O operário Celso da Paz, 22 anos, comprou um aparelho celular parcelado, mas perdeu o emprego, não pôde mais pagar, e acabou com o nome sujo na praça. Com os juros, a dívida já passava de R$ 800 quando colegas disseram que ele podia pedir ajuda na empresa onde tinha começado a trabalhar. Era verdade. A empresa quitou o débito à vista por R$ 350 com o credor e parcelou para Celso em sete vezes sem juros, descontadas em folha. Para ele, que trabalha como lixador e ganha R$ 750 por mês, o apoio veio em muito boa hora.
Celso é um dos cerca de 200 funcionários que já receberam auxílio da indústria metalúrgica Alboss ao longo de dez anos do programa chamado Recursos ao Funcionário. A iniciativa é da diretora Martha Christina Bosso, que fundou a empresa em sociedade com o marido, Carlos Bosso, em 1996. Martha percebia que os funcionários estavam desmotivados, com baixa produtividade e faltando muito ao trabalho. Ao investigar as causas, ela descobriu que o problema era financeiro: a maioria dos colaboradores tinha dívidas e restrição de crédito. Ela resolveu literalmente comprar o problema e lançou em 1998 o programa, que começou como Nome Limpo.
“A faixa salarial da categoria dos meus colaboradores é de R$ 637. Que poder de negociação ele pode ter diante de uma dívida de R$ 1,5 mil? Nenhuma, ele vai ter que renegociar. E eu percebia que por mais que a empresa adiantasse férias ou 13º, o dinheiro nunca era suficiente”, diz Martha. Ela começou a aconselhar seus funcionários a parar de pensar em acordos de demissão que só protelavam o problema e passou a negociar as dívidas diretamente com os credores, propondo quitação à vista, o que permite retirar juros e reduzir o valor do débito.
O benefício só é aplicável após os três primeiros meses de experiência. Até hoje, o programa já negociou mais de R$ 80 mil em débitos de funcionários. Além do apoio para recuperar o crédito, a empresa oferece auxílio preventivo: quando o funcionário vê que não vai conseguir pagar as contas, procura o programa. Os trabalhadores também podem contar com a Alboss como fiadora na hora de alugar um imóvel, e têm à disposição crédito consignado em bancos, com taxas de juros mais baixas.
Segundo Martha, o programa está em auto-avaliação constante, e ela diz que cometeu alguns erros ao longo do tempo, como dar dinheiro em espécie para o funcionário. Atualmente toda a negociação é feita diretamente por uma funcionária treinada, que verifica se o débito é verdadeiro, quando e por que foi adquirido. “Eu sempre deixo claro que não vou atrás de pessoas com problemas financeiros para trabalharem aqui. Os trabalhadores é que procuram o programa quando precisam. E eu verifico as causas de cada situação, porque se ele está comigo é sinal de que está recebendo em dia. Eu conheço a saúde financeira da minha empresa”, explica.
O programa encabeçado por Martha é alvo de críticas de outros empresários, que dizem que ela corre risco de inadimplência e pode acabar trazendo os problemas para o próprio negócio. Mas Martha garante que tudo é calculado na ponta do lápis. As dívidas variam entre R$ 500 e R$ 1,5 mil e devem ser pagas sempre no ano corrente. Além disso, o programa não funciona nos meses de janeiro e fevereiro, período em que a empresa sofre o impacto da sazonalidade. O projeto foi selecionado como exemplo na 2ª Mostra Sistema Fiesp de Responsabilidade Socioambiental.
Vocação
Quando montou o programa, Martha não planejava que ele tomasse as proporções que tem hoje. Ela começou aos poucos, como fez com a própria empresa, e mostra a seus funcionários a importância de ter crédito, preocupação que trouxe de sua vida pessoal. “Sempre tivemos uma boa administração financeira em nossa família, e isso foi inclusive o que nos motivou a criar a Alboss”, diz ela, que antes de ser empresária tinha sido professora de História.
A empresa começou a funcionar há 13 anos, com quatro funcionários em um espaço de 170 metros quadrados, e hoje tem sede própria na cidade de Guarulhos (SP) com área de 5 mil metros quadrados e 50 colaboradores. Seu sócio cuida da produção e ela do departamento administrativo-financeiro. “A empresa foi crescendo, e como eu e meu sócio temos vínculo familiar, todos os nossos recursos foram direcionados para a empresa, para comprar máquinas e construir a sede”, conta.
Dar apoio financeiro aos funcionários, segundo ela, só lhe trouxe benefícios. A empresa multiplicou de tamanho, melhorou a produtividade e não tem problemas trabalhistas. “Os colaboradores estão satisfeitos, não fazem cara feia para o holerite, temos um ambiente salutar, com trabalhadores fiéis. É um investimento humano, porque o empresário precisa ter em mente que tecnologia se compra, gente honesta, não”, destaca.
Segundo Martha, uma empresa não tem função de gerar apenas empregos, mas meios para melhorar a vida das pessoas que estão ligadas a ela, o que inclui colaboradores, fornecedores e clientes. “Eu acredito em responsabilidade social e não confundo com caridade nem com empresa boazinha. Temos é que gerar ferramentas para ajudar as pessoas a caminharem sozinhas. E isso só é possível em uma empresa lucrativa. A minha, se não fosse, não faria o que faz.”
Martha Christina Bosso
Local de nascimento: Santos (SP)
Idade: 42 anos
Formação: Licenciatura em História
Empresa: Alboss
Ano de fundação: 1996
Área de atuação: Fundição
Cidade-sede: Guarulhos (SP)
Número de funcionários: 50
Projeto: Programa de Recursos ao Funcionário
Contato: (11) 2439-9080