O sonho de criança fez Juarez Cotrim voltar a Panorama (SP), mas foi sua persistência que trouxe retorno financeiro e a oportunidade de contribuir com o meio ambiente. Depois de participar de cursos de gestão e de produção, e integrar o projeto “APL – Desenvolvimento do Setor Oleiro Ceramista do Oeste Paulista”, Cotrim passou a utilizar biomassa em vez de madeira nativa durante a produção de tijolos, fazendo a Cerâmica Luara pioneira no Estado de São Paulo no mercado de créditos de carbono. “Muita gente me chamou de louco e disse que eu devia pensar em outro jeito de ganhar dinheiro. Mas esse foi o melhor negócio que fiz na minha vida, tanto financeiro como social”, avalia o empresário.
Desde menino, Cotrim trabalhava com o avô e o pai no setor oleiro-ceramista. “Eu fazia tijolo maciço, nas moendas tocadas a burro. Muitas delas desapareceram com a Usina Sérgio Motta, na cidade de Rosana (SP), e outras fecharam na época do Plano Real”, conta. A família mudou-se para São Paulo em 1982, e ele arrumou emprego na área de computação. Seis anos depois estava de volta e, em 1993, arrendou uma cerâmica. “Vim com o sonho meu de criança, de nadar no rio, ter e criar meus filhos aqui. Voltei justamente porque tinha essa preocupação”, afirma.
Antes de fazer parte do Arranjo Produtivo Local (APL), coordenado pelo Sebrae de Presidente Prudente, costumava comprar madeira da região em uma avenida da cidade para utilizar como combustível. “Chegava lá, passava a trena, media e comprava. Eram várias espécies nativas das bacias hidrográficas daqui. Dava dó”, conta. Com o mercado aquecido e a oferta abundante de madeira, Cotrim não precisava se preocupar com o transporte da mercadoria, feito pelos fornecedores. “Coloquei na cabeça que eu tinha que dar um jeito nisso. E veio o Sebrae com a idéia, com o pessoal, com a assessoria, com tudo.”
O estímulo para mudar o modelo de negócio começou há cerca de três anos, com a formação do APL. Em 2005, o Sebrae fez um diagnóstico para identificar as deficiências das empresas cerâmicas do oeste paulista – na época, eram 96, que respondiam por 16% do setor no estado. Constatou que 45% delas tinham uma sobrevida de quatro anos, em função da disponibilidade de matéria-prima. “Com a construção da usina, houve um alagamento da área de onde era extraída a argila. O estoque, indenizado pela Cespe, venceria em 2009”, conta Selma Luz, gestora do APL. Outro problema percebido foi a falta de cooperação entre os empresários.
Para superar essas dificuldades, o Sebrae apostou na integração. Buscou a participação de 72 cerâmicas da região e instituições parceiras para construir o projeto do APL, com foco na qualidade de produto, gestão da empresa e inovação tecnológica. “Apesar de soluções simples, conseguimos ótimos resultados. Na redução de consumo de energia, na gestão ambiental e na questão de sustentabilidade, que foram os projetos de crédito de carbono”, diz Selma. Além de oferecer cursos aos integrantes do APL, a intervenção do Sebrae ajudou a organizar os produtores. Juntos eles criaram a Central de Massas para minerar e retirar argila, resolvendo o problema da escassez de matéria-prima.
Do grupo inicial, 10 empresas começaram o processo para comercialização dos créditos de carbono, mas até agora a Luara é a única com vendas realizadas. As outras já estão com a documentação em dia e esperam apenas pela certificação. Engana-se, porém, quem pensa que o caminho foi fácil. “É um processo burocrático, deve estar bem documentado. Além disso, não fazia parte do cotidiano dos produtores. Alguns perguntavam quem iria querer comprar ar”, afirma Flávia Yumi Takeuche, coordenadora técnica da CantorCO2e Brasil, que assessorou a venda dos créditos.
Na primeira reunião Cotrim não pôde estar presente e telefonou a um amigo para saber do assunto. “Ele me desanimou e disse que era um negócio que não ia dar certo.” Mas Cotrim insistiu para que sua empresa fosse visitada e começou a providenciar os documentos necessários para atender aos requisitos, seguindo a metodologia do Carbono Social. “É necessário provar que é um projeto adicional, que precisa de incentivo financeiro, e que se pensou nos créditos de carbono na execução”, esclarece Flávia. Depois do estudo de viabilidade, é elaborado o documento de concepção do projeto, com estimativa das reduções de emissões de CO2 e que deverá passar pela validação de uma terceira empresa.
Investimento
Na substituição da madeira nativa pela biomassa, Cotrim investiu cerca de R$ 300 mil de recursos próprios para desmanchar fornos a lenha, comprar queimadores de biomassa e caminhões e teve que buscar novos fornecedores. Para adquirir a serragem, foi a madeireiras em Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, e pediu as notas de importação das mudas de pinus para comprovar que eram de origem reflorestável. Para o transporte, montou uma frota de cinco caminhões, o primeiro deles com troca de tijolos. “Tive que mandar aferir o veículo, com balança do Inmetro, para saber quanto era consumido no forno”, conta Cotrim. A logística deu tão certo que ele passou a fornecer biomassa para empresários de Panorama e aproveitou o frete para eliminar atravessadores, vendendo direto para o consumidor final.
Os resultados de todo esse esforço já começam a aparecer. A primeira comercialização de créditos, em janeiro deste ano, foi de 23,7 mil toneladas para uma empresa norte-americana, e a segunda, de 6,37 mil toneladas para um grupo francês. Com os recursos recebidos, Cotrim investiu ainda mais no projeto: trocou a parte elétrica da cerâmica e o maquinário para diminuir o consumo de energia. Além disso, melhorou as condições de trabalho dos funcionários. Todos têm seguro de vida, convênio médico e participação em lucros. “O interessante na metodologia do Carbono Social é que os créditos contribuem para a posteridade do projeto, podem ser aplicados na própria empresa”, diz Flávia.
Hoje, Cotrim comemora o reconhecimento pela sua dedicação. O caso da Cerâmica Luara está sendo estudado por uma universidade da região oeste paulista e é finalista do Prêmio Superação Empresarial 2008, voltado à competitividade de micro e pequenas empresas. Novos compradores para os créditos também começaram a aparecer. “O representante de um xeque dos Emirados Árabes telefonou há algum tempo perguntando se eu precisava de investimento para futuramente comprar meus créditos. Esse retorno nos enche de orgulho e é muito melhor que o financeiro.” Pelo jeito, Panorama ficou pequena para os sonhos de Cotrim.
Juarez Cotrim
Local de Nascimento: Irapuru (SP)
Idade: 38 anos
Formação: 2º grau completo
Empresa: Cerâmica Luara
Ano de aquisição: 1993
Ramo de atuação: Ceramista
Cidade-sede: Panorama (SP)
Funcionários: 18
Contatos:
CantorCO2e: (11) 5083-3252
Juarez Cotrim: (18) 3871-3177
Sebrae: (18) 3222-6891