Com mais de cinco empresas criadas em 45 anos de vida, duas delas vendidas por cerca de 15 vezes o valor investido, ele não pensa em parar
O carioca Marcos Wettreich jura que nunca sonhou em ser rico, tampouco empreendedor. Mas antes mesmo de completar 40 anos de idade, ele já tinha no currículo três bem-sucedidas empresas e dinheiro suficiente para fazer o que quisesse da vida. Inclusive abrir novos negócios. Reconhecido como um empreendedor serial, Wettreich se destaca tanto pela habilidade em criar empresas quanto em vendê-las. Entre os empreendimentos que fez, o mais conhecido no Brasil é o iBest, um dos maiores provedores de internet, criado em 1995 com investimentos de US$ 5 milhões e vendido em 2003 para a Brasil Telecom por US$ 72 milhões.
Dois anos antes, Wettreich já havia feito outro grande negócio ao se desfazer da Mlab, seu segundo vôo solo como empreendedor. Primeira consultoria de marketing na web brasileira, a empresa foi aberta em 1996 com um capital de US$ 2 milhões. Em 2001, a Neoris, controlada pelo grupo mexicano Cemex, a comprou por US$ 36 milhões. O mercado começava a conhecer e aplaudir Wettreich. No mesmo ano, ele conquistou o prêmio Empreendedor do Ano na categoria e-business, concedido pela Ernst & Young.
Sorte? Não, é melhor chamar de obstinação. Wettreich chegou a abrir três empresas num espaço de seis meses, entre 1995 e 1996: o iBest, a Mlab e a MantelMedia, editora de publicações especializadas em tecnologia. Desde 1990 o empresário já comandava a Mantel, empresa de eventos de tecnologia. “Por um tempo fiquei presidente de quatro empresas”, conta Wettreich. Ele admite que só depois de dez anos criando empreendimentos sozinho é que começou a entender a necessidade e a importância de ter sócios estratégicos e financeiros.
Se as coisas já iam bem para o empresário, passaram a andar melhor ainda com a nova tática. Como sócios do iBest e da Mlab, Wettreich teve nada menos do que os grupos GP Investimentos e Latinvest, os maiores investidores em internet no Brasil. Com o capital injetado pelos fundos, as duas empresas se tornaram tão expressivas que foram adquiridas, respectivamente, pela Brasil Telecom e Neoris.
Com dinheiro no bolso, Wettreich bem que poderia descansar um pouquinho, mas decidiu faturar com o descanso dos outros. Em 2004, criou o Nirvana, um spa urbano, primeira empresa fora da web. Até 2005, permaneceu na diretoria da Mlab. Nos intervalos, lançou o Manual de Pais e Mães Separados, no qual faz uma interposição de sua história pessoal com abordagens de negociação empresarial. O livro vendeu 20 mil exemplares.
No ano passado, depois de três anos sem criar empresa alguma, Wettreich voltou a imprimir sua marca de empreendedor serial. Com o apoio de acionistas renomados, criou o WeShow, um portal que seleciona e organiza vídeos disponíveis na web. Entre os sócios, Bob Pittman, fundador da MTV e co-CEO da América On Line (AOL), e William Sahlman, professor titular de empreendedorismo de Harvard. “Amigos me recomendaram falar com eles e houve uma identificação muito grande com o projeto”, conta o empresário.
Um ano e meio depois de criado, o WeShow já conta com uma audiência mensal considerável de 5 milhões de usuários. “É um negócio de alto risco, os desafios são muito grandes e temos a concorrência do YouTube, leia-se Google. Mas quanto maior o risco, maior o retorno.” Negócios de alto risco não são uma novidade na vida de Wettreich. Seu histórico como empreendedor mostra que ele tem uma atração pelos chamados investimentos assimétricos, em que o potencial de retorno é muito maior do que o potencial investido.
O WeShow também é mais um exemplo da habilidade de Wettreich em transformar carências do mercado em oportunidades de negócios. Com o crescimento do volume de vídeos na internet, o executivo percebeu que as pessoas tinham cada vez mais dificuldades de encontrar o que queriam. O WeShow nada mais é do que um organizador desta bagunça. A aposta do empresário é que cada vez mais as pessoas vão assistir a vídeos na web, ampliando o interesse por um canal específico para cada assunto.
Segundo Wettreich, o desafio no momento é transformar a audiência do WeShow em receita e lucratividade com a monetização da propaganda. “O YouTube também não é lucrativo. Eu não sei qual é a estratégia do Google, mas nós somos pés no chão, queremos retorno sobre o investimento. A recente crise traz mais empecilhos, mas vida de empresário é assim mesmo, não tem moleza”, afirma o empresário. E não tem mesmo. O ritmo de trabalho imposto por Wettreich é intenso. Geralmente ele fica até duas, três da manhã enviando e respondendo e-mails. Seus colaboradores já sabem que ao chegar no escritório terão muitas tarefas a cumprir. “O importante é se dedicar e, para isso, é preciso abrir mão de muitas coisas. Durante anos da minha vida eu não tive fins de semana.”
Habilidades
A carreira de empresário começou um tanto por acaso na vida de Wettreich. Ele conta que, ainda adolescente, gostava muito de artes e ciência e estava mais próximo da medicina do que do mundo dos negócios. Acabou se formando em Engenharia Eletrônica pela PUC do Rio de Janeiro, mas seu destino parecia traçado. Empreendedor nato, desde pequeno Wettreich demonstrava um talento muito importante: a arte de negociar. E foi assim, negociando, que ele foi aceito na Saga, uma cooperativa de desenvolvimento e gestão de sistemas idealizada por um grupo de estudantes do último ano da faculdade de engenharia. “Eu era um ano mais novo. Como ainda não tinha acabado a formação, fiquei com a área mais administrativa e comercial da empresa.”
Foi então que Wettreich descobriu seu talento para o marketing. “Hoje não tenho dúvidas que é o meu maior skill (habilidade)”, diz o empresário. Tanto que, logo depois de se formar, investiu numa pós-graduação na área, na própria PUC-RJ. Mais tarde, fez uma especialização para executivos na Escola de Negócios de Harvard, nos Estados Unidos. Na Saga, ficou até os 26 anos, quando decidiu sair, levando US$ 14 mil, para criar seu primeiro negócio sozinho, a Mantel. Com ela, Wettreich começava a mostrar sua capacidade em reconhecer ótimas oportunidades de mercado.
A Mantel foi criada numa época em que não havia internet nem literatura suficiente sobre tecnologia. A demanda por informação era gigante e Wettreich decidiu promover congressos e feiras segmentados. “Foi aí que comecei realmente a ganhar dinheiro. Era um negócio bem lucrativo porque muita gente queria participar e muitas empresas queriam expor e patrocinar os eventos. Em pouco tempo a empresa se tornou a maior do Brasil na área. Cheguei a promover uma feira internacional na Europa”, conta o empresário.
O iBest foi outro negócio criado na hora certa. A internet dava seus primeiros passos no Brasil e o mercado de provedores tinha ótimas perspectivas de crescimento. Como bom marqueteiro criou o Prêmio iBest, hoje considerado o Oscar da internet brasileira. Ainda na onda da web, fundou a primeira empresa brasileira de marketing na rede, a Mlab. Para completar, percebeu que além de organizar feiras, poderia ganhar dinheiro com publicações ligadas à tecnologia. Assim surgiu a MantelMedia e a primeira revista sobre internet no Brasil, a Internet World, que chegou a ter uma tiragem de 580 mil exemplares.
Com o sucesso dos empreendimentos vieram os sócios e, logo em seguida, as propostas de compra. Será que Wettreich sentiu pena em vender alguma delas? Ele garante que não. “Muitos empreendedores têm essa ligação com o negócio. Eu não tenho. Se tivesse, não poderia ser um empreendedor serial. Meu apego dura só enquanto estou administrando”, conta. Entre os empreendimentos favoritos, o empresário cita o iBest. “Já fiz negócios muito bons como investidor, mas considerando as empresas em que estive à frente, o iBest foi o meu melhor negócio em termos de retorno sobre o investimento.” Do provedor, também traz ótimas recordações da equipe, “formada ao longo do tempo e capaz de fazer coisas muito boas”.
Qualquer pessoa que conheça Wettreich sabe que um elogio vindo do empresário vale ouro. Ele não se considera um centralizador, mas reconhece que não dá trégua antes de ter certeza que pode deixar a função na mão de uma pessoa. “Até chegar lá, tenho que fazer micro-management (gerenciar pequenas tarefas). No WeShow, colaboro em tudo, desde o marketing, no que efetivamente eu coloco a mão, até nas áreas financeiras e de desenvolvimento de sistemas”, afirma o executivo.
Comprometimento
Quem já trabalhou com ele sabe bem disso. “Marcos é bastante criativo, corajoso e exigente. Não aceita um não como resposta, sempre há um jeito para se alcançar o seu objetivo. E quase sempre alcança! É 100% comprometido com o sucesso do negócio, a ponto de se envolver em todas as frentes, desde a sua concepção até o dia-a-dia operacional, passando pelas grandes discussões estratégicas. Boa parte do que sei sobre marketing e empreendedorismo aprendi com ele”, conta o executivo Carlos Gamboa, que foi braço direito de Wettreich no iBest e hoje é um dos diretores do banco de investimentos 3G Capital, em Nova Iork.
Exigência é mesmo uma característica marcante do empresário. Sócio no WeShow, Bruno Parodi conhece Wettreich desde 1995, quando foi pedir emprego na Mantel. “No final do processo seletivo tive uma entrevista com o próprio Marcos. Eu tinha apenas 18 anos, nenhuma experiência profissional e a conversa não foi das melhores, eu tinha certeza de que estaria fora. Ele foi muito franco comigo, disse que pelo que tínhamos conversado eu jamais poderia ser admitido, mas que tinha gostado das minhas provas e que acreditava que eu tinha um bom potencial. Marcos não somente costuma ser muito exigente com quem contrata – e nesse caso eu tive uma grande sorte – como, principalmente, consegue radiografar as pessoas em pouquíssimo tempo de contato. E, em geral, tem razão sobre suas impressões.”
Órfão de pai desde os cinco anos, Wettreich teve que se virar sozinho muito cedo. A mãe trabalhava fora o dia inteiro e o pequeno Marcos foi aprendendo que era preciso ser independente. Excelente aluno, ganhou bolsas durante todo o período escolar. Seu único emprego foi como estagiário da Cobra Computadores, durante a faculdade de engenharia. Ele poderia ter construído carreira na empresa, mas por sorte a Saga lhe resgatou para o empreendedorismo. “Marcos é absurdamente dedicado, planejado e decidido. E, principalmente, obcecado para que o produto final seja surpreendente. Ninguém entra para a história pelas noites que não dormiu, pelo que tentou e não funcionou, mas sim pelo que conseguiu cumprir e realizar”, elogia Parodi.
Mas Wettreich não esconde suas iniciativas frustradas. Junto com a Saga ele teve uma “empresinha” de manutenção de computadores com dois amigos que acabou quebrando. “Éramos um grupo de crianças com 20 e poucos anos sem experiência nenhuma”, justifica o empresário. A Opinia, empresa de pesquisa na internet da qual foi sócio também, foi extinta antes de dar o retorno que esperava. A editora MantelMedia foi “um grande prejuízo financeiro”, porém serviu para fomentar e gerar publicidade para os outros negócios, como iBest e Mlab.
Para o empresário, seu ponto fraco é acreditar demais. “Talvez eu pudesse ser um pouco menos otimista sem abrir mão de fazer tudo o que faço porque empreendedor que não é otimista cresce muito devagar”, afirma Wettreich. Ele explica que, se pudesse voltar atrás, subdimensionaria algumas iniciativas de modo a ter menos custos. Como exemplo, cita a MantelMedia, onde por diversas vezes decidiu fazer tiragens bem maiores do que o necessário. “Eu acreditava que escoaria o produto, depois até inventava uma solução para o problema, mas poderia ter obtido resultados com investimentos menores.”
Como bom empreendedor, Wettreich é obstinado pelo retorno sobre o investimento. Talvez por isso não hesite em vendê-las assim que cumpre sua principal meta. Se o WeShow terá o mesmo destino de empreendimentos como o iBest, só o tempo dirá. Mas o empresário adianta: “Para mim, a empresa dá certo no momento em que é vendida e eu recupero o meu investimento”.
Marcos Wettreich
Nascimento: 1963, Rio de Janeiro
Formação: Engenharia Eletrônica com pós-gradução em Marketing pela PUC/RJ e OPM (Owner President Management) pela Escola de Negócios de Harvard
Empresa: WeShow
Ramo de atuação: Conteúdo
em vídeo na web
Cidade-sede: Rio de Janeiro
Número de funcionários: 40
Contato: (21) 2546-3100 / www.marcoswettreich.com.br
Principais empresas
WeShow - Criado em 2007, consome toda a atenção de Wettreich no momento. A proposta do empreendimento é de um guia de vídeos, no estilo YouTube, com portais exclusivos para o Brasil, Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Japão e China. Atualmente, soma 5 milhões de usuários mensais.
iBest - Um dos mais importantes e bem-sucedidos negócios criados por Wettreich, o iBest é considerado o segundo maior provedor de internet no Brasil e o Prêmio iBest é o Oscar da internet brasileira. Fundado em 1995 com investimentos de US$ 5 milhões, foi vendido em 2003 para a Brasil Telecom por US$ 71 milhões.
Mlab - Primeira empresa de marketing na internet, a Mlab foi mais um ótimo negócio de Wettreich. Criada em 1996 com US$ 2 milhões, foi vendida em 2001 por US$ 36 milhões à Cemex e deu origem à Neoris (www.neoris.com). A consultoria atua na Europa, Estados Unidos, América Latina, Oriente Médio e África.
Mantel / MantelMedia - A empresa foi o primeiro negócio criado por Wettreich, em 1990. Produtora de conferências sobre tecnologia, chegou a realizar mais de 100 congressos em sete países até ser vendida para o grupo italiano Mondadori, em 1996. Em 1995, ainda criou a MantelMedia, que publicou a Internet World, primeira revista sobre internet no Brasil.
Nirvana - Um dos poucos empreendimentos idealizado por Wettreich fora do universo da web, o Nirvana foi criado em 2004 com a proposta de ser um centro de bem-estar. Com duas unidades no Rio de Janeiro, oferece atividades físicas, terapias, massagens e serviços de spa, além de restaurante e loja de alimentos saudáveis.
O QUE FAZER
- Observar carências do mercado e transformá-las em oportunidades de negócios
- Trabalhar muito e buscar sempre a perfeição em cada uma das tarefas executadas
- Gerenciar de perto cada área da empresa até ter certeza que a equipe está preparada
O QUE NÃO FAZER
- Subestimar o potencial da concorrência
- Não dimensionar corretamente o potencial de venda do produto ou serviço
- Ser pessimista com relação ao negócio