Antes de dar início à sua rede de franquias, a varejista de roupas infantis Petit reformulou o design dos pontos de venda com soluções adaptáveis a diferentes tamanhos de loja, combinando bom gosto e baixo custo
Quando o projeto de adotar o sistema de franquias deixou o campo da intenção e passou a tomar forma, as mudanças na rede Petit foram além do modelo de gestão. Depois de contratar uma consultoria especialmente para montar seu plano de expansão, a rede especializada em artigos infantis investiu em uma reformulação total de seus pontos de venda. Hoje, todas as 19 unidades da Petit espalhadas pelo Brasil seguem o padrão que foi definido em meados de 2008, quando a loja localizada no Shopping Jardim Sul, em São Paulo, serviu como teste para a nova proposta de design.
A arquiteta Ana Carolina Frutuoso, do escritório Falzoni & Alves Lima, explica que o ponto de partida do projeto foi justamente o plano de franquias. “A ideia era fazer uma loja menor, com um custo razoável para o franqueado e que apresentasse uma flexibilidade a fim de facilitar a aplicação do modelo em outras cidades”, detalha. A preocupação com a questão do custo no desenvolvimento do projeto, contudo, não eliminou o cuidado da profissional com a valorização dos produtos, bem como a realização de um trabalho a fim de maximizar o espaço. Conforme chamou a atenção Renato Diniz, analista de visual merchandising da Petit, a ideia foi deixar o produto mais exposto, com looks coordenados, com a cartela de cores das coleções mais visível e os itens mais disponíveis. O mix de produtos não é pequeno, englobando desde vestuário voltado para crianças de zero a 12 anos, assim como artigos para enxoval e puericultura.
A fim de se alinhar a esse objetivo, o projeto manteve a “departamentalização” da loja, mas algumas alterações foram feitas, e teve participação importante a criação de nichos modulados que praticamente cobrem toda a parede das duas laterais e da parte posterior da área de vendas. Em marcenaria branca, Ana Carolina criou esses armários embutidos sem portas (com a mesma moldura com cantos arredondados que se observa na vitrine), em que os produtos estão basicamente expostos em cabides e estantes presos a um sistema de cremalheiras, com o suporte de uma gaveta próxima do piso.
Espaço para circular
Em razão do novo modelo de apresentação, quase em formato de mostruário, a grade de produtos fica em um estoque fechado na parte posterior da loja. Renato Diniz explica que o conceito antigo colocava todo o estoque na loja, com as roupas dobradas e guardadas em espécies de casulos. “Isso não apenas não facilitava o acesso aos produtos, como fazia com que as vendedoras perdessem tempo na organização”, comenta. Mas o estoque no novo projeto não necessariamente representa um lugar permitido apenas para funcionários, com alguns produtos que saíram da área de exposição apenas disponíveis nesse espaço.
A decisão de excluir alguns itens da exposição decorre justamente da necessidade de se fazer lojas menores, mas que precisam de área de circulação espaçosa. Afinal, trata-se de um projeto para uma marca de produtos infantis; logo, a chance de uma mãe estar com o bebê no carrinho é grande e a loja precisa acomodar isso. Outro recurso utilizado para aumentar a circulação foi a exposição de carrinhos e cadeiras de bebê em espécies de casulos que formam uma parede de fundo das vitrines – diferente do projeto anterior, quando esses itens eram expostos no chão. O acesso a eles se dá por uma escada portátil.
“Além do espaço maior para circulação, tal formato valoriza o produto”, constata Ana Carolina. A iluminação e a predominância da cor clara têm o mesmo objetivo. No caso da primeira, a preferência ficou com a utilização de spots embutidos no teto revestido de gesso, bem como iluminação no interior dos “armários embutidos” nas paredes laterais, que tornaram a loja mais clara, realçando os produtos coloridos. O destaque nesse quesito fica para as luminárias de alumínio pintadas em branco e alinhadas da entrada até o caixa – que fica no centro da área de vendas. Além de auxiliarem na iluminação, ajudam a dividir a loja e guiar o cliente.
Ainda na parte exterior é possível notar as luminárias, entre as duas vitrines, que ganharam molduras azuis – no mesmo tom usado para as embalagens da Petit. As duas vitrines acompanham a segmentação interna – com o segmento bebê de um lado e o kids de outro. Internamente, além dos manequins, fendas no forro superior dessas duas “caixas de madeira” permitem a instalação de elementos, assim como a utilização de um sistema de cremalheira na parte posterior, auxiliando a exposição. Ainda, a cor dominante branca facilita a disposição de eventuais banners de campanhas publicitárias da marca.
Cantos arredondados
De volta ao interior, outro aspecto que mereceu atenção particular foi o mobiliário. Além das estruturas que cobrem as paredes laterais, há uma série de ilhas de exposição distribuídas na área de vendas, sempre respeitando a circulação. Mas esses móveis apresentam também outro detalhe, assim como os armários embutidos e a moldura da vitrine: os cantos arredondados. Não custa lembrar que se trata de uma loja de produtos infantis – logo, proporciona maior segurança ao seu público. E não foi apenas essa atenção que os pequenos mereceram, há ainda dois televisores de LCD e uma área de recreação atrás do caixa.
Tal ambiente, contudo, não se trata de nenhum local escondido, uma vez que o caixa localiza-se exatamente na parte central, em uma estrutura quadrada, revestida de fórmica zebrano – textura que ajuda a caracterizar a marca. “A intenção é que o cliente reconheça que está na Petit assim que entrar na loja”, conta a arquiteta. Sobre a centralização do caixa, Renato Diniz explica que o processo de venda do produto é iniciado e finalizado pela mesma pessoa. Assim, essa localização permite uma melhor visualização e acompanhamento do que acontece na loja. Além de representar mais um elemento divisor dentro do espaço de exposição.
No piso, carpete de madeira – por uma série de motivos. Além de deixar o ambiente aconchegante, trata-se de um material resistente e prático no que diz respeito à manutenção, sem contar, claro, o custo menor em relação a outros materiais similares.
Os provadores instalados na parte posterior, a caminho do estoque, também ganharam características especiais por se tratar de uma loja para o público infantil. O desenho diferenciado do espelho – que tem iluminação posterior – foi repetido em uma divertida “régua” de madeira na parede lateral do provador, em que a criança pode inclusive acompanhar o seu desenvolvimento em relação à altura. Um dos provadores também é mais espaçoso, a fim de acomodar um trocador para bebês. A iluminação ainda é reforçada por spot embutido no teto desse espaço.
Ritmo de mudança
Até agora, a maioria das 14 lojas chamadas "tradicionais" (há ainda duas lojas diferenciadas em duas maternidades na cidade) já foi reformulada. Todas as novas unidades abertas de 2009 para cá já são inauguradas com o novo formato. De acordo com Vânia Marola, gerente de marketing da Petit, a troca do projeto de todos os pontos de venda deve ser feita no prazo de um ano. A loja no Shopping Jardim Sul, inclusive, foi fundamental para avaliar a funcionalidade das mudanças, o que deu ou não deu certo e, principalmente, que tipo de custo pode ser reduzido para o franqueado. "A despesa, mesmo considerada cara, é indispensável, pois faz toda a diferença", diz a arquiteta. A remodelação do projeto, por ora, exige um investimento de cerca de R$ 180 mil. Mas a intenção é deixar esse valor ainda mais atrativo.
PETIT
Local: São Paulo
Data do projeto: setembro de 2008 (inauguração)
Tempo de execução: 1 ano (projeto e obra) e 1 mês (apenas obra)
Área total: 100 m² de área de exposição e 20 m² de estoque
Piso: carpete de madeira
Paredes: marcenaria e gesso
Mobiliário: marcenaria/cremalheiras
Iluminação: fluorescentes e lâmpadas PAR 30