Inclusão de trabalhadores com deficiência exige planejamento e busca localizada
Após completar 19 anos no último mês de julho, a Lei nº 8.213 ainda representa um desafio a muitos empreendedores. De acordo com a chamada Lei de Cotas, as empresas com mais de 100 funcionários devem reservar de 2% a 5% das vagas para pessoas com deficiência. Mas, a cada dez companhias, estima-se que pelo menos quatro não conseguem cumprir a norma, conforme levantamento realizado pela Superintendência Regional do Trabalho de São Paulo em parceria com o Espaço da Cidadania, organização sem fins lucrativos voltada à inclusão de deficientes no mercado de trabalho.
“Uma das maiores dificuldades no recrutamento de pessoas com deficiência está justamente em localizar estes profissionais no mercado”, aponta Eliane Figueiredo, diretora-presidente da Projeto RH, empresa especializada em consultoria de recursos humanos. Para driblar esse problema, a consultora sugere divulgar as vagas no maior número possível de lugares, sobretudo em clínicas de reabilitação, associações, escolas e universidades frequentadas por deficientes.
É o que faz a Cottonbaby, fabricante catarinense de derivados de algodão. Na hora de recrutar pessoas com deficiência, a empresa aposta na divulgação das vagas e nas indicações de entidades locais voltadas à capacitação profissional, como a Fundação Catarinense de Educação Especial e a Associação Florianopolitana de Deficientes Físicos (Aflodef), entre outras. Com 250 funcionários, a companhia vai além do que determina a Lei de Cotas e mantém 10% de seus cargos preenchidos por deficientes. “Temos entre nossos colaboradores pessoas prejudicadas mentalmente, amputados, com Síndrome de Down, deficiências genéticas e deficiência visual”, relata Nelson Silveira, presidente da Cottonbaby.
São colaboradores como Alessandro Amaral, de 33 anos, portador de problemas mentais. Há dez trabalhando na Cottonbaby, ele foi encaminhado pela Fundação Catarinense de Educação Especial, onde estudava e trabalhava na padaria. “É bom produzir, sentir-se útil, acordar de manhã, tomar café e ir trabalhar”, conta o auxiliar de produção, que nos momentos de folga dedica-se ao basquete e ao atletismo.
Na opinião de Silveira, a falta de pessoas com deficiência no mercado de trabalho também acontece devido ao “preconceito que está dentro de casa, com os próprios pais que não permitem ou não incentivam os filhos especiais a ingressarem no mercado de trabalho”.
Planejar e desenvolver
Em Santa Catarina, um mapeamento realizado pelo Sesi/SC comprovou o que muitos empresários já sentiam na pele: o número de pessoas com deficiência é insuficiente para que as empresas cumpram a Lei de Cotas. Realizado em nove cidades – incluindo os principais polos industriais do estado, como Joinville, Brusque e Blumenau –, o censo também constatou que o baixo nível de escolaridade dificulta o acesso dos deficientes ao mercado de trabalho. O analfabetismo, por exemplo, afeta 26,15% dos entrevistados. A falta de interesse nos estudos também chama a atenção, chegando a 55,15%. Estima-se ainda que 15,80% dessas pessoas estão inseridas no mercado de trabalho formal e 52,70% recebem algum tipo de benefício.
Para João Ribas, coordenador do Programa de Empregabilidade de Pessoas com Deficiência da Serasa Experian, a falta de qualificação profissional não deve servir como “desculpa” para deixar de contratar, já que o problema não se restringe aos deficientes. “A baixa escolaridade é um problema não só das pessoas com deficiência, mas de todo o País.” Por este motivo, o ideal é investir no desenvolvimento e na retenção desses profissionais. “Incluir pessoas com deficiência é um processo natural, mas que requer planejamento, já que é preciso adaptar tanto as ações de recrutamento e qualificação como a própria infraestrutura da empresa e os cargos.”
Com o objetivo de qualificar as pessoas com deficiência, a Serasa Experian desenvolve, desde 2001, um programa de qualificação considerado modelo. No início, o objetivo era suprir a demanda da própria companhia, que possui 2.865 funcionários no total. Mas o sucesso da metodologia foi tanto que, desde 2008, o Programa de Empregabilidade de Pessoas com Deficiência passou a ser oferecido em conjunto com outras grandes empresas, como Accor, Banco Itaú, Goodyear, Banco Santander, PriceWaterhouseCooper e Visanet, entre outras, todas de grande porte.
Só na Serasa Experian, por exemplo, trabalham 95 pessoas com deficiência, incluindo o próprio João Ribas, que é cadeirante. “A diferença é que agora, ao invés de capacitarmos aquele número mais reduzido de pessoas apenas para trabalhar internamente, nós qualificamos 50 profissionais por semestre, que têm emprego garantido nas empresas parceiras”, afirma João Ribas, referindo-se a um dos diferenciais do programa, que é a contratação efetiva destes profissionais pelas organizações parceiras. “Neste segundo semestre temos cinco pessoas que vão para a Claro, duas para a Deloitte, outras duas para Promon, e assim por diante”, conta Ribas.
Dividido em três módulos, o treinamento oferecido pela Serasa Experian tem duração de quatro meses. Com a meta de preparar os participantes para o dia a dia das grandes corporações, o primeiro mês é dedicado ao aprimoramento da identidade profissional, incluindo orientações sobre postura profissional, raciocínio analítico e trabalho em equipe. Há ainda aulas de matemática financeira, língua portuguesa, informática, educação financeira e rotinas administrativas. Segundo Ribas, a intenção é que os participantes saiam preparados para exercer um primeiro cargo como auxiliar administrativo.
Uma das companhias que já participou do programa é a TozziniFreire, empresa de consultoria jurídica com escritórios em Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Campinas e Nova York. Com 670 profissionais efetivos em todas as Unidades, a organização possui em seu quadro 28 profissionais com deficiência, sendo 50% deficientes físicos, 12% visuais, 12% intelectuais e 25% auditivos. “Vale um destaque para posições de liderança. Nosso supervisor de compras é cego e temos um advogado com deficiência auditiva e outro com deficiência visual”, relata Roberto Pierri Bersch, sócio da unidade de Porto Alegre.
Outro entrave ao cumprimento da Lei de Cotas é a ausência de acessibilidade nas empresas, como rampas de acesso, banheiros adaptados e sinalização para deficientes visuais e auditivos. Mais uma vez, a questão é planejar as reformas e adaptações, que muitas vezes são simples de executar. Na construção da nova fábrica, a Cottonbaby não teve dificuldades em adequar o projeto para receber pessoas com qualquer tipo de deficiência. “As portas são mais largas, temos rampas de acesso em todos os ambientes, além de sinalizadores visuais e sonoros, banheiros e vestiários adaptados”, detalha Nelson Silveira.
Nas unidades da TozziniFreire também foram feitas adaptações para deficientes físicos nos banheiros e corredores. Já para os deficientes visuais, a empresa adquiriu o software Virtual Vision, que faz a leitura de tela. Há ainda acomodação para cão-guia, telefones com visores para deficientes auditivos e etiquetas em braile nos elevadores. O prédio da Serasa Experian é outro modelo de acessibilidade, sendo o único do Brasil a obedecer todas as normas da ABNT, com o aval da Fundação Carlos Alberto Vanzolini.
Do lado de dentro
Preparar a equipe que vai receber os profissionais com deficiência é outro ponto fundamental para o sucesso das contratações. “Não podemos pressupor que todos sabem lidar com as deficiências. É preciso preparar o gestor, os companheiros de trabalho e a equipe como um todo para que saibam lidar com os novos colegas sem nenhuma espécie de distinção ou preconceito”, recomenda Eliane Figueiredo.
Por este motivo, o programa desenvolvido pela Serasa Experian também inclui em um de seus módulos a sensibilização da equipe. “As pessoas têm dúvidas e curiosidades sobre como vivemos, mas muitas vezes se sentem constrangidas em perguntar. Então fazemos uma oficina bem descontraída e convidamos algumas pessoas com deficiência para contar como é o nosso dia a dia para a equipe”, explica Ribas.
Além desta preparação, a TozziniFreire aposta ainda em ferramentas permanentes de relacionamento entre os colaboradores, com destaque para um blog, exclusivo da equipe, onde são postados textos, comentários, depoimentos e indicações de filmes e livros relacionados ao tema inclusão. “Mantemos o programa de sensibilização quando há o envolvimento de novos membros na equipe, bem como ações pontuais quando identificadas necessidades”, relata Bersch.
Na opinião de João Ribas, o mais importante no processo de inclusão é promover uma mudança na mentalidade da empresa. “Empresa não é centro de caridade nem igreja. Então é preciso abandonar as ideias preconceituosas, como, por exemplo, de que pessoa com deficiência só dá gastos, despesas e aborrecimentos. Se tiverem condições de trabalhar e se desenvolver, os profissionais com deficiência alcançam metas e resultados como os demais.”
Números Especiais
Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, pelo menos 10% da população mundial apresenta algum tipo de deficiência.
No Brasil, dados do censo do IBGE de 2000 apontam que aproximadamente 24,6 milhões de pessoas são portadoras de deficiência, ou seja, 14,5% da populaçã.
Estima-se que 8 mil brasileiros adquirem novas deficiências por mês, em consequência, principalmente, de doenças degenerativas, acidentes de trânsito ou com armas de fogo.
O que diz a lei
Lei 8.213 – Art. 93. A empresa com 100 (cem) ou mais empregados está obrigada a preencher de 2% (dois por cento) a 5% (cinco por cento) dos seus cargos com beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de deficiência, habilitadas, na seguinte proporção:
I – até 200 empregados 2%;
II – de 201 a 500 3%;
III – de 501 a 1.000. 4%;
IV – de 1.001 em diante. 5%.
Contato:
Cottonbaby: www.cottonbaby.com.br [1]
Projeto RH: www.projetorh.com.br [2]
Serasa Experian: www.serasaexperian.com.br [3]
Sesi/SC: www.sesisc.org.br [4]
Superintendência Regional do Traballho-SP:www.mte.gov.br/delegacias/sp
TozziniFreire: www.tozzinifreire.com.br [5]
Links:
[1] http://www.cottonbaby.com.br
[2] http://www.projetorh.com.br
[3] http://www.serasaexperian.com.br
[4] http://www.sesisc.org.br
[5] http://www.tozzinifreire.com.br