Mercado globalizado e cada vez mais competitivo exige empresas com cultura intraempreendedora, observa o executivo especialista em gestão empresarial há 30 anos
Aproveitando a experiência adquirida como executivo em empresas como PricewaterhouseCoopers e IBM, o consultor Sergio Lozinsky escreveu o livro Implementando empreendedorismo na sua empresa, que reúne sua vivência como líder de projetos e especialista em gestão empresarial há 30 anos. Demonstrando de forma prática, através de cases, os motivos que levam as organizações do século 21 a se afastarem de um modelo onde poucos pensam e muitos executam, buscando colocar em prática uma cultura empreendedora, na qual cada funcionário sabe que é importante para um melhor desempenho da empresa.
Por outro lado, não só as corporações fomentam esta mudança de postura, como as pessoas tomam consciência de que esta mentalidade é o caminho para desenvolver suas carreiras. Lozinsky busca aconselhar estes profissionais na busca por oportunidades de mostrar decisão e liderança, que aspiram subir dentro de suas organizações através da cultura do intraempreendedorismo.
Tal tema é de extrema relevância, se levarmos em conta que a taxa de intraempreendedorismo nas pequenas empresas brasileiras seja menor do que 1%, segundo dados da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM)/Sebrae. Descubra como mudar essa situação e potencialize sua empresa.
As empresas e seus funcionários já têm a percepção de que é preciso incorporar a cultura do empreendedorismo em suas práticas cotidianas?
Sergio – Na verdade a consciência sobre este assunto não é tão geral quanto você imagina. As pessoas falam muito em inovação, em encontrar formas de reduzir custos, dentre outras pautas. Mas o empreendedorismo vai muito além disso, é não só inovar, é ter a capacidade de executar. É conseguir expandir o negócio. No livro eu comento um case em que a partir de um empreendimento inicial se criaram outros quatro. O fundamental é destacar que o processo empreendedor é uma cultura que tem que ser criada. Os donos e gestores precisam fomentar, têm que indicar que isto é algo valorizado pela empresa, que enxergam nisso um elemento fundamental para o futuro da empresa, sua continuidade.
De que forma isto é feito?
Sergio – Há muito tempo as empresas têm as caixas de “fale com o presidente”, têm café da manhã com os executivos onde se estimula que as pessoas falem, indiquem suas ideias. Empreendedorismo interno requer um pouco mais. É preciso que seja bem estruturado, senão corre o risco de ficar cansativo. Nesses encontros, por exemplo, se ocorre um primeiro, segundo, terceiro, e as ideias aprovadas não são trazidas à prática e aquilo vira um folclore. Depois do momento em que a ideia surge, é preciso um processo organizado para que seja levada para frente. Então o que eu digo no livro é que a empresa que quer ser criativa tem que seguir alguns passos, e um deles é organizar o processo. A fomentação de ideias pode nascer de uma maneira um pouco desorganizada, no sentido de que “ideias são bem-vindas”. No entanto, a partir do momento em que elas são colocadas, tem que haver um processo de filtragem, outro de priorização, tem que fazer a separação entre o que é ideia empreendedora, que vai mudar o negócio, de ideias, por exemplo, para corte de custos.
E dentro da estrutura da organização, quem deve estar encarregado de tornar estes processos uma prática?
Sergio – Isso depende do porte da empresa. Uma possibilidade é ter um comitê de empreendedorismo, ou pode ser uma reunião que acontece de vez em quando, mas o importante é ter etapas que claramente selecionem as ideias mais promissoras, e a partir daí que haja um processo de desenvolvimento delas. Pois no mundo o que não falta é ideia, o que falta é execução. Por aí está cheio de gente com ideia de como ficar milionário, de como conquistar o mercado, etc.
E como evitar que tudo se torne ideia para corte de custos?
Sergio – A empresa que quer empreender não está em busca apenas de corte de custos. Ela quer ideias que façam seu produto alcançar um público maior, ou aumentar o número de clientes no caso do varejo, e ainda pensar novas formas de financiamento mais atraentes para o consumidor e mais lucrativos para a empresa. Empreendedorismo é isso, é fortalecer a marca. Então esse comitê, essas pessoas que avaliam as sugestões, o presidente ou os acionistas, não importa quem for, mas sim quem deve chegar e dizer: olha, aqui tem duas ideias empreendedoras em que a gente vai ter que investir para aumentar o nosso negócio. E aqui do lado tem cinco ou dez ideias de corte de custos. Essas devem ser tratadas como tal – práticas para aperfeiçoar os processos existentes. Já as ideias empreendedoras devem ser tratadas como projetos de investimento que precisam ser avaliados como se a própria empresa fosse um investidor que vai resolver se coloca dinheiro ou não.
Como é possível ter esta mentalidade?
Sergio – É preciso avançar nos processos com essa ideia até que ela se comprove. Não basta pegar e dizer “esta é uma boa ideia, vamos fazer assim”. Tem que fazer um piloto, testar, estabelecer um plano de negócios. No começo da conversa a gente falou em cultura. Cultura empreendedora é isso. Não basta ter boas ideias e ir atrás delas, é ter esta mentalidade de investidor, e a partir disso criar um ciclo vicioso que ao longo do tempo determina essa cultura, essa mentalidade. É preciso garantir que cada funcionário da empresa se perceba como alguém que pode contribuir para expandir o negócio.
E quando o funcionário tem esta percepção mas a empresa não adota estas práticas?
Sergio – Quando se fala em cultura, se fala em choque de culturas. É uma questão interessante que também aparece no livro. Mas, resumindo: o empreendedorismo, para se tornar uma cultura, sempre vai depender dos líderes, de que aceitem estes fatos. Se eu quiser empreender mas o meu chefe ou o chefe dele me impedir de fazer qualquer coisa acabarei desistindo. Ter uma atitude empreendedora é um meio que o profissional tem de valorizar sua própria carreira. O que ele deve perceber é se a organização em que ele está é aberta a isso ou não. Ele deve, no entanto, cultivar a atitude. Há algumas maneiras de levar novas ideias para a frente. Uma boa ideia que não seja levada de uma maneira articulada e com uma estratégia política adequada, por melhor que seja, tende ao fracasso. Tem que se considerar aspectos de colaboração, e o caminho que tem mais chances de sucesso é aquele que se abre à ideia, se discute, se obtém suporte, se melhora os projetos ao conversar com outras pessoas, se tem noção do impacto em outras áreas da empresa e se discute que impacto é esse.
O que motivou o senhor a escrever esta obra?
Sergio – O que na verdade me motivou a escrever o livro é minha convicção de que a atitude empreendedora é algo extremamente necessário para o progresso do profissional de hoje em dia. As empresas, tenham essa cultura ou não, precisam de pessoas empreendedoras espalhadas pela sua organização. Isso faz muita diferença em um mundo competitivo e globalizado como se tem hoje. Eu digo: tenha esta atitude. Se a empresa estiver tão fechada a ponto de não reconhecer isso, vá para outra empresa! Pelo seu próprio futuro.
Como deve se portar o profissional para não atingir estes extremos?
Sergio – Acertar neste ponto demanda muito tato. Há muitos casos de profissionais que são dispensados por serem apáticos quando inseridos em certa cultura empresarial, entretanto florescem em outras organizações. A empresa que perdeu aquele talento muitas vezes não estava pronta para receber o novo. Por isso um processo de articulação, de planejamento, é tão importante.
Este processo muda a maneira que a empresa enfrenta períodos de dificuldade?
Sergio – Problemas em geral são oportunidades com outro nome. A cultura empreendedora é na verdade uma grande geradora de empregos. À medida que você vai gerando novos negócios, você dá chance para as pessoas progredirem nas suas carreiras, e você forma mais gerentes, mais coordenadores, mais vendedores. Isso cria uma lucratividade que torna as empresas saudáveis, e que cria a necessidade de ela manter os talentos, e não demiti-los. Por fim, é uma atitude em prol do crescimento da riqueza de toda a sociedade.
Linha Direta:
Sergio Lozinsky: (11) 3645-0415