Criador de uma das primeiras incubadoras tecnológicas do País também foi o pivô da construção do pólo tecnológico em SC
Há 33 anos ele é professor titular do departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), orientador de alunos de mestrado e doutorado, diretor de um dos centros de tecnologia mais respeitados do País e ainda encontra espaço na agenda para encabeçar projetos de incubadoras de empresas, parques tecnológicos e centros de inovação. Carlos Schneider trabalha todos os dias das 7h às 23h e acha tudo um hobby. “A maioria das coisas que a gente faz aqui é muito interessante. Projetar a urna eletrônica, por exemplo, não pode nem ser considerado trabalho”, diz. O fundador do polo tecnológico que se instalou na Capital catarinense – e que hoje já ultrapassa o turismo no PIB municipal – de fato tem feito coisas tão impressionantes que nem ele sabe explicar como conseguiu. “Ah, é simples, a gente vai lá e faz. Com a ideia e a determinação as coisas acontecem.”
Sua primeira inovação foi criada quando ele tinha apenas 16 anos. Junto com o pai, fundador das Indústrias Schneider S/A, líder nacional na fabricação de bombas e motobombas centrífugas, Schneider projetou uma bomba hidráulica antes mesmo de entrar na faculdade de engenharia. “Aprendi com o meu pai esse processo de desenvolver uma ideia e levar isso para o mercado. Entendi o que era empreendedorismo muito cedo, mas naquela época fazia isso de forma incompleta, muito diferente de como hoje procuramos ensinar”, conta.
Algumas das invenções foram arrojadas até demais para sua época e acabaram ficando no fundo da gaveta. No final dos anos 1960, Schneider e seu pai desenvolveram o projeto de uma prancha acoplada a um motor a jato movido a gasolina, muito antes de a japonesa Kawasaki Motors lançar o primeiro jet ski (1989). No papel, a prancha a jato funcionou perfeitamente, e eles chegaram a fazer um protótipo do motor, mas como a invenção não se encaixava nas atividades do dia a dia, acabou ficando em segundo plano.
Apesar de todos os projetos de sucesso que liderou até hoje, Schneider ainda se chateia quando se lembra de um deles que nunca pôde desenvolver. Ele era estudante quando o departamento de Engenharia Mecânica da UFSC comprou o primeiro computador da universidade, que ocupava uma sala inteira e tinha 16 kb de memória. Os alunos com as melhores notas foram convidados para participar do projeto de implantação do computador, e Schneider percebeu que a máquina tinha facilidade para fazer desenhos. “Eu sou mecânico, o que eu mais gostava de fazer era desenho, e o computador fazia bem, só que era burro. Para fazer uma linha a gente tinha que explicar exatamente como queria, então eu desenvolvi um software que fazia o computador gerar gráficos fantásticos, como um engenheiro precisa, coisa que até hoje o Windows tem dificuldade de fazer”, diz.
Schneider utilizou o software em todo o curso de graduação, na dissertação de mestrado, emprestou para vários amigos e chegou a levá-lo para o doutorado na Alemanha, mas quando voltou ao Brasil, os computadores já tinham mudado, e o software, que ele tem guardado até hoje, ficou para trás. “Se eu tivesse lançado na época como um produto bem empacotado, vendável, com esforço de marketing, poderia ser um software parecido com uma coisa dessas aí que o Bill Gates faz, e o Brasil teria uma grande empresa internacional de software”, lamenta.
De fato, lançar programas de computador naquela época não era nada simples. O empreendedorismo era desenvolvido de forma amadora, sem incentivo ou orientação, e a universidade também não estava preparada para lidar com invenções que não fossem exclusivamente acadêmicas. Mais tarde, já como professor, no final da década de 1970, Schneider fez parte de uma equipe que projetou um torno de alta precisão, com velocidade e desempenho inéditos. Quando o protótipo ficou pronto, funcionou bem, todos ficaram felizes. E o projeto voltou para a gaveta.
O que hoje parece inconcebível, na época era o único destino possível para um projeto desenvolvido dentro da universidade. Os primeiros financiamentos para inovação só foram surgir muitos anos depois, ainda não havia parcerias com a indústria e nenhuma incubadora para desenvolver o produto. Schneider só iria criá-la mais tarde.
Quando se tornou professor do curso onde havia se formado, decidiu que seus alunos fariam coisas práticas, que funcionassem, não queria saber de projetos apenas no papel. Implantou o programa de pós-graduação em Metrologia e começou a fazer projetos para empresas. Como a universidade não podia tratar diretamente com a iniciativa privada, Schneider foi convidado a criar um instituto na área de informática e automação industrial. “Começou a se disseminar a ideia de que era importante ajudar a indústria a desenvolver novos produtos usando a informática, e como eu tinha participado da implantação do primeiro computador da UFSC e também pela minha experiência na Alemanha, fui estimulado a tomar frente no projeto”, explica.
Ele nem sabia o que era um instituto. Teve que estudar como se criava, como funcionava, quais eram as vantagens, desvantagens, obrigações, e foi fazendo. Desenvolveu a concepção, buscou parceiros para trabalhar na captação de recursos e no convencimento da universidade, até que recebeu carta branca e um orçamento irrisório. Não seria possível comprar um terreno para construir um prédio, comprar equipamentos e contratar pessoas para começar a trabalhar. “Fizemos um projeto com investimento inicial pequeno, porque nem adiantava sonhar muito alto, e precisávamos de uma solução rápida, então tivemos a ideia de fazer um instituto dentro do campus”, diz.
No dia 31 de outubro de 1984 foi criada a Fundação Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras (Certi) e no mesmo dia foi assinado um convênio com a UFSC estabelecendo que esse “ente teórico” se instalaria no departamento de Engenharia Mecânica, no laboratório de Metrologia. Na prática, a Certi era a mesa de Schneider. E como o convênio permitia que a fundação utilizasse os equipamentos da universidade, com o capital inicial que recebeu das empresas, Schneider comprou escrivaninhas, telefone e contratou dez engenheiros. No dia 1º de novembro, a Certi já estava instalada e trabalhando em três projetos. “Começamos a trabalhar imediatamente, e tinha que ser assim, porque somos uma entidade privada, precisávamos ter dinheiro no final do mês para pagar a turma”, lembra.
Embora seja uma instituição sem fins lucrativos, em 2007 a Certi alcançou receita operacional de R$ 14,3 milhões, 21% a mais do que no ano anterior, e atuou em mais de 80 projetos durante o ano. Para Schneider, o crescimento é natural quando se dá condições para que as pessoas se desenvolvam. “Eu fico impressionado com o que nossa equipe é capaz de fazer. Somos o centro número 1 em TV Digital no Brasil e eu, pessoalmente, não entendo nada do assunto. Se dependesse de mim, não iríamos para esse lado, mas cinco anos atrás surgiu a oportunidade de participar de um projeto de cooperação internacional, e resolvemos encarar. Foi gente bastante jovem que se envolveu e, de repente pela dedicação e objetividade, dentro de um grupo com 20 entidades da Europa e do Brasil, a fundação Certi se tornou importante”, diz. Mais tarde, a Certi foi convidada pelo governo federal a participar dos estudos para definição do modelo brasileiro. Atualmente, é o centro de desenvolvimento das soluções de TV Digital para o sistema brasileiro da Philips.
Pioneirismo
Dois anos depois da criação da Certi, Schneider fundou uma das primeiras incubadoras do Brasil – a primeira segundo alguns livros, mas o tema é controverso. Tudo começou com uma provocação. No princípio, a sigla da fundação tinha outro significado, chamava-se Centro Regional de Tecnologia em Informática, e durante uma reunião do conselho um cidadão se levantou no auditório e disse: “O trabalho da Certi está muito bom, mas vocês fazem projeto para Mercedes-Benz, Volkswagen, Embraco, e eu achei que fariam projetos com as empresas daqui. Esse centro não tem nada de regional”. A fundação não tinha projetos com empresas locais porque elas simplesmente não existiam. “E aquilo ficou na minha cabeça”, diz Schneider.
Em 1985, Florianópolis estava em campanha política para eleição de prefeitos e vereadores e apareceu no discurso pela primeira vez o desenvolvimento da indústria de informática, que ninguém sabia bem o que era. “Passada a campanha, o governador veio nos perguntar o que era essa tal de indústria da informática. Dissemos para ele que eram empresas de tal e tal tipo, que não tínhamos aqui, e se quiséssemos tê-las, precisaríamos criá-las”, conta Schneider. E se fosse para criar, havia uma universidade cheia de gente talentosa e sem dinheiro para desenvolver projetos, e surgiu a ideia de criar um lugar para desenvolver empresas nascentes. Ninguém sabia ainda que isso se chamava incubadora.
Quem dá ideia tem que mostrar viabilidade, e a Certi foi incumbida de apresentar um projeto para desenvolver a indústria da informática. Schneider não contou para ninguém, mas lembrou até do seu antigo software. Infelizmente sua missão era criar uma incubadora, não uma empresa.
Já na época eles sabiam que as empresas ficariam poucos anos no primeiro estágio e precisariam caminhar com as próprias pernas, e o governo não podia deixar que elas fossem para outros estados ou municípios. Planejaram então um distrito de indústrias de alta tecnologia, que viria a ser conhecido mais tarde como parque tecnológico. Depois de vários projetos e muita discussão, em 1995 surgiu o ParqTec Alfa, que já nasceu pequeno demais para o potencial do projeto. “Está lá, é considerado o parque de maior sucesso do Brasil, mas eu digo que aquilo lá não deu certo.”
O que Schneider queria para o ParqTec Alfa só agora está sendo feito, que é o Sapiens Parque. O projeto surgiu no ano 2000, quando a comunidade científica se perguntava: o que vamos fazer no novo milênio? “Criamos a empresa Sapiens Parque S/A com um projeto impecável, e o governo entrou com o terreno, que tem um valor enorme, então eles acabaram como sócios majoritários. Ficamos com uma pequena parte referente ao capital intelectual, mas isso não tem problema, só procuramos manter a força para não desvirtuar o projeto”, diz..
Segundo ele, todas as suas investidas inovadoras foram respostas a provocações, demandas e oportunidades, e ele já pensa lá na frente, além do Sapiens. “Será fantástico quando conseguirmos introduzir na Ilha de Santa Catarina o conceito e a prática da Reserva da Biosfera Urbana, que vai combinar sustentabilidade ambiental, cultural e econômica”, prevê. Segundo Schneider, o Sapiens Parque está sendo construído de acordo com esses princípios, e a ideia é contagiar toda a sociedade. “A Certi ainda não está envolvida no projeto, que é público e está sendo discutido no âmbito do plano diretor, mas, se entrarmos, faremos um trabalho bastante sério para concretizar.”
A postura visionária fez de Schneider um dos homens mais importantes da inovação brasileira. Em 1998, recebeu do presidente da República o título de Comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico em Ciências da Engenharia. Em 2005, recebeu a Medalha do Mérito Anita Garibaldi, mais alta condecoração do governo de Santa Catarina, e em 2007 recebeu a Medalha do Conhecimento, iniciativa do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, em parceria com a CNI, o Sebrae, Iedi e Banco da Amazônia. Mas ele não foi o criador do jet ski, nem se tornou o Bill Gates brasileiro. Ainda bem.
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