O ano de 2001 marcou dois nascimentos para a empresária Maria Aparecida Ribeiro Beckhauser. Primeiro o de seu primogênito, João Pedro. Cida, como prefere ser chamada, sentia-se realizada quando amamentava o recém-nascido. Mas, conversando com outras mães, percebeu que algumas se queixavam da amamentação, considerada dolorosa e incômoda. “Elas me contavam que tentavam dar de mamar e não conseguiam. Tinha mãe que ficava traumatizada, que não queria ter um segundo filho por causa da amamentação. E, muitas vezes, era por causa de problemas corriqueiros. Então eu imaginei que esse desconforto poderia ter uma solução, porque é frustrante querer e não conseguir alimentar o próprio filho”, relata a empresária. A vontade de incentivar esse bonito ato fecundou a idéia de criar uma linha de produtos que aumentassem o conforto das mães. Nascia naquele mesmo ano a empresa JohnPetter – nome dado em homenagem ao filho.
Dados do Ministério da Saúde confirmam o problema que Cida identificou. Segundo a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS), divulgada em junho, 23% das mães deixam de amamentar antes dos três meses de vida do bebê e 33% entre o quarto e o sexto mês. O ideal, segundo orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), é que o leite da mãe deve ser o único alimento consumido pela criança nos seis primeiros meses de vida e estar presente da dieta até os dois anos de idade. Isso porque quanto mais leite materno uma criança recebe, menor o risco de morte por diarréia e outras infecções, e maiores as chances de crescer com saúde.
Vários podem ser os fatores que levam uma mãe a parar de amamentar, incluindo a necessidade de voltar para o trabalho. E se algumas dessas mães interrompiam o aleitamento por causa do desconforto, Cida queria ajudar. Com formação em idiomas, Cida trabalhou durante 14 anos em uma indústria da cidade de Braço do Norte, no sul de Santa Catarina. Largou o antigo emprego para se dedicar ao filho e ao novo negócio.
Foram seis meses de testes e confecção de moldes até a criação do SaveMilk, o carro-chefe da empresa. Trata-se de duas “conchas”, feitas de polipropileno, em formato que se encaixa no seio da lactante, desenvolvidas a partir de uma pesquisa com profissionais da saúde. A função do acessório é posicionar corretamente os seios curvos e permitir a ventilação da mama. Ele também evita o vazamento de leite na roupa, que é coletado por um compartimento interno. Segundo anúncio da empresa, o produto ajuda a resolver problemas comuns no pós-parto, como cicatrização da rachadura e seios doloridos, pois evita o contato com o sutiã e massageia o peito, preparando-o para a sucção.
“Era um produto exclusivo, diferente de tudo, por isso havia um cultura a ser implantada. Ia ser difícil, mas eu sou insistente. Quando acredito em uma idéia, pode vir tempestade e trovões que eu não desisto.” Hoje Cida mostra, satisfeita, um dos muitos e-mails que recebe de pais e mães gratos com a fabricante dos produtos. “Minha esposa tem os bicos dos seus seios pequenos e a sucção do bebê provocou fissuras. Ela não sentia mais prazer nesse lindo momento entre mãe e filha, pois sentia fortes dores quando dava de mamar e já queria parar de amamentar. Por sorte, minha cunhada conhecia o produto e nos receitou”, escreve Luís Renato Geraldo, de São Manuel (SP). Sua esposa, Sônia de Fátima Henrique, em entrevista à reportagem, diz que ainda usa a concha de amamentação entre as mamadas e a noite, para evitar que peito fique sensível demais, três meses após dar à luz.
O princípio da concha SaveMilk está de acordo com as instruções que as voluntárias da ONG Amigas do Peito passam para as novas mães. “Nós instruímos que elas amaciem a auréola, para que o bebê faça a ordenha com mais facilidade e a mama não empedre”, resume Maria Lúcia Futuro, integrante da organização fluminense. “Freqüentemente mães que não recebem orientação sobre como o bebê deve ficar posicionado sofrem com o ardor das rachaduras. Nesses casos, orientamos que deixem o seio ventilar e usem o próprio leite como curativo”, completa Maria Lúcia.
Os números da JohnPetter mostram que os produtos têm sido úteis a muitas mães. A empresa fechou 2007 com um faturamento de R$ 1,5 milhão, somadas as vendas da concha de amamentação e do Mamatutti, acessório que permite a suplementação alimentar durante o aleitamento. A expectativa da diretora Cida Beckhauser é crescer 42% em 2008 e 50% em 2009, a partir dos investimentos em propaganda e divulgação. Segundo conta, as vendas foram impulsionadas pela divulgação voluntária dos profissionais da saúde e pela indicação de uma gestante para outra.
Engajamento
Acompanhar o andamento e desempenho da empresa não foi a única atividade da empresária nos últimos sete anos. A relação dos produtos com a causa social da amamentação estimulou-a a se engajar, respeitando as limitações de uma pequena empresa. Começou com um pedido de um amigo médico, que atuava no Amazonas e queria alguns exemplares para o hospital onde trabalhava. Mais algumas caixas para uma conhecida que trabalhava na periferia do Rio de Janeiro. Com o tempo, foram tantos profissionais da saúde pedindo ajuda que foi preciso direcionar uma funcionária para coordenar as ações sociais da empresa.
Hoje a JohnPetter dedica parte de sua produção a maternidades, onde as conchas podem ser reutilizadas por várias mães, mediante esterilização na autoclave. Grupos de amamentação e ONGs também recebem o apoio da empresa na realização de cursos de gestantes, com o envio de material didático, cartilhas sobre aleitamento materno e conchas SaveMilk. Para reduzir a insegurança das mães de primeira viagem, também foi produzido o guia Tendo um bebê, com o auxílio de nutricionistas, psicólogos, obstetras e pediatras. O livro contém várias dicas para as futuras mães e familiares sobre os ocorridos nas fases pré e pós-parto e é distribuído para médicos interessados.
Já foram doados, segundo informações da administradora, mais de 30 mil pares da concha de amamentação, contemplando cerca de 400 maternidades. No guia Tendo um bebê, foram investidos R$ 20,4 mil, incluindo custo de impressão e transporte, sendo que a primeira tiragem, de 2 mil exemplares, já está esgotada. Uma segunda com mais 60 mil livros já foi encomendada e será distribuída a partir de março. “Eu faço isso de coração, porque acredito. Dinheiro é bom, amplia a empresa, mas não é tudo”, afirma Cida, que diz ter como sonho criar uma fundação para incentivar o aleitamento. Se assim, pequena, a empresa está sendo bem cuidada, a expectativa é de muita saúde financeira quando crescer.
Maria Aparecida Ribeiro Beckhauser
Data de nascimento: 22/05/1972
Local de nascimento: Orleans (SC)
Formação: Superior incompleto
Empresa: Grupo JohnPetter
Ano de fundação: 2001
Área de atuação: Produtos que incentivam a amamentação
Número de funcionárias: 14
(todas mulheres)
Cidade-sede: Braço do Norte (SC)
Faturamento em 2007: R$ 1,5 milhão
Contatos:
JohnPetter: (48) 3658-3009/www.johnpetter.com.br
Amigas do Peito: (21) 2285-7779