Serginho Rezende sempre ouviu do pai que música não dava futuro. Com 18 anos, saiu de sua cidade natal, Amargosa, no interior da Bahia, para estudar engenharia civil na Universidade Federal da Bahia, em Salvador. Durante a faculdade, tocou bateria com vários artistas baianos como Margareth Menezes e Gerônimo. Em 1994, no mesmo ano em que concluiu o curso, recebeu o Troféu Caymmi como melhor instrumentista da Bahia. Era o que faltava para Serginho começar a apostar na música como profissão. Decidido a tentar carreira, se mudou para São Paulo com uma banda de pop reggae, a Nadegueto, contratada pela gravadora Continental/Warner. Entre um show e outro, dava expediente numa produtora de áudio de um amigo. O negócio o fascinou. Em 2004, abriu com uma amiga a Comando S. Áudio, que hoje atende grandes agências de publicidade e clientes como Vivo e Chevrolet.
Aos 37 anos, Serginho vive de música. E ainda emprega outras 15 pessoas. Por enquanto. A meta do músico e empresário é ser a melhor produtora de áudio do País e, quiçá, do mundo. Culpa do pai, João Ângelo, o mesmo que achava que música não dava futuro. Serginho cresceu vendo o patriarca da família subir com sua “guitarra baiana” no trio elétrico de Amargosa. Ele próprio começou sua história musical aos oito anos de idade tocando bateria no mesmo trio elétrico. Na época, o pai era prefeito da cidade. Na casa dos Rezende, todos os irmãos tocavam pelo menos um instrumento. “Para meu pai, música era hobby. Quando me formei em engenharia, eu o chamei e disse: agora vou dedicar 90% da minha vida à música e 10% à engenharia e ver no que dá”, conta Serginho. Lá se vão 15 anos e ele continua devendo os 10% para a engenharia. “Pode-se dizer que eu uso para minhas reformas na produtora”, brinca.
Com apenas quatro anos de existência, a Comando S. Áudio já fez história. É de Serginho Rezende o jingle “Não tem cara de tiozão”, feito em 2007 para a campanha do modelo Sentra, produzido pela montadora Nissan, com criação da agência TBWA/BR. A música, que faz referência à preferência de homens mais velhos por carros sedãs, ultrapassou as fronteiras da propaganda e virou hit em rádios, além de ser um dos vídeos mais acessados, na época, no YouTube. “Quando bolamos a música, já sabíamos que seria uma campanha do barulho, mas para mim foi uma surpresa a dimensão que tomou o ‘tiozão’”, afirma Serginho. Ao mesmo tempo, ele sabia do potencial do jingle. No dia em que apresentou o trabalho para a agência de publicidade foi logo avisando que gravaria a música se o trabalho não fosse aprovado. “O refrão era muito forte.”
A agência e o cliente gostaram do trabalho, Serginho não gravou o disco. E como a produção de áudio para a publicidade é um trabalho anônimo, para as pessoas que viram a campanha, a música é dos The Uncles, a banda fictícia do comercial. Mais do que os jingles, as trilhas feitas para a propaganda acabam em segundo plano, totalmente despercebidas do público em geral. Tudo bem. Para o produtor, o anonimato tem muitas vantagens. Ele reconhece que a fama é sedutora, mas também acredita que aprisiona o artista. “É bacana ter o trabalho reconhecido, mas é bom ser você mesmo o tempo todo, poder ir a shopping e supermercado sem problemas”, afirma. Serginho viu de perto o mundo da fama quando tocou com grandes artistas baianos e na própria banda, participando de shows e apresentações em programas de TV como Raul Gil e Serginho Groisman.
Mas não se surpreenda se, em 2009, Serginho Rezende aparecer cantando no Caldeirão do Huck. O novo desafio do produtor é o selo Comando S. Discos. O primeiro disco da ‘gravadora’ será dele próprio e deve ser lançado logo no início deste ano. “Eu quero um selo diferente, vinculado à Comando S., com trabalhos feitos por pessoas que têm participação na produtora.” Se depender de sua equipe, não vão faltar trabalhos. Serginho procura incentivar os funcionários a tocarem seus projetos paralelos ao trabalho na Comando. Como músico, mas principalmente como empresário, ele sabe que esse estímulo é importante para a motivação de todos. “Eu quero que o selo seja o megafone desses trabalhos, uma maneira de viabilizá-los.” Para quem começou a tocar sem intenção nenhuma de ser empresário da música, as perspectivas são ótimas. É esperar para ver.
O mercado fonográfico não é novidade para Serginho. Ele já produziu o disco de Sebastian, garoto-propaganda da C&A, além dos álbuns dos músicos Marcelo Quintanilha e Vania Abreu. Movido a desafios, o músico e empresário está sempre buscando coisas novas para fazer. Foi assim que surgiu a Comando S.. Com um trabalho consolidado na Voicez, a produtora do amigo Luciano Kurban, não faltavam motivos para se acomodar. Na empresa, onde ficou por sete anos, trabalhou com grandes diretores e produziu trilhas para campanhas mundiais de marcas como Pepsi e Coca-Cola. Ele reconhece que não foi fácil deixar tudo isso para trás. “Foi a mudança mais drástica que fiz na minha vida. Levei um tempo até me achar, mas a experiência anterior me deu penetração no mercado, foi um grande facilitador para abrir meu negócio”, conta o empresário.
A viabilização da Comando S. se deu aos poucos. Primeiro, Serginho montou um estúdio em sua residência, uma casa grande localizada na Vila Romana, na capital paulista. O problema é que ele chegava cansado do trabalho e nunca conseguia tempo para fazer projetos paralelos. Em parceria com a colega Cris Gonçalves, criou coragem e abriu a produtora na própria casa. Era uma forma de reduzir custos, fugindo do aluguel, mas também de facilitar o próprio dia-a-dia. Quem faz produção de áudio para publicidade sabe que não tem hora certa para trabalhar. Às vezes, o cliente liga à noite pedindo para ajustar uma trilha que vai ao ar na manhã do dia seguinte. “Eles me ligavam às 10 da noite dizendo: desculpe, eu preciso que você volte no estúdio para ajustar o tempo de locução. E eu dizia, tudo bem. Eles pensavam, nossa, como ele é bacana, mas eu estava a apenas dez passos da produtora.”
O fato é que a Comando S. cresceu tanto que a produtora tomou quase todo o espaço da casa de Serginho. Casado há um ano e com planos de aumentar a família, ele decidiu se mudar. Neste mês de janeiro, vai morar num apartamento localizado a duas quadras do estúdio. “Eu adoro a produtora, mas realmente estamos sendo espremidos. Além disso, morando no mesmo lugar onde trabalho, acabo participando de todos os turnos”, afirma. Se bem que o clima de descontração é tão grande na sede da produtora que o tempo passa sem muito estresse. Aliás, como bom baiano, Serginho não costuma se estressar. Na casa, ele recebe quase todos os dias alguém para almoçar. No cardápio, cozinha baiana feita por uma autêntica baiana, contratada pelo empresário. “Procuro trazer o clima da Bahia para cá.”
Empresário zen
Nem mesmo os serviços burocráticos comuns a qualquer empresa tiram Serginho da sua tranquilidade. Quem pensa que a alma de um músico é incompatível com temas como fluxo de caixa e folha de pagamento está enganado. “De uns tempos para cá eu descobri que sou um empresário. E eu sou daquelas pessoas que quando faz quer fazer bem-feito. Então comecei a me dedicar a ler livros sobre administração de empresas, gestão de negócios, gestão de pessoas, contabilidade”, conta. Há três meses, Serginho também começou a participar de um grupo de coaching – em síntese, um treinamento para executivos. Nesse tempo, já concluiu que as dúvidas e os problemas são muito parecidos, seja lá qual for o tamanho da empresa. “É muito interessante, troco idéias com executivos de empresas com mais de 5 mil funcionários e percebo que eles também gostam muito da minha participação porque eu vendo criação, é um trabalho diferente.”
Para Serginho, a fascinação crescente por assuntos administrativos tem influência da engenharia. Um colega dos tempos da faculdade sempre lhe diz que na engenharia se aprende a resolver problemas, e essa é uma das atribuições de um empreendedor. “Posso dizer que não me incomodo com as funções de administrador, pelo contrário, até gosto. Hoje, meu maior dilema é dividir meu tempo entre a administração e a criação. Eu chego de manhã para trabalhar e não sei se vou para o escritório ou para o estúdio, não sei se pego o violão ou se pego a caneta. Sou assim, ao mesmo tempo em que gosto de tocar um piano, aprecio ler um livro de administração.” Com tamanha dedicação, o resultado não poderia ser outro. Mesmo sendo relativamente nova, a Comando S. já conquistou a credibilidade no mercado publicitário e tem entre seus clientes grandes agências como Africa, Ogilvy e Talent.
Na avaliação do empresário, o sucesso da produtora é resultado de um processo de criação que ele não abre mão: as trilhas são produzidas a partir de instrumentos musicais e não apenas de softwares, preservando o que o produtor chama de “modelo artístico”. Para seguir essa missão, ele investiu em profissionais que fossem especialistas em música, mesclando o talento de instrumentistas com o conhecimento de engenheiros de som formados em países como Inglaterra e Holanda. A miscigenação de culturas e sons é outra busca constante na equipe, uma forma de trazer coisas novas para a produtora e oferecer produtos variados. “Somos mais do que uma produtora de áudio, somos uma fábrica de criação”, avalia Serginho.
O pai, João Ângelo, não poderia estar mais orgulhoso e satisfeito. Há tempos que esqueceu de cobrar do filho a dedicação aos 10% da engenharia civil. Serginho também não esconde a satisfação com o rumo que deu para sua vida há 12 anos. O pai sempre foi uma personalidade forte em Amargosa, tanto que soma mais de 1,5 mil afilhados na cidade. “Eu pensei que fosse ser sempre ‘o filho do João Ângelo’. Mas hoje já tem gente querendo conhecer o pai do Serginho. Mudar a chave foi um desafio muito grande.”
Serginho Rezende
Idade: 37 anos
Local de nascimento: Amargosa (BA)
Formação: Graduado em engenharia civil pela Universidade Federal da Bahia
Empresa: Comando S. Áudio
Ano de fundação: 2004
Cidade-sede: São Paulo
Número de funcionários: 15
www.comandosaudio.com.br
Contato: (11) 3877-1095
Linha do tempo
1971 - Nascimento, em Amargosa (BA)
1989 - Mudança para Salvador
1994 - Conclusão do curso de engenharia civil
1994 - Mudança para São Paulo com a banda Nadegueto
1997 - Início do trabalho como produtor de áudio para publicidade
2004 - Fundação da Comando S. Áudio
2009 - Lançamento do selo Comando S. Discos