Perfil
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Vocação reformadapor Francis FrançaEx-ginasta inovou mercado de roupas de ginástica e conquistou clientes em 42 países Especialistas costumam dizer que, na hora de abrir uma empresa, o melhor caminho é atuar em uma área que se conheça e, principalmente, de que se goste. A gaúcha Beatriz Dockhorn, presidente da Bia Brazil Fitness, se encaixa perfeitamente nesse perfil e mostra como a combinação de empreendedorismo com vocação pessoal pode levar a resultados surpreendentes. Ginasta dos cinco aos 18 anos de idade, bicampeã brasileira e campeã sul-americana de ginástica olímpica, quando decidiu abrir o próprio negócio foi no mercado esportivo que ela investiu seus esforços. Beatriz começou costurando roupas de ginástica para si mesma. Depois que encerrou a carreira esportiva, trabalhou durante 12 anos como professora de educação física nas escolas da rede estadual, em Porto Alegre. Em 1994, tirou seis meses de licença-prêmio e aproveitou o tempo livre para se dedicar novamente ao esporte. Mas quando foi comprar roupas de ginástica, só encontrou tamanho único nas lojas. “Era muito pequeno para mim, que estava saindo de um processo de gravidez. Decidi fazer as minhas próprias roupas e vi que existia um espaço no mercado muito grande para mulheres que não se encaixavam no padrão de atletas, então comecei a desenvolver tamanhos P, M e G”, conta. No começo, ela mesma desenhava, cortava e costurava os modelos. Beatriz não era propriamente costureira, mas sempre teve, desde pequena, talento para atividades manuais, como pintura e artesanato. Quando terminou a licença-prêmio, ela não tinha como voltar atrás, pois já fazia roupas por encomenda para conhecidos e revendedores que pediam para oferecer suas peças em academias de ginástica. Em 1996, quando a conexão de internet ainda era discada, Beatriz lançou o website da empresa em três idiomas e realizou sua primeira operação internacional, para a Costa Rica. Teve que aprender na prática, pois não sabia nada sobre exportação na época. “Fui atrás de informações, e o cliente trabalha comigo até hoje.” No início de sua trajetória como empresária, sua preocupação era manter a fábrica funcionando com pedidos em todos os meses do ano. A tarefa parece simples, mas a Bia Brazil levou quase cinco anos para conseguir completar o ciclo de compras. Hoje, com 90% da produção destinada ao mercado externo, a Bia Brazil está presente em 42 países nos cinco continentes, com cerca de 200 mil peças produzidas por ano. Os maiores mercados são Estados Unidos, China e países da América Central. Apesar de ser uma empresa de médio porte, com faturamento aproximado de R$ 18 milhões anuais, a marca concorre no mercado com gigantes como Nike e Adidas. “Nossa vantagem é a exclusividade das peças, que são produzidas em menor escala, e nossa agilidade para alterar a produção, quando necessário.” Essa rapidez em se adaptar à dinâmica do mercado é especialmente bem-vinda em tempos de crise na economia norte-americana, que tem afetado os negócios da empresa. As negociações feitas em libra, através da central de distribuição na Inglaterra, equilibram as contas, mas Beatriz trabalha para ampliar a atuação no mercado nacional e se proteger contra os efeitos macroeconômicos. “É realmente um problema, pois nos focamos nas exportações, e agora, com a queda do dólar, precisamos trabalhar mais o mercado interno”, diz.
A organização inclui relatórios diários de todos os setores para monitorar produtividade e aproveitamento de matéria-prima. Regularmente, são contratados auditores para checar as contas da empresa e analisar os relatórios de cada setor, processo que Beatriz acompanha de perto. “Quanto mais a empresa cresce, maior é o investimento, e a desorganização acaba multiplicando os gastos por causa de desperdício de tecido, aviamentos, linhas e tudo mais.” Em 2005, ela passou pelo momento mais difícil de sua vida como empresária. Um incêndio destruiu 30% da fábrica, causando-lhe um prejuízo de R$ 600 mil. Beatriz tinha ido à fábrica numa manhã de novembro, depois de um forte temporal de granizo em Porto Alegre, que alagou a unidade industrial. Ela passou duas horas levantando caixas de um carregamento que seria embarcado para o exterior e não percebeu que um dos ventiladores havia entrado em curto-circuito. Meia hora depois que saiu da fábrica, os vizinhos ligaram para avisar que o prédio estava em chamas. “Eu, como todo bom brasileiro, havia pago seguro durante dez anos sem usar, e quando venceu, em maio, decidi não renovar. Então eu tinha o seguro do prédio, mas não dos tecidos, das máquinas, nada.” Superação Beatriz pensou em desistir ao ver dez anos de trabalho consumidos em meia hora de fogo, mas seus clientes começaram a adiantar pagamentos dos pedidos que seriam feitos no ano seguinte para que ela pudesse comprar novas máquinas. “Quando vi aquele dinheiro todo na minha conta eu não tinha outra escolha senão continuar, era uma obrigação moral com eles.” O trabalho de todo o ano de 2007 foi dedicado a recuperar o prejuízo, e hoje, graças aos seus parceiros – como ela chama seus clientes –, a empresa tem mais máquinas e funcionários do que tinha antes do incidente.
As lições recebidas nos tempos em que era atleta profissional, como disciplina, espírito de equipe e trabalho duro, foram fundamentais para que ela reconstruísse seu patrimônio. “Grande parte da minha personalidade e força para me levantar veio do esporte. A gente aprende que, quando cai, é preciso levantar e trabalhar com mais afinco. São coisas que se leva para o resto da vida.” Antes de montar a fábrica para roupas de ginástica, Beatriz conseguia malhar todos os dias. Depois que virou empresária em tempo integral, esforça-se para conseguir dedicar pelo menos dois dias por semana para os exercícios físicos. O trabalho virou sua ginástica: ela não tira férias há 15 anos e passa pelo menos dez dias por mês fora do País, em feiras ou negociando com clientes. Seu lazer é, quando vai para feiras internacionais, chegar dois dias antes e ficar dois dias após o evento para conhecer os países para os quais comercializa. Quando está em Porto Alegre, trabalha das 9h30 às 18h30, sem pausa para o almoço, e a noite dedica às caminhadas, à academia ou aos pais.
Beatriz não tem sócios, e dois de seus três filhos se preparam para trabalhar com ela na empresa. O mais velho, de 25 anos, é advogado especializado em direito internacional, e sua filha caçula, de 17 anos, estuda Administração com foco em empreendedorismo e sucessão. “É preciso gostar do que se faz, e tenho certeza que minha menina vai dar continuidade à empresa. Ela está comigo desde que começou a fábrica e já trabalha comigo três vezes por semana.” O legado de Beatriz inclui uma relação de confiança plena e companheirismo com os clientes, e à sua filha caberá a tarefa de manter esses laços em um mundo que exige empreendedores cada vez mais ágeis e competitivos. Linha Direta Beatriz Dockhorn: bia@biabrazil.com.br |
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