Voz da Experiência
15/10/2008 17:40
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O imperador do aço

por Francis França

Italiano humilde ergueu do zero grupo de empresas de ramos diversificados que fatura 5 bilhões de euros por ano

Foto: Divulgação | O dinheiro se torna um objetivo de menor importância para um empresário que fatura 5 bilhões de euros por ano. O que move o italiano Steno Marcegaglia, de 77 anos, é o gosto por ver empresas nascerem e crescerem, e para isso ele reinveste a cada ano todo o lucro líquido que obtém. Em suas palavras, dinheiro é útil para quem não tem. “Somos empresários pobres de uma empresa rica. Não esbanjamos, até porque estamos tão apaixonados pelo trabalho que mal dormimos”, diz. Para a maioria das pessoas, dedicar a vida ao trabalho e sequer gozar os lucros pode parecer insensato, mas nada lhe dá mais prazer do que poder dizer que construiu um império do zero. “Poucas pessoas no mundo podem ter essa sensação”, orgulha-se.

O fundador do Grupo Marcegaglia, hoje entre os maiores processadores mundiais de aço, era filho de um marceneiro humilde, mas quando lhe perguntavam o que queria ser quando crescesse, dizia que seria rei ou papa. Nascido durante a ditadura de Mussolini, Steno passou por um alistamento militar aos 10 anos de idade e foi encaminhado para uma academia que pretendia formar comandantes de batalha. Durante a Segunda Guerra Mundial, sua escola foi bombardeada, e ele voltou para a casa da mãe, que trabalhava com parentes, proprietários de um restaurante. Todos os dias, Steno percorria 40 quilômetros de bicicleta para ir à escola e, à noite, trabalhava com a mãe para ajudar nas despesas.

Aos 18 anos, ganhou seu primeiro salário. Ele começou a trabalhar para a Aliança dos Camponeses, que lutava contra os donos das terras – era uma briga de miseráveis, segundo conta, já que os proprietários eram tão pobres quanto os próprios camponeses. Seu pagamento eram 20 mil liras por mês, o que hoje equivaleria a cerca de US$ 40. “Lembro que chorei quando recebi aquele dinheiro, porque pude comprar um par de sapatos novos e sentir a alegria de saber que nos meses seguintes eu poderia comprar uma roupa nova e talvez até uma motocicleta.”

Pouco antes de completar 30 anos, Steno Marcegaglia tinha uma poupança de 1,5 milhão de liras, o equivalente a US$ 3 mil. Ele não tinha experiência nem qualquer qualificação especial, então aproveitou que morava perto de indústrias e começou a comprar fitas de aço que, com uma perfiladora, transformava em guias de janelas. Seus primeiros funcionários foram dois jovens, que ganhavam muito pouco, pois Steno não tinha condições de pagá-los regularmente.

Além do trabalho duro e das condições precárias, Steno tinha que aturar a gozação de grandes empresários, herdeiros de empresas que produziam mil toneladas de perfis por mês, enquanto ele produzia apenas 100 toneladas. A oficina não tinha eletricidade, e as máquinas funcionavam com motores. Só que, enquanto os herdeiros de grandes empresas gastavam com casas e carros novos, Marcegaglia continuava como pobre empreendedor que reinvestia todo o dinheiro que ganhava.

Para poder comprar equipamentos, usou dinheiro que não tinha. “Eu aproveitei leis que ajudavam os empresários de boa vontade e contraí dívidas enormes. Em cada pequeno banco eu pedia um pouco”, conta. Com o dinheiro, comprava novas máquinas e instalações, de forma que, depois de quatro anos de trabalho, pôde comprar um novo laminador e construir uma linha elétrica, e sua produção subiu para 4 mil toneladas por mês. Usando o orgulho e a ambição a seu favor, em poucos anos ele multiplicou dívidas, comprou novas plantas e sua produção saltou para 15 mil toneladas por mês. “Aqueles que riam de mim continuavam com mil toneladas por mês. Meus custos reduziam, e meus colegas grandes empresários continuavam gastando com bobagens em vez de aplicar dinheiro em suas indústrias”, diz.

Foto: Divulgação | Aos 35 anos de idade, Steno Marcegaglia, que começou sem experiência alguma no setor siderúrgico, começou a se tornar importante ao transformar o aço italiano. A partir de então, colocou em andamento uma política de aquisições e investimentos em segmentos diversos, como engenharia, energia, turismo e serviços. Além do sucesso, Steno teve a sua desforra: “Os empresários que antes me ridicularizavam foram obrigados a vender suas indústrias para mim, pois não conseguiam mais ter lucro”.

Quando já tinha uma empresa consolidada, em 1982, Steno foi seqüestrado e mantido em cativeiro em uma cabana na região da Calábria, sul da Itália. Depois de 51 dias em poder dos seqüestradores, ele conseguiu escapar sozinho. Livrou a família das chantagens e do resgate de US$ 6 milhões exigido pelos bandidos. Quando voltou para casa, em vez de se recolher, voltou ao trabalho com vontade. “Outros empresários que passaram pelo mesmo problema e sobreviveram pararam de trabalhar, mas eu não: acelerei novamente para fazer a empresa crescer ainda mais.”

Hoje, o Grupo Marcegaglia processa mais de 5 milhões de toneladas por ano. São 47 plantas espalhadas pelo mundo, com mais de 6,5 mil colaboradores, todos sob o comando de Steno. Segundo ele, dirigir um negócio deste tamanho exige entrega. “Quem não quer ter problemas deve escolher ser funcionário ou ter um pequeno negócio. Para ser grande, é preciso ter ambição, se comprometer e fazer do negócio a paixão da sua vida”, aconselha. Sua sorte foi que ele conseguiu envolver a mulher e os dois filhos nesse sonho, e transformou o Grupo Marcegaglia em uma empresa familiar bilionária. Seu filho Antonio, 44 anos, e sua filha Emma, 42, são seus parceiros na gestão da empresa, e também seu orgulho. “Ambos se formaram com nota máxima na universidade e são completamente comprometidos. Eles estão prontos para tocar a empresa ao longo do século 21.”

Foto: Divulgação | O Grupo Marcegaglia chegou ao Brasil no ano 2000, com uma planta de 18 mil metros quadrados no município de Garuva, em Santa Catarina. A unidade brasileira teve resultados melhores do que o esperado e, em menos de cinco anos, a estrutura já era insuficiente para atender à demanda. Steno mandou construir então outros 50 mil metros quadrados e, no final de 2006, com a conclusão das obras, foi possível dobrar a produção de serpentinas. “Nosso plano no Brasil era sermos uma pequena empresa para fornecer tubos a uma companhia, mas em dois anos já estávamos entre as maiores do País”, afirma Steno. A cidade de Garuva fica localizada em uma região estratégica para os negócios do grupo, pois faz divisa com Joinville (SC), onde está localizada a unidade da Whirlpool, fabricante das marcas Consul e Brastemp e controladora da Embraco, que produz compressores.

Boa surpresa

A Marcegaglia do Brasil tem atualmente 550 funcionários, responsáveis pela produção de 240 milhões de metros de tubos para refrigeração, 7 milhões de condensadores para refrigeração e mais de 180 mil toneladas de tubo de aço carbono e inox. A produtividade surpreendeu Steno. “Uma vez pensei que o Brasil era o país do ‘oba-oba’, mas descobrimos que é um país de excelentes trabalhadores. Quando inauguramos, começamos produzindo tubos delicados e com diâmetro pequeno, para geladeiras, e tínhamos apenas camponeses inexperientes. Selecionamos alguns operários e conseguimos qualificá-los em pouco tempo, e eles agora são tão eficientes que outros empresários tentam tirá-los de nós”, afirma. Para manter os colaboradores motivados, Steno diz que não existe segredo, basta tratá-los bem e pagá-los de forma justa.

Em 2010, será concluída a segunda fase de ampliação do grupo no Brasil. A planta total terá 110 mil metros quadrados de instalações e mais de mil funcionários. A produção saltará para 10 milhões de peças e 20 milhões de tubos para refrigeração, além de 200 mil toneladas de produtos siderúrgicos. A nova etapa prevê a construção de uma cidade inteira para as famílias dos colaboradores, a “Marcegaglia City”, com escolas e toda a infra-estrutura necessária para acomodar até 10 mil pessoas. A previsão é dobrar o faturamento, dos atuais R$ 515 milhões para R$ 1 bilhão em 2011.

Tal qual a matriz italiana, a subsidiária brasileira reinveste todo seu lucro líquido, e pretende se tornar líder no segmento de tubos de aço no Brasil em breve. Em 2008, a expectativa é fechar o ano com produção 80% superior a 2007. Dentro de dois anos, o volume esperado deve passar de 300 mil toneladas por ano.

Steno garante que continuará investindo para ampliar a produção, mesmo com o câmbio desfavorável. “O Brasil é um país 30 vezes maior do que a Itália, rico em matéria-prima e tem todas as premissas para receber nossos investimentos. Já identificamos muitos produtos e estamos fazendo pesquisas de mercado para investir.” Segundo ele, a empresa terá disponível um Ebitda (sigla em inglês para lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de US$ 60 milhões por ano para investir em novas empresas. Sua preocupação é prover capital inicial para colocá-las em movimento, pois depois, de acordo com ele, crescem sozinhas. Steno Marcegaglia persegue sempre o lucro, não pelo dinheiro, que ele já tem bastante, mas para ser grande. “Continuamos realizando grandes feitos. E às vezes reencontro aqueles velhos empresários que riam de mim quando comecei. Vejo-os vendendo em quilos, enquanto nós vendemos toneladas.”

Bússola Empresarial

O que fazer:
- Dar ao mercado o que ele pede
- Orientar a empresa com eficiência
- Comprometer-se com a empresa e com as metas
- Ter ambição

O que não fazer:
- Deixar-se abater pelas dificuldades
- Acomodar-se com os bons resultados
- Deixar de investir na empresa
- Dar ouvidos a opiniões pessimistas

Linha Direta

Steno Marcegaglia: 39+0376-685-1 / www.marcegaglia.com


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