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08/07/2010 10:41
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Com o time na mão

por Alexandre Gonçalves
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Como aplicar a “cartilha” de Dunga para encarar os desafios enfrentados pelo varejo ao longo do ano

No país do futebol, onde o que não falta é brasileiro metido a técnico, costuma-se dizer que cabeça de treinador é sempre imprevisível: nunca se sabe o que vai sair de lá. Se o treinador em questão for o da Seleção Brasileira em época de Copa do Mundo, a imprevisibilidade atinge seu grau máximo, para surpresa e até espanto do torcedor. Foi assim quando o técnico Dunga anunciou a convocação dos jogadores para disputar a Copa do Mundo na África do Sul. Ao convocar uns e não levar outros – pedidos em massa pela torcida e pela mídia esportiva –, Dunga justificou suas escolhas com uma espécie de “cartilha” para convocação, baseada não apenas no desempenho dos atletas em campo, mas principalmente em qualidades como coerência, comprometimento, confiança, liderança, espírito de equipe, responsabilidade e resultados.

Diferente do técnico da Seleção, o dono de loja não prepara sua equipe apenas para uma competição que acontece de quatro em quatro anos. Ele precisa ter o time na ponta dos cascos, jogando por música a qualquer tempo para encarar as “copas do mundo” que o varejo disputa no decorrer do ano: Natal, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia dos Namorados, Dia das Crianças, volta às aulas...
Assim como Dunga não levou em conta somente aspectos técnicos para escolher os 23 jogadores que foram para a Copa, o lojista também pode levantar a bola da sua equipe usando critérios semelhantes aos adotados pelo comandante do time canarinho. Da mesma forma como não bastou a habilidade com a bola nos pés para garantir uma vaga na Seleção, não basta o bloco de nota fiscal na mão do vendedor e a vocação para vendas para fazer dele um craque da loja. É possível ir além e, quase sempre, é preciso.

Com a ideia de adaptar para a realidade do varejo os principais pontos da “cartilha Dunga”, a Dirigente Lojista reuniu um time de cinco consultores especializados em gestão de pessoas para debater o tema. O resultado desta tabelinha você acompanha nas páginas a seguir. Preparado para ter o time na mão, como se diz na gíria do futebol? Vire a página.

A importância da coerênia

Após o anúncio dos 23 jogadores convocados para a Copa do Mundo, o técnico Dunga justificou a presença de alguns e a ausência de outros na lista com uma palavra: coerência. Para ele, não fazia sentido desprezar o trabalho feito desde que assumiu a Seleção e convocar jogadores que mal começaram a se destacar. Para muitos, a coerência pregada por Dunga estava mais para teimosia.

Internamente, na relação entre comandante e comandados, a coerência, desde que não confundida com teimosia, tem tudo para ser um pilar importante na busca dos resultados desejados. “O maior risco que um lojista corre ao confundir coerência com inflexibilidade é não reter talentos que são fundamentais para ter competitividade e fazer a diferença”, afirma o consultor Gilclér Regina. “Em time que se ganha, também se mexe, mas só acho que não se pode ser radical nem de um lado nem de outro”, diz.

O consultor Evaldo Costa concorda: ser inflexível achando que está sendo coerente coloca o lojista numa zona de risco. “O lojista deve possuir visão empreendedora, estar aberto e alinhado com novos conceitos de gestão, escutar com sapiência, ter boa capacidade de liderar pessoas e processos”, afirma. Na avaliação de Costa, a maioria das pessoas admira a qualidade de coerência do outro. Sempre haverá momentos em que o lojista terá que tomar decisões difíceis. “Aí se age coerentemente, as chances de sua decisão ser acolhida pelos colaboradores serão enormes”, aponta.

Da mesma forma, o impacto de decisões incoerentes também deve ser medido pelo lojista antes de ser tomada. Para Gilclér Regina, o que está em jogo, neste caso, é a credibilidade da equipe para com a liderança. Se o lojista age de forma incoerente, diz Regina, a reação de gerente e vendedores vem em forma de insatisfação e desmotivação. “De certa forma, eles se sentem traídos na confiança e na credibilidade, o que prejudica os próximos passos do planejamento da loja e gera um descompromisso da equipe”, alerta.

Além da desmotivação, Evaldo Costa acrescenta que as atitudes incoerentes do lojista aborrecem, constrangem e podem até incentivar sentimentos de revanche. Por isso, devem ser evitadas a todo custo. “Imagine um incoerente dizendo: ‘vamos lá gente, nós vamos conseguir alcançar a meta’”, diz Costa. “Você acha mesmo que alguém o seguirá? Pouco provável”, conclui.

A cultura da liderança positiva

A presença de Gilberto Silva no time de Dunga rendeu críticas da mídia esportiva, sob a alegação de que a atual fase técnica do volante está longe daquela da campanha vencedora na Copa de 2002. Mas Gilberto Silva não é só um volante. É também um dos líderes que Dunga identificou no time brasileiro. Tanto que, na ausência de Lúcio, é o ex-atleta do Atlético Mineiro quem assume a faixa de capitão. “O processo de liderança ocorre naturalmente, independentemente do cargo”, conta o consultor Jerônimo Mendes. “Conhecimento e habilidades são fundamentais, entretanto, as atitudes dependem de cada líder em particular”, diz.

Para identificar lideranças, basta olhar mais atentamente. É o que sugere o consultor Paulo Roberto de Souza. “O líder tem como competência desenvolver pessoas, tem a capacidade de estabelecer os rumos do negócio e se comunicar com clareza com as equipes”, afirma. “Ele também entende quais as competências necessárias a desenvolver em cada um do time.” Sobre estimular novas lideranças, Souza diz que a equipe de vendas trabalha com um foco muito específico. Para atingir as metas, é preciso que o foco não seja desviado. “Mas há vendedores que têm o perfil de liderança, que estimulam os colegas de trabalho, que não são competitivos entre si, por exemplo.”

Assim como o capitão é o técnico dentro de campo, o líder da loja precisa ter voz ativa nas decisões estratégicas. “A participação dos líderes de equipe deve ser integral porque eles vivenciam diariamente o processo de vendas”, diz Mendes. Paulo Roberto de Souza concorda e acrescenta: “É fundamental saber ouvir a equipe, principalmente o pessoal do front, que poderá passar informações sobre o comportamento dos consumidores.”

Para se aproximar dos outros líderes da loja, o dono pode contar com a ajuda do gerente. “Quanto mais aberta e clara for a comunicação, melhor”, avalia Paulo Roberto de Souza. “O lojista não deve temer o fato de os funcionários poderem expressar suas ideias livremente”, lembra.

Jerônimo Mendes diz que a forma como o lojista vai chegar ao líderes da equipe depende do estilo de liderança utilizado. O lojista deve estar aberto a todas as percepções. “Entretanto, deve tomar cuidado para não atropelar a hierarquia e provocar desconforto para a liderança principal”, diz. “O lojista deve deixar claro sua forma de monitorar e andar com frequência pela loja a fim de levantar percepções sobre o comportamento dos clientes e dos funcionários.”

Aprenda a dividir responsabilidade

Além de pitacos sobre a forma do time jogar, o auxiliar técnico Jorginho esteve sempre ao lado de Dunga nas entrevistas coletivas com voz ativa para tomar a palavra e rebater críticas ao trabalho da dupla na Seleção. Nem sempre acertou o tom, mas assumiu para valer suas responsabilidades como fiel escudeiro. “O líder precisa saber delegar, dando poderes e cobrando responsabilidade”, diz o consultor Evaldo Costa. “Caso contrário, será pouco provável que consiga montar um time vencedor.” Segundo Costa, as pessoas desejam ser desafiadas para provar que são capazes. Quem não delega e cobra responsabilidade, na opinião do consultor, acaba se tornando um centralizador e a loja dificilmente será maior do que o alcance de seu braços.

Saber dividir responsabilidade é fundamental não só para que a loja possa “andar”, mas que tenha possibilidade de crescer. “Com uma equipe comprometida, o lojista tem tempo de cuidar realmente do crescimento do negócio e não perde tempo com questões cotidianas”, afirma o consultor Paulo Roberto de Souza. “É necessário preparar a equipe até que atinja um nível de experiência que permita a total delegação de poderes e responsabilidades”, defende.

Mas o lojista brasileiro está preparado para dividir responsabilidades com sua equipe? Costa e Souza acreditam que sim e isso estaria ligado a uma mudança no perfil do lojista, muito mais atento e interessado em aprimorar sua gestão. “No passado, era raro encontrar um pequeno lojista em um congressos fora do país, como a National Retail Federation, em Nova York, por exemplo”, conta Costa. “O lojista brasileiro entendeu que o sucesso dificilmente será obtido somente com o umbigo enterrado na loja”, garante.

O que pode emperrar a divisão de responsabilidades é a forma como isso é feito. Para Evaldo Costa, depende muito do tamanho da loja, mas sempre é possível dividir tarefas e responsabilidades. Ele sugere um sistema de rodízio. “O funcionário escolhido para cuidar da arrumação da loja este mês poderá ser responsável pela pesquisa de satisfação de clientes no próximo, e no outro, pelas tarefas administrativas”, diz. O lojista também pode dividir a responsabilidade de pensar novas ideias para a loja, como sugere Souza. “A equipe de vendas deve ser ouvida para que possa passar feedback e sugestões para o desenvolvimento do negócio e a melhoria do atendimento.” Ouviu?


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