Entrevista
29/05/2008 17:07
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Muito por fazer

por Cléia Schmitz

As empresas precisam dar mais ênfase ao tema da responsabilidade social e tirá-lo da esfera do marketing

Foto: Casa da Photo | O Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social está completando uma década de um forte trabalho de sensibilização das organizações empresariais para as questões ambientais e sociais. No início, poucos acreditavam que a proposta de um grupo de empresários e executivos da iniciativa privada teria reflexos sobre a gestão de alguma empresa. O que se vê hoje é muito diferente daquela visão de descrédito. O Instituto tem 1.354 empresas associadas, de diferentes setores e de todos os portes, que somam um faturamento anual equivalente a 35% do PIB brasileiro. E não há empresário sério que não veja a responsabilidade social como um assunto estratégico.

Na última década, a questão também chegou ao mercado de ações. Junto com seus balanços econômico-financeiros, as empresas passaram a divulgar balanços sociais, com indicadores cada vez mais avaliados por acionistas. Tanto que a Bovespa, em parceria com várias instituições, incluindo o Ethos, criou o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), uma carteira de ações que serve como referência para os investimentos socialmente responsáveis. Na mesma direção, instituições financeiras estão criando fundos éticos e de responsabilidade social. O assunto também ganhou espaço na TV, em jornais, revistas e outros veículos de imprensa.

“O termo responsabilidade social nasceu com o Ethos, que ajudou a promover e reunir os principais instrumentos para que as empresas operem dentro desse conceito”, afirma Paulo Augusto Itacarambi, diretor-executivo do Instituto. Convidado pelo empresário Oded Grajev, um dos fundadores do Instituto, a ajudar no planejamento estratégico do Conselho Deliberativo, o engenheiro integrou a equipe da entidade em 1999 e acompanhou toda a evolução do conceito e das ações de responsabilidade social. “Criamos uma agenda positiva de responsabilidade social, promovendo o diálogo de boa vontade entre empresas e outros setores da sociedade. Isso permitiu ações importantes como o Pacto Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, o Pacto Nacional de Integridade e Combate à Corrupção e a criação, em parceria com outras organizações, do Fórum Amazonense.”

Mas ainda há muito que fazer. Na entrevista a seguir, Itacarambi diz que as pessoas têm razão quando pensam que há muito de marketing nas ações sociais divulgadas por empresas. “O assunto está em pauta, mas ainda temos pouca coisa em resultados concretos.

” Em dez anos de Instituto, como o senhor avalia a evolução do conceito e das ações de responsabilidade social nas empresas? Quais foram as principais conquistas?
Itacarambi
– São muitas conquistas. Quando o Ethos foi criado, a primeira coisa que Oded (Grajev, ex-presidente do Instituto, atual presidente do Conselho Deliberativo) fez foi percorrer os veículos de imprensa. Muitas pessoas lhe disseram que o assunto não entraria no coração, no centro dos negócios. E hoje, o tema responsabilidade social está na mesa de todos os executivos, e também em muitos outros espaços, nas universidades, na mídia, nos sindicatos, na sociedade. É uma grande conquista, mas se você me perguntar se já temos resultados, tanto de mudanças concretas nas empresas como na sociedade, eu acho que ainda temos pouca coisa. Ou seja, o assunto é muito discutido, mas temos muito por fazer.

Qual é a participação da sociedade nessa discussão?
Itacarambi
– A própria sociedade está demandando um novo comportamento das organizações, no sentido que elas assumam responsabilidades sobre os efeitos de suas ações. É o que eu chamo de movimento de responsabilização. As pessoas perceberam que as atividades econômicas interferem no clima, nos recursos naturais e nos próprios valores da sociedade, no tratamento ao idoso, aos deficientes físicos, aos negros, às crianças. A economia tem efeito também no desequilíbrio social, na pobreza. A desigualdade não nasce do nada, ela é resultado da forma como a sociedade produz e consome, ou seja, de como ela se organiza. As pessoas estão cada vez mais conscientes disso e há uma expectativa grande e crescente de que as organizações dêem respostas a essas questões.

E quais são as responsabilidades que as empresas estão assumindo?
Itacarambi
– Temos três níveis de resposta: filantropia, investimento social privado e gestão sustentável do negócio. Algumas empresas assumem responsabilidades pequenas, apoiando projetos sociais com doações, o que nós caracterizamos mais como filantropia. Há outras organizações que assumem responsabilidades mais continuadas, de fazer um investimento social privado, ou seja, sendo parceiras de governos ou de ONGs (organizações não-governamentais) na solução de problemas. E, por último, há empresas que eu digo que levam a tarefa para casa, para dentro do negócio. Elas assumem responsabilidades de mudar a gestão da sua empresa no sentido de reduzir os impactos que têm sobre as cidades, diminuindo a produção de resíduos, investindo no desenvolvimento dos funcionários, criando oportunidades iguais para mulheres, pessoas com deficiência, negros. É o que eu chamo de fazer a tarefa de casa, esse é o tipo de resposta ideal. Nesse plano da gestão sustentável é que evoluímos muito pouco.

Muitas pessoas ainda acreditam que há muito de marketing em responsabilidade social empresarial e pouco em ações concretas. Há mesmo uma distância do discurso para a prática?
Itacarambi
– Essas pessoas têm razão. Como há uma valorização do tema em toda a sociedade, muitas empresas não querem ficar para trás. Essas organizações vêem o concorrente se posicionando e decidem seguir a tendência. Mas para se posicionar rapidamente, começam a fazer uma propaganda muito maior do que o trabalho de responsabilidade social que estão executando. Às vezes, são apenas ações de apoio a um projeto social de outra instituição, mas a empresa já sai fazendo uma superdivulgação do fato. Há ainda aquelas empresas que se dizem responsáveis socialmente há 20, 30 anos, passando uma mensagem de que não vão mudar. Mas as pessoas estão esperando mudanças das organizações e, enquanto essas mudanças não aparecem, elas têm razão em dizer que a maioria das empresas só faz marketing.

Isso acaba prejudicando a credibilidade do conceito de responsabilidade social?
Itacarambi
– Eu não diria que há um descrédito do conceito. Fizemos uma pesquisa junto com o Instituto Akatu sobre a percepção do consumidor brasileiro em relação ao tema. Está muito claro que as pessoas continuam com alta expectativa, mas também há sinais de desilusão. Antes, elas estavam mais entusiasmadas em premiar as empresas que têm comportamento diferenciado, falando bem delas. Hoje, já tem menos gente disposta a isso. Há muita gente que quer regulamentação por parte do governo. Isso é sinal de que as pessoas estão desiludidas, não acreditam mais que as empresas vão mudar por influência e pressão do mercado. Elas acham que as mudanças só virão se tiver pressão mais forte por parte do governo. Isso significa o seguinte para nós, do Ethos: se o mercado não fizer um movimento significativo de mudança, a população vai demandar essas mudanças por outros caminhos. Se formos analisar, isso também é um avanço, as pessoas estão mais atentas, assim como a imprensa, que está entrando mais profundamente na reflexão sobre a responsabilidade social das empresas. Todo esse movimento é importante porque é o que nos fará avançar.

O Ethos tem um projeto que estimula a realização de ações de responsabilidade social em toda a cadeia de produção. Como funciona esse programa e qual a sua importância?
Itacarambi
– O Projeto Tear funciona da seguinte forma: uma empresa monta um grupo de trabalho, que pode ser em conjunto com um grupo de fornecedores ou de clientes. A proposta é desenvolver durante dois ou três anos um programa com uma metodologia que indica o passo a passo para que as empresas formulem uma nova visão sobre responsabilidade social e sustentabilidade. As empresas fazem um diagnóstico de suas práticas, seguido de um plano para mudá-las durante a execução do programa. Nesse processo, elas reanalisam sua visão, e revisitam e redefinem sua missão. É uma oportunidade de criar novos negócios. Como na época do desenvolvimento da qualidade nas organizações, em que era necessário envolver toda a cadeia de valor, precisamos trabalhar o conceito de responsabilidade social em toda a cadeia, preparando o fornecedor e demandando um outro nível de comportamento dele.

Isso leva a sustentabilidade para as pequenas e médias empresas?
Itacarambi
– É um caminho, mas a proposta é desenvolver o comportamento responsável em toda a cadeia de produção. O que vemos não é a empresa grande ensinando a pequena, mas fazendo junto com ela. Aliás, às vezes quem aprende mais é a grande empresa. Do mesmo jeito que não se consegue um produto de qualidade numa empresa só – o conceito tem que estar na cadeia inteira, desde a hora em que se produz a matéria-prima até o momento de entrega do produto para o cliente final –, não é possível ter um processo e um produto sustentável se a proposta de responsabilidade social e sustentabilidade não estiver em toda a cadeia. Outro avanço que tivemos nos últimos 10 anos é que se produziu muito conhecimento nessa área. Hoje, as empresas dispõem de métodos e técnicas de trabalho para mudar o seu negócio. É claro que muito mais conhecimento será produzido, mas as ferramentas básicas estão aí. O momento é de fazer.

Quais os segmentos que mais avançaram em termos de responsabilidade social? Por quê?
Itacarambi
– Se tomarmos como base as empresas que participam do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), da Bovespa, veremos que há muitas companhias do setor de energia elétrica. Isso porque a Associação Brasileira das Distribuidoras de Energia Elétrica (Abradee) vem fazendo um trabalho muito forte desde o ano 2000 junto às concessionárias. Desenvolvemos em parceria com a associação os indicadores Ethos/Abradee, e a entidade também criou um prêmio para incentivar as empresas a aprofundarem suas práticas. É um setor que certamente está comprometido com a questão. Há também um movimento muito forte no segmento de mineração. No setor financeiro, há uma diferenciação grande, alguns já posicionados como o ABN e o Itaú, outros se posicionando fortemente como a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil. A Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) está promovendo diálogo com os bancos e nós estamos aperfeiçoando os indicadores Ethos/Febraban. Entendemos que o setor financeiro, com seus fundos éticos, pode ajudar muito no processo de desenvolvimento de responsabilidade social e sustentabilidade. Quanto mais ele avançar, mais avançará o mercado.

O que uma empresa realmente ganha com ações de responsabilidade social e sustentabilidade? E o que perde ao não executá-las?
Itacarambi
– O ganho é imenso. Mais dia, menos dia, todas as empresas terão que mudar porque nosso modelo de produção está condenado, ele não é sustentável. Está em curso uma segunda revolução industrial, e o entendimento de sustentável não é apenas de produtos verdes porque não é só o impacto ambiental que precisamos considerar, mas também o impacto social. Senão corremos o risco de mudar tudo e não mudar nada, ou seja, mudamos os produtos e os processos, mas a pobreza e a desigualdade continuam. O que temos que fazer é mudar o padrão civilizatório e essa mudança com certeza virá. Então, é aquela história: ou você se posiciona e ganha mercado ou perde mercado.

Como o senhor vê o mercado de produtos sustentáveis? Como promover a oferta e a demanda desses produtos?
Itacarambi
– A questão de produtos verdes já evoluiu bastante, mas a de produtos sustentáveis ainda tem muito a crescer. Inclusive, essa é a discussão da 10ª Conferência Internacional Ethos (27 a 30 de maio): como criar mecanismos no mercado que sustentem e que valorizem o comportamento da empresa para a produção sustentável. Saímos da discussão de empresas socialmente responsáveis para mercados socialmente responsáveis, onde as relações entre as empresas passam a levar em conta os critérios de responsabilidade e sustentabilidade social. A idéia é que ao final da conferência a gente apresente propostas de quais mecanismos serão necessários ser criados tanto pelo mercado quanto por regulamentação do governo.

O que o senhor responde quando alguém lhe pergunta se progresso e sustentabilidade são compatíveis?
Itacarambi
– A visão tradicional de progresso está superada porque é uma visão equivocada. É essa mudança que nós precisamos fazer, mudar a visão de progresso. O que, afinal, é ser bem-sucedido? Enquanto a gente continuar acreditando que bem-estar é consumir, ou seja, de que quanto mais eu tenho, mais eu sou bem-sucedido, vamos só gerar o desperdício. Essa não é uma visão boa para a sociedade, simplesmente porque não há recursos naturais suficientes para que todos tenham muito. O progresso dentro de uma visão de bem-estar para todos é compatível com uma visão de sustentabilidade. Se eu produzo retorno para todo mundo de forma equilibrada, eu estou tendo uma atividade sustentável. Dentro desta visão é possível compatibilizar progresso e sustentabilidade. Progredir é progredir numa direção. Progredir na direção que nós estamos indo hoje é insustentável. Por isso temos que mudar a direção.

Linha Direta

Paulo Augusto Itacarambi: (11) 3616-7575


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