A King 55 criou um ambiente que reflete a atitude "sem rótulos" da marca e trouxe para a loja a mesma criatividade de suas coleções
No momento em que uma marca aposta em atitude, com produtos sem rótulos ou estilos formatados, o ponto de venda deve acompanhar a proposta. Foi nesse sentido que o projeto de arquitetura e interior da customshop da King 55, na descolada Vila Madalena, em São Paulo, foi desenvolvido: fugindo dos padrões tradicionais de exposição, expressando a ausência de uma unidade lógica nas roupas e acessórios da marca e materializando a atitude das pessoas que usam os produtos da marca.
“O conceito da King 55 exige criatividade além das roupas”, resume o arquiteto Tito Ficarelli, responsável pelo projeto, contando que o desenvolvimento da obra da loja contou com um sistema de “tentativa e erro”, sem um plano rígido de elaboração. “Decidimos criar improvisando”, revela o profissional, que divide a autoria da parte de interiores do espaço com Amauri Caliman, estilista da marca. “A proposta foi fazer algo diferente do mercado, com personalidade e atitude”, complementa Caliman.
O local escolhido para concretizar tal intenção foi um antigo sobrado no famoso reduto da boemia, das artes e da intelectualidade da capital paulista. A reforma foi total – apenas a laje, os blocos de concreto das paredes laterais e os tijolos foram mantidos, sendo estes últimos usados na fachada. A construção residencial foi transformada em uma espécie de prédio industrial, com o pé-direito elevado, mas também com um aspecto intimista de garagem, com a entrada recebendo um tratamento diferenciado, mais rebaixado.
Unidade visual
O aclive acentuado do terreno influenciou o desenho da área interna da construção. Em vez de optar pelo “óbvio” de térreo e mezanino, o arquiteto decidiu por uma área de apresentação em três níveis, com uma escada na lateral, criando uma unidade visual da loja logo que a pessoa entra no local. A escolha também ajuda na “setorização” do espaço de vendas. Mas a segmentação não é feita exatamente por produtos femininos ou masculinos, mas por etapas do processo de compra dos clientes.
Na primeira “fase”, que abriga também a vitrine e uma antessala, estão itens da malharia da marca, como camisetas, por exemplo, com mais cores e com capacidade de atração inicial mais rápida para os clientes. “As pessoas se intimidam com degraus”, nota Tito Ficarelli. Os jeans da King 55, por sua vez, ficam no segundo patamar. Para os que conhecem a marca, já há o interesse pelos itens. E para os que entram pela primeira vez na loja, a curiosidade desenvolvida no primeiro estágio facilitará a encaminhamento para o segundo nível.
O terceiro patamar é onde estão os estilosos provadores com portas de geladeira. No mesmo setor há uma sala de espera, com sofá e um antigo refrigerador abastecido de itens – desde água até champanhe – para os clientes. O refrigerador é repleto de fotos de amigos que frequentam a loja, alguns famosos, outros nem tanto. Mas sem dúvida os instantâneos reforçam o aspecto de sala de estar do espaço, que ainda conta com umjardim – onde também fica o banheiro da loja, não ocupando espaço na área de vendas.
A mistura de cores fortes é outra característica marcante do projeto. No mobiliário, nos papéis de parede e painéis das paredes ou no piso. “Não poderia ser diferente”, justifica o arquiteto. “O produto da King 55 é chamativo. A ideia da marca é de um desenho forte, com atitude. E o projeto da loja não tira isso do produto, que – pelo contrário – exige isso. Se fossem prateleiras brancas, não seria a King 55. Não é o conceito da marca”, reforça Tito Ficarelli.
Tal proposta tem como ápice o trabalho do artista Willians Espricio. Os desenhos coloridos pintados sobre o cimento preto marcam o segundo e terceiro níveis, além de atuarem como revestimento do piso do segundo patamar. A obra de arte ajuda a “personalizar a loja, com um aspecto mais definitivo, assumindo uma identidade própria”, diz o arquiteto. E reforça o entendimento de que a King 55 não se trata de algo passageiro. No mesmo sentido, está o uso de um mobiliário que “já foi moda, mas que se tornou clássico”, explica Caliman.
O estilista se refere, por exemplo, às mesas dos irmãos Fernando e Humberto Campana, famosos designers brasileiros que auxiliam na apresentação dos produtos no primeiro e segundo níveis da loja. O mobiliário, de modo geral, tem um aspecto vintage, com peças de antiquários que receberam uma caracterização mais contemporânea. O próprio “caixa” da loja é um balcão de doçaria. Alguns produtos estão expostos em armários antigos, que “perderam” as portas, mas ganharam uma forração de jeans, além de lâmpadas internas.
Luz natural
O recurso da iluminação interna nos mostruários é combinado com spots no teto com lâmpadas PAR 38 direcionados para os produtos. Fluorescentes instaladas em aberturas zenitais, que ficam entre as paredes de blocos de concreto e as placas de aço amarelas, que fazem o acabamento com o telhado, reforçam o projeto luminotécnico no local. A disposição desses painéis nas extremidades superiores das paredes laterais dando a volta na loja, alinhados no mesmo nível da porta que dá para o jardim no terceiro patamar, cria um aspecto de luz natural. Um lustre no centro da loja com lâmpadas negras, criado por Amaury Caliman, chama a atenção, mas acaba tendo um papel mais decorativo, uma vez que seria preciso “que todas as luzes estivessem apagadas e não houvesse nenhum tipo de iluminação externa para que ele tivesse o real efeito”, observa Tito Ficarelli.
O sistema de ventilação é um dos destaques no projeto. O ventilador que se vê logo na parte superior da fachada capta o ar no exterior e distribui dentro da área de vendas por meio de um cilindro de plástico “furado”, que atravessa toda a extensão longitudinal interna e está “pendurado” em fitas de náilon presas em cabos de aço fixos na laje. A climatização é ainda reforçada por três aparelhos de ar-condicionado. Mas em quase metade do ano não é preciso acionar tais aparelhos, pois o ventilador dá conta do serviço, conta o arquiteto.
A laje da loja é de telhas de fibrocimento pintadas de preto. No espaço da vitrine e parte do primeiro nível do espaço de exposição, o revestimento é diferente. Nesse espaço, que fica no primeiro nível da loja e onde o teto é rebaixado por um mezanino onde fica a área administrativa e de estoque da King 55 – para a qual o acesso é feito por uma escada caracol –, foram distribuídas placas diagonais, que combinadas com a iluminação dos spots parecem ter cores diversas.
Clima intimista
O projeto também aposta em materiais alternativos. No piso da loja foi usado um revestimento de borracha preta reciclada de pneus. A aplicação de uma resina conferiu um aspecto mais brilhante ao material, além de facilitar a manutenção. O arquiteto explica que se trata de um material muito resistente, ideal para lojas de tráfego intenso. Além do aspecto industrial do piso emborrachado, que combina com a proposta de galpão industrial do projeto. No espaço dos provadores, tanto na área da sala de estar como dentro das cabines, tapetes deixam um clima mais intimista.
De acordo com Tito Ficarelli, o desafio foi transformar uma área com clima de galpão em um local com todo o conforto e todas as necessidades que uma loja exige. O trabalho do arquiteto não só alcança isso, mas vai além ao oferecer um projeto com capacidade de modificação, sem ficar preso a um formato, mas imprimindo uma personalidade única. Aspecto que combina com a proposta da King 55, de possibilitar um código de identidade único para as suas criações, além de dar informação rápida ao seu cliente, um consumidor acostumado com a proposta de um mundo globalizado.
KING 55
Local: São Paulo
Data do projeto: 2005
Tempo de execução: 2 meses
Área construída: 160 m2
Piso: borracha reciclada, concreto
Laje: fibrocimento
Paredes: blocos de concreto, papel de parede
Iluminação: fluorescentes, PAR 38
Fachada: tijolo de demolição