Voz da Experiência
09/01/2009 13:28
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Veia empresarial

por Francis França

Aos 18 anos Fernando Perri abriu sua primeira empresa, e dos percalços que ninguém está livre fez negócios melhores

Aos 18 anos Fernando Perri abriu sua primeira empresa, e dos percalços que ninguém está livre fez negócios melhores

Foto Casa da Photo |Fernando Perri decidiu inaugurar a Vivenda do Camarão no Dia dos Namorados, para garantir que teria um mínimo de público. Ele convidou uns quatro casais de amigos para fazer número e contou que viriam outros três ou quatro casais de clientes. Como sempre foi otimista, deixou no freezer camarão suficiente para atender 40 pessoas. Não fez publicidade, queria começar devagar para ir sentindo o negócio. Durante os três meses que levou para reformar a casa velha no Bairro Moema, em São Paulo, só deixou uma faixa na porta com os dizeres: “Em breve, o melhor camarão do Brasil a preço justo”.

Naquele 12 de junho de 1984, depois de preparar tudo e orientar o pessoal especializado que ele tinha contratado para trabalhar consigo, Perri foi para casa descansar para a inauguração à noite. Na volta foi surpreendido por um congestionamento gigantesco, teve que deixar o carro longe e ir a pé para conseguir chegar. Quando já estava bem perto, veio o baque: o tumulto era no seu restaurante. Mais de mil pessoas esperavam para ocupar um dos 105 lugares disponíveis na casa. A fila ultrapassava cem carros para o único manobrista.
Quando já estava para acabar até a bebida do bar, o cabo de energia derreteu inteiro, e lá se foi a luz – a rede não suportou todos os equipamentos ligados. Era o pretexto que eles precisavam para pedir desculpas e mandar o pessoal para casa sem cobrar a conta. Fora uns poucos encrenqueiros, a maioria do pessoal entendeu. O restaurante fechou para outra reforma: ampliar o espaço de saída dos pratos, comprar mais equipamentos, repensar toda a operação. “Foi um grande vexame”, diz Perri, que hoje se diverte com a história.

A reinauguração veio depois de uma semana, em silêncio e sem nenhuma faixa na porta, para poder aprender aos poucos. No primeiro dia, vieram aqueles 20 casais esperados, na semana seguinte lotou, e no mês seguinte a fila de espera já era de duas horas. Hoje, a Vivenda do Camarão atende em 58 unidades próprias, mais 27 franquias, e vende cerca de 100 toneladas de camarão por mês. Há cinco anos a taxa de crescimento anual médio é de 25%. Em 2009 estão previstas pelo menos mais 15 unidades, e a empresa vai começar a atuar em três novas frentes: tele-entrega, bufê para eventos e fornecimento para hotéis, motéis e restaurantes.

Quando ocorreu o episódio da inauguração, Perri tinha 32 anos e já estava bastante acostumado a lidar com os imprevistos da vida empresarial. Aos 18 anos de idade, ele foi até o cartório fazer sua emancipação só para poder abrir um negócio – privilégio dos maiores de 21, naquela época. Começou com uma lojinha que vendia placas de borracha para fazer sandálias e chapéus de náilon estilo pescador. Ele comprava no interior de São Paulo e revendia no atacado para o Nordeste.

Estava para se formar na faculdade de administração quando começou a trabalhar em uma empresa de consultoria e planejamento fazendo projetos de viabilidade financeira para clientes que quisessem contratar financiamentos no BNDES, abrir capital, etc. Ficou nessa empresa dos 21 aos 27 anos, trabalhando com mercado de capitais, carteiras de investimentos e chegou a ser operador na Bovespa. Até que a veia empreendedora chamou de novo e ele começou sua própria empresa de consultoria e planejamento, junto com um negócio de importação de copiadoras e fitas para máquinas de escrever.

 

Perri conheceu os camarões porque foi obrigado. Seu negócio de importação de copiadoras ia muito bem quando a balança de pagamentos da economia brasileira teve problemas e o governo começou a cortar as cotas de importação, a menos que o empresário exportasse alguma coisa em troca. Perri perguntou para seu intermediário nos Estados Unidos o que poderiam negociar, e ele disse que venderia o camarão que Perri mandasse do Brasil. Com o intercâmbio, conseguiu manter a importação do material reprográfico por dois anos, até que o governo cortou as cotas definitivamente.

Mercado nacional

No melhor estilo “há males que vêm para bem”, Perri se viu com um contêiner de camarão da melhor qualidade sem poder mandar para o estrangeiro e com um mercado doméstico que ficava sempre com as sobras. “O brasileiro comia o que não servia para os americanos e pagava mais caro, porque tinha um monte de intermediários. Quando me cortaram as cotas de importação, decidi vender camarão de qualidade e a preço baixo dentro do País”, conta.

Foi então que ele colocou a tal faixa na frente de seu primeiro restaurante. O público começou a ficar impaciente com esperas tão longas, e ele decidiu em 1986 abrir uma segunda unidade nos Jardins, com 250 lugares, que depois foi ampliada para 400. Em pouco tempo, a lotação já era máxima e, apesar da proposta de popularizar o camarão, a casa vivia cheia de celebridades, como Faustão, Bruna Lombardi e Mário Covas, que tinham mesas permanentemente reservadas.

Em 1989 Perri foi convidado para abrir uma unidade da Vivenda do Camarão no Shopping Morumbi. Ele investiu em chope e petiscos, mas a aprovação foi baixa, porque o público queria a mesma comida servida nos restaurantes. No ano seguinte ele resolveu atender ao apelo e lançou o cardápio tradicional, em pratos de cerâmica e talheres de aço. Foi um sucesso.

Depois de algum tempo, Perri começou a ter problemas com o fornecimento dos camarões. Ele precisava de um volume tipo exportação muito grande, e não conseguia comprar de forma constante porque as safras eram cada vez menores. “Infelizmente os produtores não tinham o cuidado ecológico necessário, pescavam na época do defeso, com equipamentos que matavam até os camarões pequenos, e o desastre foi tal que começou a faltar camarão.” A saída foi importar do Equador e do Peru, mas lhe rondava um antigo fantasma: e se o governo inventasse de cortar as importações de novo?

Entre 1999 e 2000 ele decidiu montar sua própria fazenda no interior da Bahia, baseada em padrões modernos que tinha visto no exterior. A produção, de 60 toneladas por mês, atendia à demanda da época, e ele manteve o cultivo até 2004. “Quando montei a fazenda, várias outras começaram a surgir, então vendi a minha para um grande produtor e fui cuidar do meu negócio, que era restaurante. Eu só tinha montado a fazenda por uma questão estratégica, mas para mim não compensava o investimento”, explica. Hoje Perri compra de diversos produtores em todo o Nordeste, região onde o clima favorece o cultivo.

Toda a matéria-prima é rastreada e livre de agrotóxicos. Perri tem permissão para exportar produtos prontos e congelados aos EUA e à Europa, com um ano de validade. Os pratos vão prontos e embalados individualmente para as unidades, depois de passarem por um rigoroso controle de qualidade. “No restaurante os pratos são esquentados em banho-maria e vão para o prato da pessoa sem passar por nenhuma manipulação. Isso nos permite multiplicar a distribuição no País inteiro sem comprometer a qualidade, e somos fiscalizados em toda a cadeia, desde a compra da matéria-prima até o fornecimento ao cliente”, explica Perri. A empresa que controla a Vivenda do Camarão, a produção, fornecimento para terceiros e exportações é a Great Food, criada por Perri em 1994 para ser sua cozinha industrial e centro de operações.

 

Foto Casa da Photo |Até hoje, a Vivenda do Camarão tem apenas 27 franquias. Pedidos, há mais de 100, mas experiências amargas no passado deixaram Perri muito cauteloso na hora de conceder a licença da marca. Uma delas foi em Portugal. A empresa tinha cinco unidades no país, mas, em função de distância e custos, a fiscalização só era feita a cada 90 dias. Com o tempo, Perri percebeu que seu franqueado estava misturando outros produtos aos seus e não obedecia aos procedimentos exigidos. Depois de algumas advertências, decidiu cancelar o contrato. Os outros dois casos aconteceram no Brasil, com um franqueado que deixou o restaurante na mão de terceiros. “Só cedemos a franquia a pessoas que confiamos muito, e assim mesmo só em mercado onde não vale a pena montarmos uma estrutura própria.”
Por causa dos problemas ocorridos em Portugal, a empresa pensa com cuidado no processo de internacionalização. Há pedidos de franquia nos EUA e Europa, e no ano passado foi inaugurada uma unidade no Paraguai, mas o foco da rede é acompanhar o crescimento dos shoppings no Brasil – há 70 deles previstos para abrir em dois anos.

Embora a expansão das franquias seja controlada, o desempenho das que existem é excelente, “tanto que a maioria dos franqueados tem mais de uma unidade”. Quem explica é Diego Perri, 30 anos, filho de Fernando e que, como o pai e o irmão Rodrigo, começou a trabalhar cedo na própria empresa. Atual diretor de operações e franquias, Diego começou aos 17 anos, e seu irmão, aos 16. Ambos formados em administração de empresas e com MBA, eles passaram por todos os setores da empresa e assumiram o negócio junto com o pai por opção. “Mesmo antes de trabalharmos como estagiários, depois da aula íamos para o restaurante no Shopping Morumbi e ficávamos lá com os funcionários, pedíamos para ajudar, eu gostava muito de ficar na cozinha”, conta Diego. Para Rodrigo, 32 anos, atual diretor de expansão e marketing, a experiência que adquiriram ao começarem cedo compensa o fato de serem jovens. “Estamos há mais de 15 anos na empresa, acompanhamos todas as mudanças, não só internas mas do mercado, e isso nos dá muita agilidade na hora de tomar decisões e resolver problemas”, afirma.

Com o pai, eles aprenderam que as aulas só se transformam realmente em conhecimento quando postas em prática, com o trabalho do dia-a-dia. Fernando Perri se considera um homem de sorte por poder contar com o apoio e engajamento dos filhos e da esposa, que também participa das decisões. Mas o que ele chama de sorte, na verdade, foi a combinação de competência para aproveitar as oportunidades, persistência para consertar os erros e uma boa dose de imprevistos que lhe renderam guinadas providenciais.

Fernando Perri
Idade: 59 anos
Local de nascimento: São Paulo
Formação: Administrador de empresas
Empresa: Vivenda do Camarão
Data de fundação: 1984
Ramo de atuação: Gastronomia
Unidades: 58 próprias e 27 franqueadas
Cidade-sede: Cotia (SP)

Bússola empresarial

O QUE FAZER
- Buscar um negócio de que goste
- Ter coragem e não desanimar nunca
- Elaborar planos de viabilidade antes de abrir o negócio
- Conhecer o mercado que escolheu para atuar
- Conhecer instrumentos de controle financeiro

O QUE NÃO FAZER
- Se associar a pessoas que não estejam comprometidas com o negócio
- Não se capitalizar e usar dinheiro de terceiros
- Convidar amigos para trabalhar
- Entrar sem diferencial para competir com quem está no mercado há mais tempo
- Começar a atuar sem conhecer a fundo as variáveis que influenciam no negócio


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