Com sol ou chuva, o empresário Ricardo Zema começa sua rotina de trabalho às 5h. Nunca faltou um único dia, e aos 65 anos continua com disposição de sobra para acompanhar diariamente as empresas que formam o Grupo Zema, com operações em distribuição de combustível, lojas de eletrodomésticos, revendas de automóveis e motos, entre outros negócios. Depois de investir em diversos ramos como farmácias, madeireiras, fábricas de produtos químicos e material de construção, hoje é uma prioridade do empresário focar a atuação nos ramos já consolidados na companhia. Entre 1994 e 2007 foram vendidas ou desativadas 49 unidades de negócio, em diversos segmentos. “Às vezes se torna difícil administrar tantos ramos diferentes, por isso estamos escolhendo fechar”, revela.
A sede do grupo fica na cidade de Araxá (MG), localizada na região do Triângulo Mineiro, a 350 quilômetros de Belo Horizonte. O atual presidente vem de uma linhagem de empresários que se iniciou na década de 1920, quando o avô, Domingos Zema, escolheu a cidade para abrir a Casa Sport, oficina mecânica e revenda de autopeças. Os filhos de Ricardo trabalham com ele e já participam nas decisões sobre o futuro do grupo. Hoje, completando 85 anos de atividades, o conglomerado de empresas que faturou R$ 1 bilhão em 2007 poderia ter sido desmantelado não fosse a determinação de Ricardo em continuar os negócios mesmo durante os períodos mais difíceis. ![]()
Classificados pelo faturamento, os nichos principais de atuação do grupo são a distribuição de combustível, seguida dos eletros e concessionárias – hoje revendas Fiat e Honda. Ainda na década de 1960, o primeiro passo de Ricardo para pôr os negócios no prumo foi aproveitar um velho caminhão-tanque e distribuir combustível para os postos da região, numa época em que a empresa familiar esteve à beira da falência. Hoje, a Zema Cia. de Petróleo é fornecedora exclusiva de aproximadamente 150 postos nos estados de Minas Gerais, Goiás, Pará, Mato Grosso e São Paulo.
A Eletrozema começou a partir de uma adaptação, que acabou se tornando mais um tiro certo na carreira do empresário mineiro. Em 1976, Ricardo decidiu comprar a concessionária Chevrolet em Araxá. Na época, a montadora também fabricava no Brasil as geladeiras Frigidaire. “Como o espaço da concessionária não comportava as geladeiras, abri uma loja de eletrodomésticos para vendê-las”, conta. Hoje esta cadeia iniciada por acaso espalha-se pelo interior mineiro e paulista, atualmente com 173 unidades. Há dez anos a empresa assumiu definitivamente seu lugar de importância no faturamento geral do Grupo Zema, desde quando vem registrando crescimento médio de 30% ao ano. Para 2008 a previsão é inaugurar pelo menos 50 novas unidades. A prioridade é fortalecer ainda mais a Eletrozema dentro de Minas, onde a marca já é bem difundida, o que facilita a abertura de novos pontos-de-venda. A aposta é investir em cidades pequenas com o modelo de miniloja, que prioriza a venda de equipamentos portáteis. As concessionárias faturam R$ 50 milhões anuais, com lojas na região de Araxá e também uma unidade da Moto Zema em São Paulo.
Batismo de fogo
Nuvens negras punham-se no horizonte da família Zema no ano de 1964. Desde a morte prematura do filho de Domingos, Romeu Zema, homem à frente dos negócios da família – então uma loja de autopeças, um posto de gasolina e uma revenda de automóveis –, as coisas não iam bem, e a empresa acumulava dívidas cinco vezes maiores que o seu valor patrimonial. Os sócios discutiam a venda, porém, o filho de Romeu não concordava em se livrar daquilo que simbolizava as vidas de seu avô e do pai. Aos 21 anos, poucos meses após se casar, Ricardo Zema assumiu a administração da empresa com a confiança de que com muito trabalho reverteria aquela situação. No final do mesmo ano, comprou o primeiro caminhão-tanque e começou a distribuir combustível para outros comerciantes do mesmo ramo na região, uma vez que o veículo podia carregar mais gasolina do que o Posto Zema demandava na época.
Após iniciar a operação de distribuição de combustível na tentativa de dar a volta por cima na crise que abalava a empresa, em 1969 Ricardo retomou a expansão dos negócios com a compra de um segundo posto de combustível. Os contratos firmados com a Cia. São Paulo de Petróleo e a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) ajudaram na viabilização de novos negócios e as finanças começavam a sinalizar equilíbrio novamente, o que permitiu novos investimentos. “Com isso comprei outro caminhão. Adquiri o segundo posto, e logo depois de seis meses comprei o terceiro, e após mais seis meses o quarto, em Uberaba (MG), em 1970.” Depois da tempestade, a bonança: o grupo entrava no caminho para se tornar a grande corporação que é hoje.
Anos antes de assumir o comando da empresa Domingos Zema & Filhos, que àquela altura já tinha respeitáveis 40 anos de praça, o jovem Ricardo já participava do dia-a-dia daquilo que viria a ser o seu patrimônio. “Minha primeira função na empresa foi de office-boy, aos 14 anos. Trabalhava na revendedora, na época das marcas Studebacker, depois DKW Vemag, que vendia veículos, máquinas agrícolas e caminhões. Lembro que em 1956 meu pai vendeu os primeiros carros fabricados no Brasil.” Aos 17 anos, Zema assumiu a seção de venda de autopeças, e logo já vendia carros. Em meio ao caos na empresa da família, assumiu a administração geral do pequeno grupo em 1964. “Agradeço por ter tido força e saúde. Eu vivo única e exclusivamente para minha família e meus negócios. Não saio de casa, não gosto de festas. O que eu gosto é de trabalhar.”
O Grupo Zema tem capital fechado, nas mãos da família. Depois de oito anos numa reorganização total, envolvendo definição de responsabilidades e mesmo o saneamento dos negócios do grupo, com as vendas e desativações de empresas, há uma tendência em buscar a participação de um fundo de investimentos para aprimorar ainda mais a governança. Segundo o filho de Ricardo, atual CEO Romeu Zema, a abertura de capital é uma realidade no planejamento de gestão no longo prazo. Hoje a administração das empresas de combustível e eletrodomésticos já não está mais nas mãos de membros da família, com exceção das concessionárias, administradas por Roberto, também filho de Ricardo. O objetivo é não deixar as empresas dependentes de membros da família. O faturamento total do grupo tem se mantido estável, equilibrado entre pequenas retrações nas vendas de combustível – em torno de 3% – e a alta constante no ramo de eletro. ![]()
Quando Ricardo Zema assumiu os negócios, havia 11 funcionários contratados. Atualmente o grupo emprega 4 mil trabalhadores, dos quais ele afirma conhecer ao menos uns 500 pelo nome. Sem cerimônias, o presidente faz questão de ressaltar que usa o mesmo uniforme que qualquer um dentro do Grupo Zema, num claro sinal de respeito aos colaboradores. “Eu trabalho de uniforme, da mesma maneira que o faxineiro trabalha.” Em 2005, o grupo recebeu o título de Cidadania Corporativa do Guia Exame, pela preocupação com a qualidade de vida e projetos especiais destinados aos funcionários. Nas relações de melhores empresas para trabalhar, publicadas na mídia especializada, o nome Zema é presença constante.
Hoje o presidente participa de maneira mais branda na rotina dos negócios, delegando boa parte desta responsabilidade ao CEO. “Estou repassando tudo para os meus filhos, que já estão totalmente a par dos assuntos do grupo.” De qualquer maneira, Ricardo continua chegando ao cantar do galo no escritório em Araxá, com o mesmo semblante determinado de quem construiu o sucesso com muito esforço e seriedade. Uma ocupação mais recente do empresário tem sido contar sua trajetória aos colegas, em palestras e encontros empresariais, onde repassa seus valiosos “dez mandamentos”, que mantém sempre à mão na mesa de trabalho. Lições de outros tempos, que são como peças de antiquário – quanto mais os anos passam, maior valor elas adquirem.
Linha Direta
Ricardo Zema: (34) 3669-1722