Sempre que pode, Raul Anselmo Randon vai para a estância, em Vacaria, na Serra Gaúcha, onde recebe os amigos com queijos e vinhos especiais que ele mesmo produz. Depois de 64 anos de trabalho, boa parte deles dedicados à construção da holding Randon S.A. – Implementos e Participações, que atingiu faturamento de R$ 3,6 bilhões em 2007 –, ele se dá o direito de fazer o que gosta. Quando perguntam sobre seu negócio, ele brinca e diz que não é fabricante de carreta, nada, é produtor de queijo. O grupo Randon é formado por dez empresas, e seu principal negócio é a fabricação de veículos de carga e autopeças, mas também atua nos setores de serviços e de implementos rodoviários e ferroviários.
De todos os empreendimentos, o preferido de Raul Randon é o queijo Gran Formaggio. Em 1997, aconselhado por um amigo italiano, ele investiu US$ 4 milhões para construir a primeira fábrica de queijo tipo grana do Brasil e também a primeira fora da Itália. Com o queijo, veio o vinho. Ele começou plantando três hectares porque soube que o clima na estância dava uvas especiais. Em 2002, convidou Darcy Miolo, dono de uma das principais vinícolas do Brasil, para conhecer sua plantação e pediu que lhe fizesse um vinho. Amigo de muitos anos, Miolo aceitou a empreitada, e, hoje, um planta, o outro engarrafa.
Mas, antes de empreender por esporte, ele construiu, junto com o irmão mais velho, Hercílio – falecido em 1989 –, a maior fabricante de carrocerias de caminhão e de implementos agrícolas do País. Raul começou a trabalhar como ferreiro, aos 14 anos de idade, com o pai, fabricando machados, enxadas e outras ferramentas agrícolas em uma oficina alugada, em Caxias do Sul (RS). Seu irmão aprendeu a reformar motores a explosão trabalhando durante um ano em uma oficina como aprendiz, sem remuneração. Mais tarde, em 1947, Hercílio comprou seu próprio torno mecânico, e a reforma de motores passou a ser o negócio da família.
Em 1950, um colega sugeriu que eles fabricassem impressoras linotipo para imprimir talões e folhetos. O mercado era garantido, porque as impressoras disponíveis na época eram alemãs, e a importação estava difícil por causa dos reflexos da Segunda Guerra Mundial (1939–1945). Raul diz que o irmão sempre foi muito engenhoso: desmontou uma máquina para entender como funcionava e desenhou seu próprio modelo. Assim, Hercílio Randon, Raul Randon e Ítalo Rossi constituíram a firma Randon Rossi & Cia. Ltda. e fabricaram 12 impressoras tipográficas.
No dia 26 de maio de 1951, a família participava da procissão de Nossa Senhora do Caravaggio quando ouviu o padre anunciar, no alto-falante da praça, que sua oficina estava pegando fogo. “Queimou tudo, ficamos sem nada. Tivemos que recomeçar do zero, mas pelo menos também não tínhamos dívidas, então fomos construindo e continuamos”, conta Raul. Ítalo Rossi saiu da sociedade, e os irmãos Randon passaram a trabalhar em um espaço cedido pela oficina que dava manutenção à fábrica de impressoras.
Aos poucos, eles foram construindo um pavilhão e, um ano depois, voltaram a trabalhar no próprio espaço. Raul teve a sorte de contar com bons amigos ao longo da vida, e, em 1953, foi a vez do italiano Primo Fontebasso dar a idéia que definiria seu futuro. Para transportar madeira de Caxias do Sul até Porto Alegre, os caminhões precisavam enfrentar 130 quilômetros de serra todos os dias, e os freios não resistiam muito tempo.
ontebasso sugeriu que eles fizessem freios reforçados para reboques. “Foi então que entramos no ramo do transporte, de equipamentos para caminhões. Meu irmão era um sujeito muito inteligente, sabia melhorar as coisas, aí fizemos os reforços nos freios, e deu certo, tivemos bastante serviço.” Um ano depois, Fontebasso ficou doente e deixou o negócio, fato que marcou o início oficial da fábrica Randon como empresa familiar, status que mantém até hoje.
“Do freio, fizemos terceiro eixo para caminhão, depois o semi-reboque e fomos indo, inventando sempre, e aqui estamos.” Quando conta, Raul Randon faz tudo parecer simples, e para ele, de certa forma, foi. Apesar de ter completado apenas o Ensino Primário, o talento que o irmão tinha para engenharia ele tinha para o comércio, e aprendeu rápido – e por conta própria – a administrar seu negócio. Com visão clara sobre a empresa e colaboradores escolhidos com cuidado, o crescimento estava garantido.
Em 1970, foi à Europa pela primeira vez, a convite de um amigo italiano, para participar de feiras de fabricantes de caminhões e semi-reboques em Milão, na Itália, e Hannover, na Alemanha. Raul, que já fabricava semi-reboques no Brasil, se espantou com o porte dos fabricantes internacionais e chegou à conclusão de que precisava de uma fábrica maior. Na época, a Randon fabricava 700 unidades por ano. “Quando voltei, falei pro meu irmão: “Hercílio, vamos fazer uma fábrica para produzir mil unidades por mês” – para se ter uma idéia, hoje a Randon fabrica cem carretas por dia. Contrataram engenheiros para fazer o projeto, compraram terras e começaram a construir. Em 1971, a empresa mudou a razão social para Randon S.A. Indústria de Implementos para o Transporte, e abriu o capital social para captar recursos e investir na expansão.
A nova fábrica foi inaugurada em 1974, e, com o crescimento, veio a profissionalização. Raul diz que, em sua empresa, os profissionais pensam como donos, e vice-versa. “O capital era meu e do meu irmão, mas o sistema de administrar sempre foi profissional, com diretores e técnicos que estão comigo até hoje. Nunca foi ‘eu mando e faço o que quero’, as coisas sempre foram decididas em conjunto”, diz.
A união do grupo foi especialmente importante na década de 1980, quando a Randon S.A. passou pela pior crise de sua história. Devido à conjuntura política e econômica do País, em 1982 os pedidos caíram 40%, e a empresa foi obrigada a abrir concordata. A companhia reduziu o quadro de 6 mil colaboradores para 2 mil e vendeu todas as filiais para os próprios funcionários. “Eu disse para os meus diretores: chegamos ao ponto de fazer uma concordata juntos, e agora nós todos vamos levantar essa empresa”, conta. Em 1984, um mês antes do prazo, a Randon S.A. levantou a concordata e começou o processo de recuperação.
Dos acionistas, Raul Randon exige que trabalhem para que a empresa dê resultados e, dos colaboradores, engajamento. “A gente vê que o pessoal trabalha com amor, como se a empresa fosse deles.” Para garantir essa postura, a empresa investe em benefícios e mecanismos de incentivo, como o programa de formação dos diretores que vão atuar dentro do grupo. Segundo Raul, os diretores mudam de cargo cada seis meses. “Não temos diretores fixos, que só sabem fazer aquilo. Temos dez empresas e podemos trocar o cargo de qualquer um deles, que todos sabem trabalhar.”
Em 2004, foi inaugurado também o Programa Qualificar, com uma escola para formação profissional dentro do complexo industrial, e o Programa Novos Caminhos, para preparar colaboradores que estejam prestes a se aposentar. Além dos programas internos, a empresa investe desde 2002 no Programa Florescer, voltado a estudantes de escolas públicas, filhos de funcionários das empresas do grupo e jovens da comunidade entre 7 e 14 anos de idade, com atividades pedagógicas, culturais e esportivas no turno inverso ao das aulas. Atualmente, são 400 alunos beneficiados. O programa é mantido com a ajuda dos próprios funcionários, que contribuem com R$ 2 a R$ 10 por mês.
Agronegócio
Em 1979, o governo brasileiro começou a oferecer incentivo fiscal para reflorestamento, e Raul Randon decidiu investir na agricultura. Passou, então, a fazer parte do grupo a empresa Rasip, para produzir maçãs em uma época em que mais de 90% do consumo no Brasil era atendido pela importação. Mais tarde, o governo retirou o incentivo, mas Raul resolveu manter a atividade, e hoje são cultivados 800 hectares de macieiras, cuja produção é exportada para todo o mundo, principalmente para a Europa e Ásia. A empresa expandiu as áreas de atuação e hoje produz também grãos, suínos, queijos e vinhos.
O gosto pela terra veio dos avós, imigrantes italianos que chegaram ao Brasil em 1888 para trabalhar como agricultores no interior de Caxias do Sul. Randon conta que, quando ele e seu irmão eram pequenos, de manhã cedo, antes de ir para a escola, tinham que capinar na roça que sua mãe arrendava. “São coisas que estão nas raízes da família. E é bom. Tem que olhar pro céu todo dia, pra ver se chove”, brinca. Ao todo, Raul possui 4,5 mil hectares de plantações, que também incluem cultivo de soja, trigo e milho.
Um dia, Raul levou um de seus amigos italianos para visitar suas macieiras, e ele de repente sugeriu: “Raul, por que tu não fazes queijo?”. E ele respondeu: “Não vou fazer queijo”. Depois de uma tarde de discussão, o amigo prometeu fazê-lo mudar de opinião e levou-o à Itália, para conhecer uma fábrica de queijo tipo grana. Estava feito. Assim começou seu negócio predileto. “Fui conhecendo e achei que era um bom negócio. O italiano me dá assistência até hoje, e, no mercado brasileiro, nosso queijo está em primeiro lugar. A gente tem que fazer coisa boa”, diz.
A produção do queijo libera um soro poluente, e Raul foi obrigado a eliminá-lo para não causar danos ambientais. Pois ele resolveu o problema com um novo empreendimento: a suinocultura. “Os suínos comem o soro e acabam com a poluição. Uma coisa puxa a outra.” Hoje, a Rasip engorda mil suínos por mês e vende-os para a Perdigão S.A. Quando perguntam como ele consegue fazer funcionar tantos negócios ao mesmo tempo, Raul diz que o importante é se manter atento para as oportunidades e escolher as pessoas certas com quem trabalhar.
Para ele, o segredo do sucesso é a confiança conquistada com seus colaboradores e clientes. Conta que, nos tempos da oficina, os clientes mandavam os caminhões para consertar junto com um cheque em branco, assinado. Os irmãos Randon faziam o serviço, preenchiam o cheque e mandavam de volta a nota fiscal. “Isso é confiança. Acho que na vida da gente não tem melhor resultado.” Por trás da competência administrativa, a trajetória de Raul Randon revela que seu talento na vida, mesmo, foi cultivar amigos.
Por ser uma empresa de capital aberto, a holding, que passou a se chamar Randon Participações S.A. em 1992, é montada sobre um sistema que se autogestiona e dá a Raul liberdade para suas novas empreitadas. Ele diz que, além do trabalho, tem tempo para a natação, para a novela, para o jogo de cartas com os amigos e para os finais de semana em Vacaria. “Vou à empresa para atender quem quer falar comigo, mas, se eu quiser sair agora, posso ir embora, que tudo funciona bem do mesmo jeito.” Pode, inclusive, se dar ao luxo de dizer que é produtor de queijo.
