Você sabe aonde realmente quer chegar? Para o consultor André Alfaya, a pergunta é fundamental na vida de qualquer pessoa, e empreendedores e executivos de empresas não devem fugir à regra. Headhunter da Robert Wong Consultoria, comandada por Wong, um dos maiores ‘descobridores’ de executivos do Brasil, Alfaya conta que já presenciou muitos executivos de sucesso infelizes com o rumo que deram às suas carreiras. São profissionais aclamados no mundo dos negócios, mas insatisfeitos com a vida pessoal. Muitos não acompanharam o crescimento de seus filhos e chegaram ao ponto de perder suas companheiras ou companheiros por não saber conciliar vida profissional e familiar. Outros têm tudo isso, mas simplesmente não se sentem realizados no trabalho.
Numa analogia com o próprio mundo dos negócios, Alfaya propõe que executivos e empreendedores façam uma ‘viagem’ chamada autoconhecimento e descubram qual é sua missão, sua visão e seus valores pessoais. Para o consultor, antes de planejar um negócio é preciso planejar a própria vida. Alfaya diz que ter certeza do que se quer faz toda a diferença na hora de comandar um negócio. É a senha para conquistar e envolver pessoas, uma atitude imprescindível aos grandes líderes. Na entrevista a seguir, o consultor propõe que os executivos se tornem protagonistas de suas próprias vidas em vez de se deixar levar pela corrente. Só assim terão uma vida equilibrada e feliz. Porque sem felicidade não há quem produza bons resultados.
Uma das premissas da filosofia Wong diz que “a felicidade traz resultados”. Presume-se que uma pessoa feliz tem uma boa vida profissional e pessoal. Como um empreendedor ou um executivo pode conciliar esses dois lados?
Alfaya – A gente acredita muito numa coisa chamada autoconhecimento. É uma viagem indelegável. Cada um de nós tem de fazer a sua. Basicamente, o que a gente precisa para ter uma vida equilibrada é se autoconhecer. O autoconhecimento gera na pessoa a coisa mais importante para que ela seja vitoriosa: a autoconfiança. Quando você tem autoconhecimento e autoconfiança, você atinge todos os objetivos.
Por que isso é tão importante?
Alfaya – O que acontece? Independente de vida profissional ou pessoal, as pessoas precisam ter a sua missão – cada vez mais a gente vem observando isso. Identificar sua missão, sua visão, seus valores, para achar a razão da sua vida, entender o significado daquilo que ela está fazendo. Se ela não faz isso, muitas vezes ela é guiada por fatores externos. São valores externos impostos pela sociedade onde ela vive que acabam julgando se ela teve sucesso ou não, se vai ser feliz ou não. Esses valores externos, se forem levados em conta pelo profissional, podem levá-lo para o caminho errado.
Isso significa que é preciso dar um peso maior à vida pessoal?
Alfaya – Isso significa, basicamente, que o profissional gasta horas e horas planejando – principalmente empreendedores – para tornar a empresa a melhor possível, e acaba se negligenciando. Cadê o autoconhecimento? Cadê o planejamento da vida deles? Cadê a identificação de uma vida equilibrada, dos valores próprios e não dos valores externos, mas os valores internos das pessoas? Fica um antagonismo muito engraçado, porque as pessoas investem muito na área profissional e pouco na área pessoal, do autoconhecimento. Se fizesse o oposto, com toda certeza esse profissional conseguiria uma vida equilibrada, porque constrói a sua empresa dentro daquilo que acredita que são os seus valores, que é a sua missão, consegue contagiar as pessoas que estão do lado, inclusive seus familiares, e dessa forma consegue uma vida mais equilibrada.
E como chegar ao autoconhecimento?
Alfaya – O autoconhecimento é uma viagem própria. Existem várias formas de fazer isso, inclusive uma das ferramentas que a gente utiliza na Robert Wong Consultoria é o life coaching, onde um profissional de fora ajuda esse executivo ou esse empreendedor nessa viagem. O que seria isso? Reflexão, meditação, perguntas. Obviamente a gente já tem uma estrutura para essa viagem, de forma que a pessoa identifique seus valores. Um exemplo de como você pode identificar um valor: pensar em alguma coisa que o irrita profundamente quando fazem com você. Quando alguém faz isso você tem um valor que é importante. Você pontuar os principais valores – aquilo que o irrita e aquilo que lhe agrada – é muito importante. Você já começa a ter um autoconhecimento de saber o que é importante para você. Coisas que talvez você tenha que incorporar na sua empresa, no seu dia-a-dia e ter isso de forma mais consciente.
É preciso refletir sobre si mesmo?
Alfaya – Existem muitas maneiras de fazer essa viagem, mas uma delas é a reflexão, colocar no papel todos esses valores. Uma declaração de missão e de visão é fundamental, até fazendo esse paralelo com empresas mesmo. É o planejamento, a viagem que você faz quando elabora um business plan, quando você busca os diferenciais que a sua empresa precisa ter, qual vai ser a missão da sua empresa, a visão, a cultura que você gostaria que a empresa tivesse. É a mesma coisa quando se está falando de um indivíduo. O que eu preciso para isso? Qual é a minha missão? Qual é a minha visão? Quais são meus valores? É uma investigação pessoal. Muitas vezes as pessoas procuram profissionais para ajudar nessa investigação.
Trata-se de um tipo de reflexão que requer ajuda profissional?
Alfaya – Não necessariamente, mas existem pessoas que já nascem sabendo o que querem, para quem é mais fácil. Se você pegar os artistas, eles acabam descobrindo a missão deles talvez de uma forma até mais natural. “Puxa, acho que quero ser cantor.” Ele já tem aquele talento, ele já descobre com facilidade, nem precisa de alguém para ajudá-lo nesse processo. Podem precisar até de alguém para ajudá-los a desabrochar mais rápido, mas não necessariamente para descobrir o que eles querem. Outros não.
Quais são os reflexos do autoconhecimento nas atitudes de um executivo?
Alfaya – Acho que um exemplo bem claro de missão e de visão são os atores. Eles querem morrer no palco, não fazer aquilo por um período, do tipo “vou trabalhar nisso por um tempo até me aposentar e aí sim vou fazer o que eu quero”. O cara faz aquilo porque ele gosta, faz pela razão certa. Ele fala: “Puxa, com 80 anos eu quero estar no palco”. Isso faz toda a diferença. Ele contagia quem está do lado dele, consegue a colaboração dos outros. A partir do autoconhecimento, o executivo passa a envolver as pessoas que estão ao redor dele, seja filho ou amigo. Ele compartilha de uma forma tão natural e tão contagiosa que essas pessoas acabam contribuindo, compreendendo por que a pessoa não pode participar de determinado evento familiar, por exemplo.
Profissionais com esse perfil estão sendo mais requisitados pelas empresas?
Alfaya – Hoje, tanto no Brasil como no mundo todo, existe toda a sorte de empresas e de profissionais. Falar de tendências é um pouco perigoso, mas as gerações mais novas estão buscando um significado. Hoje o jovem está querendo viver na plenitude, viver seus valores. E se ele não encontra aquilo na empresa, ele está muito mais corajoso no sentido de procurar novos lugares. Mas não dá para afirmar que as empresas mais agressivas não terão mais espaço no mercado, porque vai existir o jovem que será mais agressivo e que vai se identificar com aquela empresa. Talvez vá dar uma equilibrada, porque antes era uma coisa muito mais fria e hoje as empresas estão mais humanas. Mas estilos sempre vão existir, dos mais variados.
O que querem os executivos que buscam a consultoria de vocês? Mais qualidade de vida?
Alfaya – Ou estão buscando melhor a performance, procurando desenvolver novas habilidades, ou estão procurando fazer sua viagem interior, achar sua missão, sua visão. E digo mais: muitas vezes quando ele já alcançou o que achava que era o sucesso. Daí a importância de essa viagem ser feita o quanto antes. Quanto mais cedo as pessoas descobrirem a sua missão, a sua visão, o que elas querem deixar como legado, melhor. Porque cerca de 80% das pessoas que atingem o sucesso sentem um vazio. “Mas, poxa, ele já conseguiu tudo o que queria.” Ele conseguiu tudo o que ele almejava como sucesso e hoje descobriu que isso não é nada. Por quê? Porque ele foi guiado por valores externos, por aquilo que não era realmente um valor para ele, e hoje sente um grande vazio. Então somos procurados por profissionais para identificar o que realmente é importante na vida dele, o que ele está buscando. Hoje eles têm uma série de coisas, situação financeira, status, mas não têm, por exemplo, os filhos. Ele perdeu os filhos, perdeu a esposa e começa a fazer essa reflexão do que é importante para ele. O que vai fazer com a vida dele daqui para a frente.
E tem gente que nessa “viagem” acaba mudando o rumo completamente?
Alfaya – Sim, completamente. A gente tem aqui o caso de um executivo que largou tudo e foi seguir a sua vocação e virou ator da Globo, abandonou a vida de executivo, um executivo bem-sucedido que, numa dessas sessões, começou a identificar que estava indo para o caminho errado. É até uma responsabilidade nossa nesse sentido, porque a gente pode ajudar as pessoas a correrem ainda mais para o caminho errado. Por isso eu insisto na questão da viagem. A pessoa precisa identificar muito bem aonde não quer chegar. Não adianta nada você correr mais se estiver correndo na direção errada. E muitas vezes o profissional faz isso. “Puxa, eu preciso fazer um MBA, seguir por esse caminho para chegar ao meu objetivo mais rápido.” Só que esse objetivo não foi planejado, não foi pensado, foi levado por fatores externos. Quando ele alcança, diz: “Nossa, corri para o lado errado”. Então ele tem que voltar e dizer: “Onde eu quero estar é lá”. Por isso eu brinco com a questão da viagem, mas é muito sério você definir o que você quer fazer da sua vida.
Esse é um trabalho que leva tempo?
Alfaya – No caso de um life coaching, o mínimo são dez sessões, o que significa três meses. Mas não é algo que tenha um começo, meio e fim. O nosso processo de ajuda, sim. São sessões que duram no mínimo três meses para ajudar a pessoa a encontrar o seu caminho. E veja: nós vamos ajudá-la a encontrar o seu caminho, não vamos direcionar algo do tipo “você tem que fazer isso, identifiquei uma habilidade com comunicação”. Não. Nós vamos dar um empurrão para que você encontre seu próprio caminho.
Que recado você daria aos empreendedores?
Alfaya – Em relação aos empreendedores eu gostaria de frisar o quanto esses profissionais gastam investindo no planejamento de suas empresas e, em contrapartida, tão pouco consigo mesmo. E muitas vezes é o mesmo processo. Essa viagem, como eu estou chamando, é muitas vezes o planejamento que ele faz com a empresa e é o planejamento que ele deve pensar para si mesmo.
Linha Direta
André Alfaya: (11) 4508-2833