Perfil
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Pé na borrachapor Andréia SeganfredoO vietnamita Thai Nghia baseou-se em experiência da escassez da guerra para lançar sandália feita a partir de pneus reciclados
Ao chegar ao Brasil, Nghia tinha muitas expectativas, mas se deparou com uma série de dificuldades. “Eu era estudante, sem qualificação, sem emprego, sem língua, sem nada”, conta ele, que na época tinha apenas 21 anos. Recebia uma ajuda financeira da ONU no valor de US$ 50 por mês e morava em um alojamento, junto com outros refugiados. “Tinha que poupar bastante. Comia pão e Miojo de tarde e de noite.” Com essa economia, Nghia conseguia comprar dicionários e as apostilas do cursinho, já que havia sido contemplado com uma bolsa de estudos. Como seu objetivo era estudar, viveu dupla jornada por vários anos. Começou trabalhando como ajudante num negócio de fotocópias e chegava a caminhar de três a seis quilômetros para não gastar em passagens de ônibus. “Tinha um amigo que era frentista e ganhava muito mais. Mas eu continuava nesse emprego, porque tinha mais tempo livre para estudar”, diz. Graças a esse esforço, um ano depois foi empregado em um banco como operador de computadores, responsável pelo setor noturno. “Foi meu primeiro emprego de carteira assinada e também me deu a oportunidade de aprender ainda mais o português.” Ele lia diversos manuais e dicionários para elaborar relatórios para as diretorias. Com as economias que fazia, Nghia juntou dinheiro para emprestar a um amigo que possuía uma pequena fábrica de bolsas. Em 1986, com o Plano Cruzado, a empresa foi à falência e para recuperar o dinheiro, ele ficou com 400 unidades e duas máquinas. “Tive que sair na rua vender os produtos e consegui um valor muito mais alto que o emprestado. Em 15 dias deixei o emprego no banco”, conta. A faculdade de Matemática da USP também ficou para trás. Depois de dois meses comprando e revendendo bolsas, começou a fabricá-las e abriu seu próprio negócio. Tornou-se fornecedor de peças para o catálogo Moda&Casa da Avon, de quem recebeu convite para entrar no ramo calçadista em 2000, devido à qualidade dos produtos já oferecidos. A fundação da Goóc em 2004 (raiz, em vietnamita) representou o retorno de Nghia às suas origens, que passou a fabricar sandálias de pneus reciclados, inspirado nas papetes (tipo de sandália) feitas durante a Guerra da Independência. Na época, a escassez de recursos obrigou os vietnamitas a fazerem calçados a partir de pneus encontrados nos campos. Esquentavam uma faca para cortar a sola, e com varas de bambu faziam os furos para as tiras, feitas da câmara. “Não era consciência ecológica, era por necessidade. Mas eu achava essa história muito bonita e vi que, ao mesmo tempo, podia ajudar o Brasil”, conta.
O produto demorou a cair no gosto dos brasileiros. “Quando lancei em São Paulo, o perfil dos consumidores dos lojistas era mais convencional. Foi o jovem que se identificou com o nosso produto”, afirma Nghia. No primeiro ano, foram vendidos 1,1 milhão de pares, e no segundo, mais do que o dobro – 2,5 milhões. Com isso, o empresário começava a realizar o sonho de colaborar com o meio ambiente, retribuindo o acolhimento que teve aqui. Desde então, a Goóc reciclou mais de 2 milhões de pneus, com a produção de 10 milhões de pares de sandálias. “Nossa meta é tornar o Brasil referência em calçado reciclado até 2014”, diz. O País concentra o maior número de usuários e é o segundo que mais recicla pneus. Reciclagem Atualmente, cerca de 34 milhões de pneus inservíveis são descartados por ano no Brasil. São peças que não podem ser remodeladas e, por isso, acabam na cadeia de reciclagem como insumo para aplicações industriais. Entram na composição do concreto e asfalto, em substituição à brita, são reaproveitados na confecção de tiras ou, ainda, como combustível. Dados da Associação Nacional das Empresas de Reciclagem de Pneus e Artefatos de Borracha (Arebop) mostram que 241 mil toneladas foram recicladas em 2006 – cerca de 24 milhões de pneus. “Esse passivo pode ser zerado. Temos empresas suficientes para reciclagem, mas falta a contrapartida dos fabricantes, já que são eles os responsáveis pelo destino do material”, afirma José Carlos Arnaldi, diretor-executivo da entidade. O impacto da ação da Goóc não interfere apenas nesses números. Nghia profere diversas palestras como forma de disseminar a consciência pelo desenvolvimento sustentável e empreendedorismo. “Compartilhar a experiência é uma ajuda aos jovens. Digo para irem à luta, porque a vida não é fácil para ninguém.” Persistente, começou com um negócio falido e alcançou o sucesso com responsabilidade socioambiental. Na dificuldade diária com o idioma, criou um dicionário próprio que acabou se tornando o primeiro em vietnamita-português no Brasil. Filho de família rica no Vietnã, Nghia estudou numa escola católica francesa. Quando chegou ao Brasil, traduzia as palavras do português para o francês e, depois, para sua língua nativa. “Comecei a fazer o dicionário depois de quatro meses. Não dava para andar com tantos na mão.” A primeira edição teve 15 mil verbetes, e a segunda, concluída em 1999, com 35 mil termos, foi uma promessa a Nossa Senhora de Lourdes. “Eu rezei para conseguir voltar para a faculdade e trabalhei durante um ano, sem férias e finais de semana, para fazer esse novo.” Passou em 10º lugar no vestibular para Administração no Mackenzie e imprimiu 500 exemplares da nova versão, que distribui gratuitamente até mesmo para autoridades vietnamitas. Seu sotaque é ainda carregado, mas ele conhece muito bem o jeitinho brasileiro. Thai Quang Nghia Contatos |
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