e diz que não pretende disputar com eles. “Acredito que exista um lugar ao sol para todo mundo. Temos a vantagem de ser uma rede com captação de clientes no País inteiro e no exterior, mas precisamos ser humildes o suficiente para não concorrer com empreendimentos bem-sucedidos que já estão estabelecidos. Estamos preocupados em prestar um bom serviço e, se eles tiverem clientes demais e quiserem mandar para mim, eu aceito. Aprendi na vida que não se deve ter inimigos”, reflete. O empreendimento ainda está em fase de ampliação e contará com mais três prédios e um centro de convenções para 1,5 mil pessoas, com o objetivo de garantir o movimento na baixa temporada.

Para garantir os bons resultados, ele comanda o negócio de perto e – já com as filhas maiores –passa a semana inteira viajando entre os hotéis da rede. “Sou diferente de certos empresários que comandam seu negócio do escritório. Eu não consigo, porque fui criado dentro do hotel e preciso ver com meus próprios olhos como as coisas estão. Gosto que o investidor que confiou a mim seu patrimônio, que chega a R$ 50 milhões em alguns casos, sinta que estou seguindo o empreendimento de perto.” Segundo Alves, a empresa se especializou em dar retorno financeiro aos investidores. Pelo contrato, a Bristol só tem lucro se o empresário também tiver, e, até hoje, nenhum dos empreendimentos deu prejuízo. Ele explica que a primeira meta de cada empreendimento é garantir 30% de ocupação para cobrir os custos fixos.

Naturalmente, a carreira de Jorge Alves não teve apenas momentos de sucesso – fora do ramo hoteleiro, é claro. Quando saiu do Meridian, em Salvador, em 1978, ele montou uma empresa de alimentação industrial no Pólo Petroquímico de Camaçari e chegou a servir 15 mil refeições, mas a empresa durou apenas um ano e meio. Faltou-lhe experiência, avalia. Depois de trabalhar durante anos com restaurantes de luxo, ele não conseguiu acertar a medida para a alimentação de operários, com um perfil totalmente diferente.

Mas o fato é que Alves nasceu para a hotelaria. Casado há 30 anos, conheceu sua esposa no trabalho, e suas três filhas foram criadas praticamente dentro de hotéis. Contente com sua vida pessoal, diz ser compreendido pela família, apesar de trabalhar muito e passar bastante tempo fora de casa. “Elas sabem como é difícil essa vida, preciso estar atento 24 horas por dia, não tem como passar a chave na porta e ir embora.” Sua maior satisfação, segundo ele, também está relacionada ao trabalho: é saber que milhares de famílias, além da sua, sobrevivem do seu negócio. “Eu me orgulho de ter uma empresa que abriga tantas pessoas, porque vim de baixo e continuo sendo uma pessoa humilde, não sou esnobe, me dou bem com todo mundo, trabalho com todo mundo.”

Folga para si mesmo, somente duas vezes por ano, durante dez dias, no máximo. Nessas ocasiões, viaja para fora do Brasil ou não conseguiria parar de trabalhar. Mas ele gosta mais de viajar a trabalho do que de férias. “Viajar por viajar não me atrai. Tenho que chegar sabendo que tem alguma coisa a fazer”, diz. No ano passado, Alves fez um tour pela Europa com o objetivo de visitar várias cidades e se hospedar apenas em hotéis econômicos, segmento que pretende desenvolver na Bristol. Ele se divertiu bastante, segundo conta, mas estava pensando como empresário. Atualmente, a empresa já tem uma bandeira chamada Flex, com tarifas econômicas, e pretende ampliar esse tipo de empreendimento.

Nono filho e único homem, Alves ainda mantém contato com a família em Portugal. Segundo ele, não vai para lá com mais fre­qüência para não se render aos prazeres da mesa lusitana e engordar demais. Mas sua verdadeira paixão é o Brasil. “Eu sou um fã do Brasil, porque sei como as pessoas lá fora nos tratam quando somos imigrantes e sei como o Brasil acolhe a todos. Aqui não tem nenhum estrangeiro que possa dizer que é discriminado. Não conheço outro país igual. Deve ser o clima, não é?” Recentemente, entrou com pedido de naturalização – diz que quer morrer brasileiro.

Seu plano é, daqui a cinco anos, ter condições de dedicar um pouco mais de tempo para si mesmo, viajar menos e aproveitar mais a vida. Entretanto, diz que não pensa em aposentadoria de jeito nenhum. “Eu faço aquilo que gosto e entendo do meu negócio. Além do mais, não sei fazer outra coisa e também não consigo ficar parado.” Na agenda do dia, a programação é trabalhar em um dos hotéis até às 20 h, depois dormir em outro e, na manhã seguinte, estar em um terceiro, para uma reunião. Ele não se importa, diz que, se parar, envelhece.

Jorge Alves
Idade: 59 anos
Local de nascimento: Alentejo, Portugal
Formação: Hotelaria, pela Escola de Paris
Número de funcionários: 1.300
Empresa: Bristol Hotéis e Resorts
Ramo de atuação: Hotelaria
Cidade-sede: Curitiba (PR)
Faturamento: 70 milhões

BÚSSOLA EMPRESARIAL
ACERTOS
Aprender a decidir com a razão,
e não com a emoção
Usar o bom senso em todas as situações
Manter a humildade
Saber compartilhar as conquistas

ERROS
Não ter começado mais cedo a própria rede
Aceitar, durante certo tempo, unidades hoteleiras abaixo do padrão Bristol
para poder crescer
Cometer erros de cálculo por causa da ansiedade em alguns momentos
Abrir uma empresa de alimentação de operários sem estar preparado
para o tipo de público

LINHA DIRETA
Jorge Alves: (41) 3218-4200


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