Entrevista
07/01/2009 17:20
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Nova ordem

por Andréia Seganfredo

Desafio é atrelar o lucro à sustentabilidade e diminuir a concorrência predatória, incorporando camadas menos favorecidas da sociedade

Foto Cristina Lacerda |Presidente executivo do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, Fernando Almeida não se deixa desanimar diante dos desastres naturais agravados pelo modelo econômico atual. “Alguns se rendem à inevitabilidade. Não é meu caso”, diz na introdução do livro Os desafios da sustentabilidade: uma ruptura urgente. Integrante do Conselho de Administração da Avaliação Ecossistêmica do Milênio, patrocinada pela ONU, Almeida tem a compreensão do estágio dos serviços ambientais em todo o globo e, com isso, aponta rumos aos empreendedores interessados em adotar práticas sustentáveis.

Sua proposta, no entanto, é desafiadora: deve nascer uma nova ordem global, onde o lucro esteja atrelado à sustentabilidade do negócio, como condição de sobrevivência do sistema capitalista, e a concorrência assuma um papel menos predatório, incorporando as camadas menos favorecidas da sociedade. Por isso, seu chamado aos empresários é urgente. “Entendo que nas empresas está a maior fatia do poder no mundo contemporâneo e, portanto, também a maior responsabilidade pelos rumos que tomaremos”, diz. Na busca por resultados tanto nas questões ambientais como nas sociais, afirma ser necessário acelerar a incorporação das práticas de sustentabilidade num processo de recriação constante.

Nesta entrevista, Almeida oferece bons exemplos de desenvolvimento sustentável já desenvolvidos no Brasil e no mundo. Tendo percorrido mais de 35 mil quilômetros em duas viagens pelo interior brasileiro, descobriu um país dotado de extraordinária capacidade de fazer a diferença e empreender realizações independentes do poder central para avançar. Para ele, é na maior integração entre as três esferas do chamado mundo tripolar – poder público, empresas e sociedade civil – que está o futuro da sustentabilidade e da própria espécie humana. E todos são convidados a fazer parte desse projeto o quanto antes.

O que significa a ruptura de que o senhor fala no livro?
Fernando Almeida –
A ruptura está baseada num conceito da década de 40 do economista Joseph Schumpeter, que criou o conceito de destruição criativa. Em poucas palavras é como destruir e recriar seja o que for em novas bases. A minha premissa é que essas bases sejam sustentáveis, que respeitem a possibilidade de utilização dos serviços ambientais e que também sejam processos inclusivos e não excludentes, como ainda são os processos de desenvolvimento atualmente.

Como isso pode ser feito?
Almeida –
A Dupont, por exemplo, começou como atividade industrial ligada às armas, depois passou para o setor petroquímico e, no final do século 20, dedicou-se à biotecnologia, reduzindo brutalmente os impactos ambientais e sociais. A idéia da ruptura são processos planejados em que você acelera essa mudança necessária para a sobrevivência, não só das grandes empresas, mas também dos serviços ambientais, da sociedade como um todo, num paradigma mais justo e equilibrado.

Então são as empresas que devem assumir papel de destaque nessa ruptura?
Almeida –
São. Historicamente, o poder já foi representado pelas grandes catedrais, depois pelos grandes palácios, os governos, e hoje o maior poder de transformação e de planejamento está nas grandes empresas globais. O setor produtivo tem algumas características em relação ao mundo que chamo de tripolar, que inclui governo e sociedade civil, interessantes. Primeiro, as empresas têm uma visão de longo prazo e, segundo, uma estrutura econômico-financeira, cuja receita é muitas vezes superior ao PIB de muitos países. O terceiro ponto – que considero fundamental – é a disciplina Com essas três características, incluindo a dimensão histórica, as empresas têm possibilidade e responsabilidade de exercer a liderança. Nunca sozinhas, porque você estaria revertendo a democracia. Tem que envolver governo e sociedade civil.

Empresas de pequeno e médio portes também podem contribuir para isso?
Almeida –
Todas, sem exceção. Não tem pequena, grande ou média. Depende da capacidade de contribuir para esse processo, de se envolver e participar. Naturalmente uma megaempresa global pode, por exemplo, trabalhar dentro da sua cadeia produtiva. Ou uma indústria nacional, como a Petrobras, já presente em vários países, que tem uma cadeia de fornecedores de tal ordem que pode fazer facilmente que com esse tipo de postura, assunto e comportamento permeiem todos aqueles para quem ela vende ou compra.

Qual a definição de lucro e concorrência nessa nova lógica?
Almeida –
Quando se olha a sustentabilidade sob o foco da sobrevivência, vis-à-vis o lucro financeiro, eu não vejo outra forma que parte desse lucro seja entendida juntamente com retornos para a possibilidade de sobreviver. Para isso, é necessário ter quem compre e ter matéria-prima para transformar, pois não tem como produzir do nada. O lucro terá que ter um cifrão mais o “S” da sustentabilidade ou da sobrevivência. Esse valor de reinvestir na sociedade, não é filantropia, mas como você dá poder à sociedade e a grupos ou melhora seu rendimento para reduzir a matéria-prima utilizada. Então especialmente para fazer tecnologias que mudem a utilização de matéria-prima precisa de investimento a partir do lucro que se está auferindo.

E a concorrência?
Almeida –
A concorrência não vai deixar de existir. O que não pode haver, como existe agora, é a concorrência numa forma tão nefasta que acaba gerando destruição de empregos e de geração de impostos. Vai ter sempre uma empresa que naquele momento e naquele setor se destaca. É da natureza de cada organização. A concorrência atual não contribui para a sobrevivência e melhoria da sociedade, mas única e exclusivamente para a concentração de renda. Ela terá que ser mudada.

Isso significa que as empresas terão que ter lucros menores para que haja maior distribuição de renda?
Almeida –
É justamente essa a minha visão. Os lucros financeiros e econômicos terão que ser menores, com melhor distribuição de renda, para a preservação dos serviços ambientais. É isso que vai garantir a sobrevivência. Até porque para ter um regime capitalista pleno tem que haver um estado de direito, o que exige o mínimo de estabilidade política. Se continuar a concentrar, você leva a situações como a da África, de total instabilidade política, em que não se tem governo. 

Como é possível gerar modelos de negócios sustentáveis?
Almeida –
Não tem uma receita. No fundo, começa sempre com consulta aos stakeholders, os grupos de interesse, que a empresa influencia e que também influenciam o negócio ou a política pública, no caso do governo. A partir daí, pode começar por questões ligadas à ecoeficiência, caminhos relacionados com responsabilidade social corporativa, e depois ampliar para questões muito mais complexas como a questão urbanística e do clima. Acho que vamos passar por um processo que é individual, do negócio, das cidades, nacional e global, um processo de adaptação muito grande.

E que exemplos de negócios temos já consolidados?
Almeida –
Hoje qualquer grande empresa tem diretorias ou departamentos trabalhando na área de sustentabilidade. Existem também alguns negócios que são mais impactantes, pela própria natureza, como a mineração. Ao mesmo tempo, nessa atividade há a condição de haver um impacto grande, se houver investimento e planejamento, não só na recuperação de área, mas na possibilidade de prover a sociedade local em torno das suas minas com qualidade de vida melhor. Então tem esses dois lados, mas o modelo não tem receita.

Quais ações podem estimular o empreendedorismo sustentável?
Almeida –
O empreendedorismo sustentável é o caminho para a redução de miséria e que pode ser feito a partir do lucro reinvestido. Um bom exemplo é da Serra da Capivara, do Museu do Homem Americano, no Piauí. Com relativamente pouco dinheiro e tecnologia, foi produzida uma cerâmica de altíssima qualidade com impacto reduzido, porque era queimada madeira do próprio Parque Nacional, e também conseguiram vender essas peças em várias partes do Brasil, com distribuição da renda. As pessoas que estão lá hoje são localmente de classe média, o que demonstra que cada local tem um tipo de solução. Em Bonito (MS), foi uma política pública que gerou um modelo de empreendedorismo sustentável.

Modelos como esse, de Bonito, mostram que parcerias entre poder público e privado devem aumentar?
Almeida –
É algo que falta muito. Ainda hoje, o setor público vê o setor privado como capitalista selvagem, e o setor privado vê o público como lento, burocrático e ineficaz. Onde se conseguiu grandes avanços, como na Escandinávia, foi onde houve o entendimento maior entre esses dois setores. Há uma necessidade de tipos e formas de liderança que quebrem essa dificuldade entre dois setores fundamentais. A relação entre setor privado e sociedade civil – as ONGs – já evoluiu muito. Mas a questão com o setor público é mais delicada. Esse é um grande hiato que deve ser resolvido.

Esse esforço das empresas é reconhecido pelo consumidor?
Almeida –
Sim. Isso se dá através dos selos, muitos concedidos por organizações não-governamentais, certificações ou pelos relatórios com a participação de pessoas acima de qualquer suspeita que o certificam, como funcionários ou ex-funcionários importantes da ONU. Atualmente há normas para isso. Eu recebo em média cinco relatórios de sustentabilidade do mundo inteiro por semana e só abro aqueles que têm algum assurance committee, ou seja, algum comitê que dá credibilidade àquele relatório. Não quero dizer que as empresas estejam mentindo, mas é fundamental que elas tenham pessoas que a gente sabe que não dariam uma opinião que não fosse real. Portanto, é um tipo de certificação para esse relatório.

O senhor fala da falta de uma pessoa, de um estadista corporativo, que represente a causa do desenvolvimento sustentável. Qual o perfil desse líder?
Almeida –
É uma pessoa com liderança aglutinadora, uma liderança que não veja apenas o que deve ser feito, mas tenha também um comprometimento institucional e pessoal e a capacidade de obter resultados dentro daquilo que acredita. O que eu comento é que não temos um líder em nível mundial, ainda não apareceu um Nelson Mandela da sustentabilidade. Mas já temos muitos estadistas corporativos espalhados pelo mundo. No setor empresarial ainda são muito escassos no meu modo de ver, nas ONGs já estão mais presentes.

Essa liderança é fundamental para a continuidade do desenvolvimento sustentável?
Almeida –
Eu acho que sim. Hoje você vê a expectativa do mundo em relação a um líder apenas que é o Barack Obama. Você vê que quando ele se elege, há lágrimas pelo mundo inteiro. Ele não vai resolver tudo e nem pode, mas a idéia de uma liderança que aglutine outras lideranças é muito importante. Isso pode ser encontrado em diversos setores e sempre será assim. Tem quem discorde e acredite que a questão da sustentabilidade é muito disseminada e não precisa disso. Eu acho que há pessoas que têm essa capacidade de ver, sonhar, aglutinar e conseguir mudar.


Contato:  (21) 2491-1815

 


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