Quem se candidata a uma vaga de emprego no Grupo Eco precisa ter mais do que conhecimento e experiência na função. A seleção inclui uma sabatina sobre a consciência ambiental e social do pretendente, valores que os diretores consideram importantes para uma empresa especializada em negócios sustentáveis. “Não vendemos apenas produtos, vendemos conceitos. Por isso, não dá para ser hipócrita num trabalho desses”, explica o fundador e presidente Davis de Luna Tenório, um alagoano de Maceió que soube identificar para que rumos sopravam os ventos da responsabilidade socioambiental. Usando como vela o valor agregado de seus produtos e serviços, Tenório conseguiu impulsionar sua jangada: uma lojinha na qual investiu R$ 10 mil em mercadorias e que hoje se transformou em um grupo com faturamento anual de R$ 4,6 milhões.
O pequeno negócio na Vila Madalena, em São Paulo, reunia produtos que vinham de comunidades da região Amazônica, como bombons de cupuaçu e arranjos com flores tropicais. Segundo Tenório, foi o primeiro fair trade do Brasil, aberto em 1999. O conteúdo das prateleiras tinha, necessariamente, que ser fabricado com recursos renováveis ou extraído de modo que preservasse a biodiversidade das florestas brasileiras, além de valorizar a cultura popular e gerar renda para quem os produz. “Trabalhávamos com o conceito de ‘cultura, natureza e cidadania’. Havia consumidores, mas era algo inovador demais para o mercado de varejo, pois muitos não assimilavam a idéia. Já as empresas observavam melhor o valor dos produtos”, relata. Essa conclusão o fez mudar de ramo e trabalhar com o conceito de ecoeventos e brindes corporativos a partir de 2003.
Hoje o Grupo Eco cria, desenvolve e comercializa produtos e serviços que promovam a prática da sustentabilidade. São pranchetas feitas com papel reciclado, embalagens com madeira reaproveitada certificada pelo Conselho Brasileiro de Manejo Florestal (FSC Brasil), camisetas com algodão tingido naturalmente, em um total de mais de 100 produtos. A empresa também produz itens customizados de acordo com as ações de comunicação, marketing e promoção dos clientes. De olho nos eventos corporativos, também criou um “bufê sustentável”, certificado pelo IBD (Instituto BioDinâmico), só com alimentos orgânicos e utensílios produzidos por empreendimentos comunitários.
A equipe de designers do Grupo Eco busca constantemente novas matérias-primas sustentáveis que possam substituir as convencionais. É uma necessidade de inovar e, ao mesmo tempo, seguir a proposta da empresa de trabalhar com produtos e serviços que harmonizem a atividade humana com o uso racional de recursos naturais e a preservação da biodiversidade. Como resultado, a empresa lança itens originais não só pela procedência, como também pela utilidade. É o caso dos envelopes fabricados com papel-semente, feitos com fibras de bananeira e sementes que brotam quando cultivadas corretamente.
Encontrar projetos que produzissem com qualidade e de acordo com a missão da empresa exigiu que Davis Tenório conhecesse melhor a Amazônia. Hoje, projetos de 20 comunidades das regiões Norte, Nordeste e interior de São Paulo produzem artesanatos para o Grupo Eco, que por sua vez vende para empresas como Banco Real e Gerdau. A relação entre o grupo e as comunidades é de cumplicidade, baseado na crença de que o desenvolvimento de uma parte colabora para a melhoria da outra.
Planejamento
Há sete anos, antes de virar parceiros do Grupo Eco, o planejamento financeiro era uma prática desconhecida entre os membros do grupo de artesãos da cidade de Itariri (SP), que produzem o papel-semente. “Vendíamos artesanato nas feiras. Quando as vendas diminuíam, um tinha que ajudar o outro. Eu mesma usava o que ganhava como professora para manter nossa oficina”, conta Genilda Bezerra de Morais, integrante da associação. Ao iniciar a parceria, os diretores da empresa capacitaram os artesãos sobre como melhorar as finanças do projeto. “Não tínhamos noção nenhuma de negócio. Eles que nos ensinaram que precisamos formar estoque, cumprir data de entrega e guardar dinheiro, em vez de gastar tudo de uma vez”, relembra. O trabalho deles sustenta diretamente 15 famílias, número que sobe em época de fim de ano, e beneficia também os produtores de banana da região, que antes doavam e hoje recebem pela matéria-prima fornecida. Para garantir a sustentabilidade financeira dos parceiros, o Grupo Eco adquire o material ao longo do ano, apesar de os pedidos dos grandes clientes se concentrarem no último trimestre.
Respeitar todas as partes envolvidas no negócio, os chamados stakeholders, é um compromisso que o empreendedor diz levar para dentro da empresa. Para começar, os produtos comercializados substituem o material de escritório convencional: canecas de cerâmica produzidas no Piauí, decoradas com desenhos rupestres, substituem os copos de plástico; nas impressoras, só papel reciclado; e toda a mobília é feita de madeira certificada, inclusive a estante em que estão expostos os 10 prêmios que o Grupo Eco recebeu por suas ações de sustentabilidade. “O ambiente de trabalho é diferente do convencional. Não temos portas nem divisórias aqui na empresa, para facilitar o relacionamento. E todos participam da gestão. Quando vamos fazer nosso planejamento estratégico, convidamos até o pessoal da limpeza, porque eles também são considerados como vendedores”, descreve Tenório.
Preocupação com os aspectos ambientais e sociais integra a missão da empresa, mas é o terceiro pilar – o econômico – que garante a sustentação do negócio. Afinal, como lembra Tenório, “não somos uma ONG”. Nesse assunto, o Grupo também tem o que mostrar: o faturamento cresceu 150% no ano passado, segundo informa o presidente, e mesmo com a crise econômica, a previsão é fechar 2008 com um aumento de 35% na receita.
Este ano também marcou um desejo antigo do fundador: vender produtos da Amazônia para o exterior, um mercado que Davis Tenório identificou quando trabalhava como trader em uma consultoria de comércio internacional. “Nas minhas andanças por outros países, as pessoas perguntavam muito sobre a Amazônia”, conta. O alagoano até tentou a sorte com um site que vendia produtos da maior floresta do mundo para consumidores estrangeiros, mas acabou se voltando para o mercado nacional ao perceber que não existia comércio semelhante no País. A idéia ganhou força durante a feira Amazônia Brasil, realizada em Nova York no primeiro semestre, quando o grupo abriu a loja Sustainable Amazon. Lá, onde os ventos da sustentabilidade já adquiriram velocidade de tornado, a empresa comercializa produtos no varejo. Por aqui, ainda prefere esperar que mais pessoas compartilhem os valores do empreendimento.
Davis de Luna Tenório
Data de nascimento: 20/03/1966
Local de nascimento: Maceió
Formação: MBA em Comércio Exterior, Marketing e Psicologia Aplicada a Negócios
Empresa: Grupo Eco
Ano de fundação: 2001
Área de atuação: Criação, desenvolvimento e comercialização de produtos sustentáveis
Faturamento em 2007: R$ 4,6 milhões
Cidade-sede: São Paulo
Número de funcionários: 31
Contato: (11) 3546-6767