'Angel Investors' são investidores individuais ou em grupo especializados em aplicar capital de risco em empresas nascentes. Nos Estados Unidos, eles são centenas, mas aqui no Brasil ainda são muito poucos. Quando se pensa em empresas como o You Tube ou a Google - que recentemente comprou o You Tube, poucas pessoas sabem que as duas empresas começaram em pequenos escritórios nas casas de seus fundadores. Foi graças a um 'Angel', que acreditou no potencial do negócio, é que eles se transformaram em megagrupos.
Mas os 'anjos' estão começando a se organizar no Brasil e, mais do que isso, estão olhando para as pequenas empresas de base tecnológica. Uma parceria recente entre a AdTS Soluções em Engenharia e Automação e a Infinity Invest, empresa de investimentos em ações, deverá mudar definitivamente a vida das duas empresas. Isso porque a Infinity está investindo R$ 1 milhão na pequena AdTS Soluções, um das empresas incubadas do Centro Incubador de Empresas Tecnológica (Cietec), que funciona dentro da Universidade de São Paulo.
A Infinity Invest, criada há dois anos, é composta por quatro sócios, três deles estudantes universitários. Com capital próprio, decidiram investir em ações na Bolsa de Valores. O negócio deu tão certo, que passaram a constituir um patrimônio considerável. "Decidimos então partir para o empreendedorismo e tirar o dinheiro do mercado de títulos para gerar empregos nas empresas", diz o sócio da Infiniy Luiz Guilherme Casmasmie, de 21 anos e estudante de Direito.
Apesar da pouca idade, Casmasmie sabe o que quer. Segundo ele, existe no Brasil uma lacuna entre o grande investidor e a pequena empresa. "O pequeno empresário precisa de capital para crescer, mas geralmente tem pouco a oferecer ao grande investidor. Nós queremos estar neste meio termo. Estamos à procura de pequenas empresas de tecnologia porque o cientista brasileiro tem muito talento, mas muito pouco dinheiro".
O empresário acredita que "estamos no começo de uma nova era" e que nos próximos 50 anos as empresas de tecnologia no Brasil tendem a ter um desenvolvimento extraordinário. Quando decidiram se tornar 'angels', os empresários começaram a pesquisar empresas dentro das universidades. "Analisamos cerca de 55 pequenos negócios e decidimos que a AdTS é a primeira deste grande ciclo de investimentos".
Segundo ele, o desenvolvimento de equipamentos de medição utilizados no monitoramento de potência, como luz, água e gás, é exatamente o que o consumidor precisa. "Todo mundo quer ter tecnologias que reduzam custos. E a AdTS Soluções tem tudo para se tornar forte no mercado".
A Infinity e a AdTS terão administrações conjuntas. Com dois sócios, a Adts está há quatro anos no Cietec e desenvolveu neste tempo, além dos equipamentos de medição, tecnologia ligada à telemetria via celular. Entre seus clientes, está a Vivo, a Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp), Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa), Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP), Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia (Coelba) e Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL).@@@De acordo com o engenheiro eletrônico Renato Cunha, o investimento de R$ 1 milhão trará novas instalações para a empresa, além de investimentos no operacional por um prazo de 18 meses. "Estamos atualmente em quatro pessoas trabalhando e em breve seremos oito". Em 2005, a AdTs faturou R$ 180 mil e este ano a empresa irá fechar o faturamento em R$ 1 milhão.
"Sozinhos, sem ter para quem perguntar as dúvidas mais básicas de um negócio, nós nem abriríamos a empresa. O networking e o apoio dos consultores foram fundamentais para o nosso crescimento em gestão. No início, tínhamos dúvidas fiscais, busca de financiamentos, pagamentos de títulos. Poderíamos ficar meses sem consultar, mas, quando precisávamos de uma resposta, ela vinha objetivamente". Além disso, segundo Cunha, o fato de estar dentro da USP e de uma incubadora tecnológica aumentou a credibilidade do negócio. "Ninguém nunca questionou a qualidade dos nossos produtos. Sempre trabalhamos com empresas grandes".
A meta de Renato Cunha com a nova parceria com a Infinity é dobrar o faturamento nos próximos 18 meses. "Estamos animados, mas preocupados de deixar a incubadora e entrar no mercado aberto, mas temos certeza de que estamos indo para uma situação melhor".
O 'Angel' Luiz Guilherme Casmasmie também tem seus receios. "Estamos tirando um negócio de uma universidade, mas temos a certeza de que nosso investimento será muito bem recompensado".
Cietec
Um dos mais importantes centros incubadores do País, o Cietec foi criado em abril de 1998 por um convênio entre a Secretaria da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, o Sebrae em São Paulo, Universidade de São Paulo (USP), Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).
As incubadoras são uma forma de incentivo ao desenvolvimento de tecnologia, muito popular no exterior e que está se fortalecendo a cada dia no Brasil. Seu objetivo é incubar empreendimentos de base tecnológica para ampliar o índice de sobrevivência e a competitividade dessas empresas, objetivando o crescimento da economia brasileira, o aumento da geração de empregos qualificados e de melhores resultados na balança comercial brasileira.
Desde agosto, o Cietec abriga 11 novas empesas. Ao todo, são 112 empresas que recebem orientação e consultoria para desenvolver e aprimorar produtos e serviços tecnológicos e a se posicionar no mercado de modo competitivo, garantindo a sobrevivência e o sucesso do negócio. Por lá passaram 45 empresas que já transformaram suas idéias em negócios. Desde que o Centro Incubador foi criado foram registradas 14 patentes e surgiram 18 novas marcas. (Beth Matias/Agência Sebrae)